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Gestão arrojada, funcionários felizes: bem-vindo à melhor empresa do Brasil

Bruno Leuzinger - 21 out 2015
O ambiente da empresa: paredes de vidro criam uma atmosfera bem iluminada e dão vista para o verde do campus da Unisinos
Bruno Leuzinger - 21 out 2015
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Dizer que a sua empresa é a melhor do país soa como mania de grandeza, tolice de quem não sabe “vestir a camisa” corporativa sem cair no ridículo. A menos, claro, que seja verdade – nesse caso, o crachá vira motivo de orgulho, ganha status de uma medalha olímpica de ouro. Nesta segunda, dia 19, a revista Você S/A promoveu em São Paulo a premiação do guia As Melhores Empresas para Você Trabalhar, revelando os vencedores do ranking. No topo da lista geral está uma empresa de 648 funcionários localizada dentro de um campus universitário: a SAP Labs Latin America, o centro de pesquisa, desenvolvimento e suporte da multinacional alemã SAP instalado desde 2006 num parque tecnológico que funciona junto à Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo, na Grande Porto Alegre.

O prêmio não é por acaso: em 2014, o ranking da mesma revista já posicionara a SAP Labs como a melhor empresa de TI para se trabalhar no Brasil, reconhecendo as práticas arrojadas de gerenciamento e gestão de recursos humanos. “Esse prêmio é importante para que a gente possa comparar as nossas práticas em relação às dos nossos competidores – e também para atrair, reter e motivar talentos”, diz Adriana Kersting, diretora de RH. “Os nossos funcionários têm orgulho de estar numa empresa que é considerada a melhor para se trabalhar no Brasil”. Esse grau de satisfação se espelha em uma estatística simples, que a diretora faz questão de destacar: em nove anos, a SAP Labs Latin America não teve sequer um processo trabalhista movido por um funcionário não-terceirizado. Nas próximas linhas você vai entender o porquê.

Ambiente sob medida

Imagine trabalhar em uma empresa onde você é consultado para opinar sobre o mobiliário e a ambientação do escritório – independentemente se o seu cargo é de gerente ou estagiário. Uma consultoria americana contratada pela SAP Labs Latin America promoveu reuniões com funcionários que se voluntariaram a dar pitacos no processo. “Nas reuniões, eram levantadas as necessidades de cada um”, diz Adriana. “Como gostariam que o ambiente de trabalho fosse desenhado? Que tipo de mesa? Com ou sem divisórias? E as cadeiras, como deveriam ser?”. Na etapa seguinte, três companhias de mobiliário de escritório foram convocadas a apresentar projetos de estações de trabalho seguindo as especificações. “Todos os funcionários puderam avaliar, sentar, olhar e dar o seu voto. Esse processo definiu os móveis que temos até hoje”.

Único prédio de todo o Rio Grande do Sul com certificação LEED Gold de edificações ecologicamente corretas, a sede da SAP Labs Latin America é desenhada para aproveitar ao máximo a luz externa (as laterais inteiras são de vidro), criando uma atmosfera agradável com vista para o verde que rodeia o campus da Unisinos. Todos os materiais são antialergênicos; nas torneiras, a água é temperada – fria no verão, quente no inverno. Em 2013, a segunda fase do projeto arquitetônico ampliou a sede e criou novos espaços de convivência, como uma área de churrasqueira, o refeitório – outro restaurante, alternativo, funciona o dia todo – e uma área de lazer com videogame e pebolim (também conhecido como “fla-flu” entre os gaúchos). Há redes, coffee corners com café, chá e frutas, e até um nap room – uma sala de soneca. Dois dias por semana, os funcionários têm direito a sessões gratuitas de quick massage. Nas segundas-feiras, ao fim do dia, um treinador subsidiado pela empresa dá aulas de corrida.

Não admira que a aprovação da SAP Labs Latin America seja altíssima entre os próprios funcionários. Uma pesquisa anual, anônima, feita por meio de plataforma online e conduzida por uma consultoria externa, indica que 90% da equipe aprova a empresa – o índice mais alto entre os 15 SAP Labs no mundo. A pesquisa não é obrigatória: em 2014, o engajamento foi de 93%. Os funcionários são convidados a responder perguntas atribuindo notas de 0 a 10 para cada questão (de 7 para cima, a avaliação configura-se como positiva). Quando perguntados se recomendariam a SAP como “um excelente local de trabalho”, 98% dos que responderam concordaram. Para a questão sobre se “na maior parte das vezes, eu me me sinto seguro de dar a minha opinião na SAP?”, a porcentagem positiva foi de 85%. Esses dados norteiam as ações de um comitê formado por um empregado de cada área, que se reúne todo mês para discutir planos de ação para melhorar os pontos com níveis de satisfação mais baixos.

As avaliações de desempenho dos funcionários são obrigatórias e se baseiam em metas estabelecidas no início do ano. Para garantir a uniformidade de critérios, os gerentes sob um mesmo diretor fazem reuniões de calibragem de expectativas junto com o executivo e mais um representante do RH – assim, evitam-se avaliações condescendentes ou muito rigorosas. Se um funcionário apresenta problemas de desempenho, o gerente entra em contato com o RH e depois comunica formalmente o subordinado de que ele irá participar de um plano de melhoria de performance – que pode se prolongar por um semestre inteiro, com reuniões quinzenais. “Nunca vai acontecer de alguém chamar um funcionário pela manhã e dizer ‘olha, você está demitido’, sem que esta pessoa saiba que esteve em um programa formal de melhoria de performance”, afirma Adriana. “A gente tem hoje 80% de sucesso neste programa”.

Flexibilidade gera inovação

Estimular a equipe não chega a ser um problema. O turnover (rotatividade de pessoal) da SAP Labs Latin America gira em torno de 4% a 5%, baixo para a média do setor de TI. “Há vários arranjos de flexibilização, de forma a atender as demandas do estilo de vida de cada um”, diz Adriana. Essa flexibilidade se estende às horas de entrada e saída, à possibilidade de home office e ao pacote de benefícios. Do ex-estagiário recém-efetivado ao presidente, todos têm plano de saúde 100% pago pela empresa, duas opções de plano odontológico (um com foco em reembolso e o outro que prioriza a rede credenciada), plano de previdência privada e participação nos lucros. Além disso, os funcionários recebem “pontos” que podem ser usados conforme a conveniência. “Se eu não tenho interesse em um seguro de vida mais completo, posso fazer o básico e usar os meus pontos para reembolso de remédios ou da academia”.

No último ano, 3 000 pessoas se candidataram a uma das 140 vagas abertas na SAP Labs Latin America. Um pré-requisito é dominar o inglês. O idioma é usado no treinamento de novos funcionários e na comunicação com alguns colegas – a começar pelo presidente, o simpático Dennison John, natural da Índia e há seis anos em São Leopoldo. Neste ambiente globalizado, multicultural, estrangeiros compõem 4% da equipe. O fluxo é de mão dupla: em média, 1,5% dos funcionários se transfere por ano para outras unidades da SAP no mundo. A cada sexta, um e-mail divulga vagas disponíveis na América Latina. “As vagas aqui são abertas e todos os funcionários podem se candidatar, desde que tenham dois anos no cargo atual”, diz Adriana.

As mulheres ainda são minoria na empresa: 23%. Parece pouco – e é mesmo. Mas não se comparado ao índice (6%) de 2006, quando a SAP Labs abriu as portas. Essa discrepância reflete o desequilíbrio de gênero no setor de TI. A presença feminina nas universidades do estado, em cursos como matemática e ciência da computação, não costuma ultrapassar os 8%. Para engajar as mulheres, a empresa convida universitárias a tomar parte em torneios tecnológicos e planeja atividades exclusivas para suas funcionárias. Vinte delas participaram, em julho, de um evento batizado de speed mentoring, com sessões-relâmpago de mentoria em construção de carreira com cinco diretores sêniores da SAP. A licença maternidade de seis meses, uma aspiração das mulheres ainda opcional para as empresas, já vigora há tempos na SAP Labs, que recentemente inaugurou uma sala de coleta de leite para as mães em retorno ao trabalho.

Como outras firmas, a SAP Labs Latin America disponibiliza transporte para os funcionários, ida e volta. A diferença aqui está nos níveis de planejamento e capilaridade. São 12 linhas de ônibus customizadas, pensadas para que ninguém caminhe mais de 600 metros ou permaneça a bordo por mais de 1h45 em cada trecho (São Leopoldo fica a cerca de 30 quilômetros de Porto Alegre). As rotas podem ser redesenhadas conforme as necessidades de um funcionário novo ou desmembradas se o limite de tempo de viagem for excedido. Sensores nos veículos abastecem a plataforma de processamento de dados da empresa, informando aos usuários, em tempo real, a posição do ônibus e o horário estimado de chegada. Assim, com inteligência e tecnologia, o funcionário se desloca com mais agilidade, chega mais cedo em casa para curtir a família – e retoma o trabalho com ânimo em dobro no dia seguinte.

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