“Já pulei refeições para ter dinheiro para levar meu negócio adiante”

Suellen Borelli - 9 dez 2014
Suellen Borelli, CEO da Caixa de Treinamentos (foto: Nelson Shiraga).
Suellen Borelli - 9 dez 2014
COMPARTILHE

 

Por Suellen Borelli

 

Acordar com uma sensação de frio, de silêncio e uma pergunta na cabeça: “O que você está fazendo?”. Essa pode ser uma das sensações na vida de qualquer um que se pega pensando na “morte da bezerra” mas, quando se está empreendendo, quando toda a sua vida financeira depende do seu negócio, esse questionamento pode soar um pouco mais aterrorizante.

Se na minha cabeça passa isso, fico imaginando o quanto outras pessoas se perguntam algo do tipo: “Por que a Suellen ainda está fazendo isso?”. Quando decidi empreender, decidi assumir coisas que ainda estou aprendendo, ninguém me obrigou, ninguém me ensinou e, para dizer a verdade, poucos entendem. Num negócio, existem muitas partes importantes, porém, vou focar em duas que são meus maiores desafios: finanças e força pessoal.

Qual é o meu negócio? Evoluir pessoas e negócios por meio de treinamento. Um pouco paradoxal talvez, evoluir outros enquanto se evolui, mas o que é a vida se não um aprendizado constante? No começo do negócio, em 2013, todo o dinheiro que tinha (cinco meses de seguro desemprego) parecia ser suficiente para sustentar a mim e minhas ideias.

O que me ajudou e muito foi uma amiga, que me deu suporte em todo este processo de iniciar um negócio. Sem ela, teria sido bem mais difícil. Não ter uma visão mais realista sobre dinheiro talvez tenha sido uma das maiores ilusões da minha vida. Digo isso porque em família só aprendi a pagar contas — e não a ganhar dinheiro.

Quando é dinheiro que começa a faltar no seu negócio, e na sua vida, a primeira palavra que vem à mente é sobrevivência, fazendo você atualizar o seu currículo imediatamente. Fui criada assim. Enquanto eu recebia um salário mensal, estava psicologicamente estável, mas não receber salário fixo era “coisa de desempregado” no meu aprendizado antes de empreender.

Quem já ficou sem emprego sabe do que estou falando: a sensação de vazio, o frio na espinha, de estar excluído da sociedade. Para quem tem filhos, então, isso é ainda mais apavorante. No meu caso são dois cachorros, o que não deixa de trazer preocupações. A única certeza que você passa a ter é de que as contas chegarão na caixinha de correio, e adivinhe: elas estão lá.

Você olha para o currículo, olha para o seu negócio, e fica em dúvida sobre para onde ir. Você olha para cima e começa a orar. A razão e a emoção me direcionam para lugares diferentes, por isso coloco a minha fé e o coração na frente. Estou há mais de um ano sem receber salário fixo e me pergunto como consegui pagar aluguel, alimentação, ração, condução, contas da empresa etc. Quando você tem um dia certo pra receber, direciona os pagamentos de contas para aquela data. Empreendendo é diferente: você faz um trabalho hoje para ser faturado daqui 15 dias, você recebe uma entrada e cheques para outros dias.

É preciso ir “jogando com as datas”. Uma vez uma cliente minha depositou um valor para subsidiar um projeto e pedi permissão para utilizá-lo em outro projeto e devolver em alguns dias. Qual o outro projeto? O aluguel de casa. Ao receber de um outro serviço, devolvi o dinheiro.

Já trabalhei em um evento de escola para pagar a conta de energia elétrica. Já dei aulas. Já vendi alguns móveis de casa para cobrir despesas de um mês que percebi que seria fraco. Já fui a pé para o escritório para poupar gastos.

Também já pulei refeições para ter dinheiro para outra coisa. Já emprestei do irmão, de amigos (embora tenha feito isso mais no começo, porque percebo que pedir dinheiro emprestado quando se empreende é mais constrangedor do que estar desempregado, pois parentes e conhecidos repreendem a escolha de empreender).

Para suprir estes possíveis “buracos”, aprendo a prospectar mais, a buscar mais e a compartilhar o que tenho, para que os gastos sejam mínimos. Meu aluguel de casa hoje é compartilhado, a casa é grande e loquei um dos quartos. O escritório também é compartilhado.

Estou nessa jornada há dois anos. O primeiro ano, viajei na maionese em todos os aspectos. Por isso, me considero empreendendo há um ano, pois é quando realmente estou fazendo acontecer. Para lidar com isso e crescer profissional e pessoalmente, aprendi a mergulhar em mim, a criar forças e energias pessoais – pois se desesperar faz você desvalorizar o seu trabalho em alguns momentos, quando se trata de serviços. Para ganhar forças, leio livros como Quem Pensa Enriquece, O Código da Inteligência, A Lei do Sucesso e muitos outros.

Percebi que tinha um problema grande com dinheiro. Não saber como lidar com ele, ou com a falta dele, te faz ficar à beira do abismo. E no desespero a primeira coisa que você pensa é em desistir. Um dos piores momentos para mim foi bem no começo quando, depois de aguardar 30 dias, fui retirar o seguro desemprego e no caixa eletrônico um papel dizendo que eu não tinha direito ao benefício porque depois da última empresa registrada, decidi empreender.

Eu estava sem dinheiro. Se o seguro não saísse, seria o fim do negócio que ainda ia começar a nascer. Eu não teria como bancar aquele mês nem os próximos. Arrumar um trabalho poderia levar dias, meses. Como eu ia me sustentar? E os cachorros? E o aluguel? Voltei para casa com o coração na mão, pois sabia que uma ligação não bastaria para resolver o problema com um sistema do governo. Nunca senti tanto medo. Chorei muito e pedi a Deus para me socorrer. Acredite: senti uma paz depois disso! Parecia escutar alguém dizer “Durma, fique calma!”. No dia seguinte, fui ao único lugar que podia me ajudar, o PAT (Posto de Apoio ao Trabalhador). Detalhe: sem comer e a pé, pois realmente estava sem dinheiro. Ali, bastou um clique no lugar certo e pude receber o seguro. A sensação era de FÉ correndo nas minhas veias.

Sempre que algo muito forte vem tentar impedir meu caminho eu me lembro deste momento em que senti muito medo, me senti sozinha, me senti um nada. Me lembro deste momento nos outros momentos de dor e falo com Deus: “Você me permitiu vir até aqui, não foi a tôa, me dê suporte”. E a energia volta.

Empreender é uma energia para seus sonhos, é um escudo para os seus medos. É como o vento: você não vê, mas está lá. Outro dia uma amiga me disse que não conseguia ver o que eu via no empreendedorismo. Ela está certa, não dá para ver nada, pois é preciso sentir, e para sentir você precisa estar comprometido com isso. Senão, não dá certo. Cada não é uma desistência, cada conta uma derrota, cada lágrima uma desgraça. A caminhada é o maior sucesso dos empreendedores, e eu sigo caminhando.

Se eu precisar voltar para uma empresa, voltarei. Para ser um bom empreendedor, você deve ser um bom empregado. Reconhecer isso é importante.

Empresas precisam de empregados, empregados precisam de empreendedores. Nisso ambos se encontram. Ninguém é obrigado a empreender, mas você tem a liberdade de tentar.

Para tentar, é preciso estar disposto a lidar com o maior sabotador do seu negócio: você mesmo. Posso garantir que este é um grande desafio, mas provavelmente será a maior descoberta da sua vida. Todo dia é novo, por isso empreender é todos os dias. Errou hoje? Aprenda e continue, porém, saiba para onde está indo. Os outros querem ver resultados imediatos, mas só você sabe que seus resultados vêm com o tempo. É uma nova vida.

 

* Suellen Borelli é CEO da Caixa de Treinamentos, empresa com o propósito de evoluir pessoas e negócios através de treinamentos empresariais, comerciais e empreendedorismo. Conhecimentos que inspiram, porque evoluir é preciso. Ela também toca o projeto Empreender 360º.

 

 

417 Total Views 1 Views Today
COMPARTILHE

Confira Também: