Qual é a sua idade interior? Uma pequena pensata sobre envelhecer

Adriano Silva - 10 jul 2020 Ernest Hemingway, que viveu intensamente, aproveitando o que a vida tem de melhor
Ernest Hemingway, que viveu intensamente, aproveitando o que a vida tem de melhor (foto: biography.com).
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Esses dias um amigo me ligou, num desses papos que a distância imposta pela pandemia tornou mais íntimos (ele próprio, uma dessas simpatias e cumplicidades intensificadas pelo isolamento), e confidenciou que estava, pela primeira vez na vida, se sentindo velho.

E eu entendi completamente o que ele dizia. Ele verbalizava exatamente o que eu estava sentindo por aqueles dias. Os jovens dos anos 60 inauguraram essa crença de que jamais se tornariam velhos como seus pais. Quem desabrochou para a vida nos anos 70 renovou esse culto. Sou, portanto, digamos, da terceira geração a vir ao mundo com essa sensação instalada no sistema operacional. Fui adolescente nos anos 80 e estava tudo certo para que eu nunca deixasse de ser jovem.

Assisti aos filmes de John Hughes no cinema, testemunhei o surgimento do Atari e da Nike (e do Kichute), vivi a eclosão do rock nacional, almoçava Marvel, jantava Hanna-Barbera e tinha para o lanche a atitude punk, a estética new wave, o estilo dark. Com esse teor de cultura pop no sangue, era apenas lógico que eu não fosse envelhecer

A gente tem a idade cronológica, contada pelo número de dias que se passaram desde que nascemos. É a idade objetiva. Daqui a alguns meses, diga-se, completo 50 anos.

A gente tem a idade biológica, que tem a ver com a saúde, com o viço do corpo. É a idade física. Dizem que aparento ser alguns anos mais jovem do que diz o RG.

E a gente tem a idade íntima, que expressa a fase da vida em que nos sentimos vivendo, e que reflete nosso frescor mental e o ponto de vista a partir do qual olhamos o mundo. É a idade subjetiva. Penso que essa minha idade interior gira em torno dos 30 anos.

SENTIR-SE JOVEM NÃO IMPEDE QUE OS SEUS VALORES ENVELHEÇAM

Então aquele projeto de eterna juventude, de certa forma, se realizou. Mas apenas parcialmente. Eu me sinto jovem. Mas sei que não sou mais jovem. Essa constatação recente é uma novidade importante – um paradoxo com que tenho de aprender a lidar, e que muda um bocado as coisas para mim.

De um lado, meus valores envelheceram. Até ontem, eu tinha uma compreensão do mundo que parecia fresca, eu fizera escolhas que me mantinham na vanguarda das conversas. Não mais

As conversas com minha filha de 15 anos me mostram isso. Os termos não significam mais a mesma coisa. As noções de correção e incorreção mudaram. Posso até ser moderno, mas não sou mais contemporâneo. Reaprendo com ela coisas que imaginava já saber. Questões de gênero, como compreender Billie Eilish, a estética e a dinâmica de ambientes como o Tik Tok – elementos da vida em 2020 que, a rigor, me escapam.

De outro lado, há conhecimentos funcionais, que fundam o meu cinto de utilidades para levar a vida e conduzir a carreira, que também bastavam até ontem. E que hoje começam a soar insuficientes.

Como jornalista, fiz a transição para o mundo digital há 12 anos. E me sentia orgulhoso desse movimento estratégico.

Deixei a carreira de executivo e o emprego industrial para me tornar empreendedor também há mais de uma década. Em seguida, mergulhei na Nova Economia. E me sentia bem, na vanguarda, com essa decisão

Como empresário, no ambiente de negócios da Nova Economia, criei duas empresas bem-sucedidas, que estão aí até hoje – vendi uma, e venho ajustando a outra constantemente às novas demandas e às novas tecnologias, criando novas ofertas e novas entregas, de modo a permanecer relevante. E me sentia bem com isso.

Eu era contemporâneo das novas tecnologias – embora nunca tenha sido um geek ou um early adopter, eu entendia o que estava acontecendo a ponto de explicar a meus antecessores como os gadgets funcionavam e para onde o mundo estava caminhando.

Hoje há uma nova geração a quem as tecnologias são desenhadas. E começo a precisar que alguém me explique como funcionam e para que servem as novas soluções. Estou me tornando rapidamente um antecessor.

ENVELHECER TALVEZ SEJA ISSO: PERDER O APETITE DE CONTINUAR APRENDENDO

A questão que trago aqui corre por baixo disso tudo: há uma equação em mim, um conjunto de conhecimentos, que sustenta a capacidade de enxergar ameaças e oportunidades, e de fazer as melhores escolhas, com a qual não sei por quanto tempo mais terei condição de contar. (Ou por quanto mais tempo terei interesse em sustentar.)

Todos os seus movimentos na vida são ciência aplicada. Dependem da ciência pura que você tem ou não acumulada dentro de si. Esses algoritmos (na minha época falávamos mais em logaritmos) envelhecem. Ou, ao menos, com os anos, fica cada vez mais custoso atualizá-los.

A gente segura firme na mão do presente, se agarra ao que acontece hoje e assim evolui junto com o mundo e com o mercado. Enquanto você tem essa conexão firme (e enquanto ela lhe for natural), você caminha junto com a realidade, para onde quer que ela vá.

Saber de tudo que está acontecendo, em tempo real ou antes mesmo de as coisas se efetivarem, demanda muita energia e entusiasmo. Trata-se de uma atividade especialmente cruel num mundo de ciclos muito curtos, em que a cada três anos, ou menos, boa parte de tudo que você sabe não tem mais serventia alguma.

Me pergunto se há um momento em que o sujeito larga a mão do presente, se deixa desconectar das premências do hoje, e como que desiste de atualizar as versões do sistema operacional que carrega dentro de si – e assim começa aos poucos a deixar de rodar os novos softwares, que são obrigatórios a quem deseja se manter na crista da onda

Talvez isso seja envelhecer. Perder o apetite de continuar aprendendo. Tomar a decisão de desacelerar. Abandonar o primeiro pelotão. Trocar a corrida pela caminhada. Permitir-se o conforto da ignorância seletiva – há assuntos que o sujeito deixa de seguir, e boa. Começar a dizer “na minha época”, admitindo que não pertence mais aos tempos atuais.

Exatamente por isso é que talvez as pessoas envelhecessem tão cedo no século 20 – você parava de aprender aos 20 e poucos anos e vivia o resto da vida atrelado àquilo que já havia registrado dentro de si, recusando novas formas de pensar e de fazer, como se fossem distrações malquistas.

Ou seja: antes dos 30 o sujeito já estava com seu barquinho estacionado no porto definitivo. Já sabia tudo que havia para saber – e não queria saber de mais nada. Viveria daquele jeito até morrer. Como um velho.

O que me pergunto, de novo, é: até quando o sujeito tem apetite para continuar vivo e ativo? A partir de que momento, na vida, tudo o que ele quer é sair da correnteza central do rio, deixar de navegar pelo mainstream caudaloso, e encontrar pouso numa das margens, para finalmente descansar, e se deixar ficar à sombra de uma palmeira qualquer?

LUZES DE ALERTA SE ACENDEM: É O TEMPO COBRANDO A SUA CONTA NO CORPO

É curioso também como o corpo, a partir dos 45, começa a dar sinais inequívocos de que a idade está chegando. Estou me alimentando, e me exercitando, como nunca antes na vida. Antes da pandemia, eram duas horas de academia quase todo dia. Por agora, 150 abdominais diários, e alongamento para as costas. Não como mais carne (exceto algum peixe ou fruto do mar de vez em quando) e reduzi bastante a ingestão de açúcar.

No entanto, algumas luzes de alerta começam a se acender inequivocamente no painel. Inclusive uma luzinha vermelha: minha lombar foi embora – o disco que sustenta a L5, a vértebra da coluna mais exigida para segurar o peso do nosso corpo bípede, secou. A dor virou uma companheira.

Trata-se de uma falência física importante. Não consigo mais jogar futebol, meu esporte predileto. Correr é difícil – em especial os movimentos de torção da coluna se tornaram impossíveis. É a primeira vez na vida que não tenho em meu corpo as condições de realizar uma determinada atividade

Meus joelhos estão mais frágeis, volta e meia doem – eu que sempre tive articulações à prova de qualquer impacto. Meus olhos, que sempre funcionaram muito bem, perdem cada vez a capacidade de enxergar. A família alega que estou ouvindo mal. E se não durmo bem, no dia seguinte me arrasto – eu que nunca neguei fogo quando precisava empreender alguma maratona no trabalho.

Percebo também como chego a um determinado ponto do dia de trabalho já esgotado – o gás está terminando antes. Vale o mesmo para a ingestão de bebidas alcóolicas: chego ao meu limite rapidinho. Pulo para a água ou para o refrigerante – zero – já na segunda taça.

ATÉ OS 45, VOCÊ VIVE COMO SE TIVESSE 25. DAÍ PARA FRENTE, A IDADE SE IMPÕE

O sentimento de que estou velho tem a ver também com o crescimento dos filhos. Até a adolescência eles ainda são crianças, mesmo que com diferentes idades. Depois da puberdade, eles viram adultos. Ainda moram com você, mas já são indivíduos que não dependem mais de você, e que jamais voltarão a estar próximos de você como foram um dia. Você troca a ascendência sobre seus filhos por uma relação horizontal, de amizade – quando possível.

Sentir-se velho tem a ver também com o envelhecimento dos pais. Eles vão deixando lentamente de ser os adultos que lhe serviam como referência e porto seguro para se tornarem cada vez mais frágeis e dependentes de você. Você passa a ser os pais dos seus pais.

Vejo no espelho meu rosto um pouco caído. Não tenho muitas rugas, mas a gravidade está puxando minha cara para baixo. Não tenho muitos cabelos brancos ainda, o que ajuda a preservar uma aparência mais jovial. Nem estou perdendo cabelos ainda – embora o volume tenha diminuído e os fios estejam mais finos e macios. A pele das mãos está um pouco mais enrugada – mas de modo geral ainda não apareceram peles flácidas corpo afora. E o sono e a vida sexual continuam bons. Ou seja: não posso reclamar.

De todo modo, a minha experiência é que até os 45 anos você vive de fato como se tivesse 25. Daí para a frente, a idade se impõe. De modo inelutável e às vezes cruel. Não sei se essa regra serve para todo mundo, nem se você viveu ou viverá coisa parecida, mas esse é o meu depoimento.

Talvez a derradeira decadência seja a mental. Esse é um terreno ainda desconhecido para mim. (Ao menos até onde consigo perceber.) E o que me põe mais medo. Tanto o declínio cognitivo, da agilidade e da qualidade do raciocínio, da capacidade de percepção e discernimento, quanto o desgaste da criatividade, do lampejo, do insight, da capacidade de enxergar diferente

Isso me apavora. Meu plano de longo prazo era poder sentar à beira do fogo no frio, ou à sombra e à brisa, no calor, e escrever. Ler. E comemorar o fim de um dia produtivo com um vinho aveludado no inverno ou com uma cerveja gelada no verão. Com saúde para degustar um bom prato de comida ou para brincar (devagarinho) entre os lençóis.

Tenho paúra de perder as condições de fazer isso. Da existência ultrapassar minha capacidade de criar, de produzir, de empreender projetos novos.

Acho que medo da morte, se tenho algum, é dessa morte em vida.

 

Adriano Silva é fundador da The Factory e Publisher do Projeto Draft, Founder do Draft Inc. e Chief Creative Officer (CCO) do Draft Canada. É autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV A República dos Editores.

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