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Inaugurado este mês, o Centro de Inovação da Coca-Cola quer reduzir o tempo para criar novas bebidas

Priscilla Santos - 25 out 2018
Renato Shiratsu, diretor de inovação da Coca-Cola, conta como é trabalhar em uma grande companhia com metodologia ágil, contato direto com o consumidor e projetos de curta duração.
Priscilla Santos - 25 out 2018
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Se o trabalho de Renato Shiratsu, 37, der muito certo, a área que ele toma conta hoje na Coca-Cola desaparecerá. À frente da Diretoria de Inovação da empresa desde janeiro de 2016, ele acredita que o máximo de êxito desse tipo de departamento culminará em seu próprio encerramento. “Inovação é algo que tem que estar na companhia inteira”, afirma, logo no começo da entrevista em que fala sobre as reestruturações por que passaram a empresa, que incluem a recente inauguração de um Centro de Inovação no Brasil, levando em conta conceitos de novos negócios como metodologias ágeislean startup.

Apesar do título de diretor, a função exercida por esses profissionais dentro de grandes corporações, como é o caso de Renato, está mais para a de um hacker dentro da própria organização. Burlar o sistema dentro do próprio sistema. Essa é a habilidade mais almejada quando o objetivo é lançar novos produtos e soluções para amanhã em uma companhia que sempre fez tudo com prazos mais morosos. E isso nem sempre é um caminho de linha reta.

A Coca-Cola recentemente baniu as baias que separavam os funcionários no escritório sediado na praia de Botafogo, no Rio de Janeiro. Nenhum vice-presidente fica mais em salas fechadas. Tornaram-se adeptos do open office e das stand up meeting — reuniões feitas propositalmente com todo mundo de pé para não demorar demais. O Power Point também foi abolido. As pessoas falam ou anotam em lousas e grudam post-its na parede com seus insights.

O modo de trabalhar baseado na agilidade vem sendo claramente implementado. Ainda assim, persistem os projetos com entregas marcadas para daqui 24 meses. Renato fala a respeito:

“Nas grandes corporações os planejamentos são de longo prazo. Não adianta falar que vamos usar tal forma e, no meio do caminho, descobrir que não tem como

Ele prossegue: “Justamente por isso, meu objetivo não é lançar algo em dois anos, mas sim em três meses. E, aí, vou fazendo novos projetos baseado no que acabei de aprender”, diz o diretor que, pode-se dizer, tem agilidade no próprio currículo: antes de trabalhar na Coca-Cola, ele passou pela Unilever, onde atuava como consultor e tinha, em média, quatro meses para desenvolver cada projeto. Em três anos, ele viveu em 11 países.

AGILIDADE E COLABORAÇÃO: UM EXPERIMENTO DE LABORATÓRIO

É mais ou menos como um laboratório experimental que, há cerca de cinco meses, funciona a Diretoria de Inovação de Renato. Criada em 2009 e já em sua terceira gestão, a área trabalhava até agora em cima do tripé: processos, cultura de inovação e treinamento de competências. Na reestruturação recente da companhia, foram criadas novas áreas que acabaram absorvendo parte dessas funções.

É interessante ver, por dentro, como as grandes corporações se organizam e reorganizam nessa busca. A diretoria de business transformation funciona como um escritório de gerência de projetos e centralizou a parte de processos. Já a parte de digital transformation foi um degrau além e virou uma vice-presidência, que agora foca em um centro de excelência em dados, AI, machine learning e relacionamento digital com o consumidor (SAC, CRM, mídias sociais, chatbot, e-commerce).

Em um movimento de busca pelo futuro, os projetos de inovação se voltaram para o core business da marca. A diretoria de Renato agora trabalha em uma única empreitada: a chamada esteira de refrigerante. A cada três meses, a equipe de oito pessoas (ele, cinco gerentes e dois estagiários) precisa entregar uma solução para o mercado. Pode ser um produto ou um serviço para o consumidor ou, melhor ainda, uma combinação dos dois. “A proposta é trazer uma solução física e uma digital ao mesmo tempo”, afirma.

Primeira entrega da nova equipe de inovação, a bebida Yas foi desenvolvida em parceria com os consumidores em um laboratório no México.

Na primeira esteira foi lançada, em setembro, uma nova bebida e a parceria com uma plataforma de receitas saudáveis. Especialmente focada no consumidor brasileiro preocupado com alimentação balanceada, a Yas é um refrigerante natural composto por cerca de 70% de suco, água e diferentes sabores. Não contém açúcar, adoçante ou conservantes. “Esse projeto já existia, mas reduzimos o prazo de lançamento, inicialmente previsto para sete meses”, diz Renato.

Isso foi possível devido a mais um “hackeamento” do sistema: o de desenvolvimento de produtos. No caminho padrão, recebe-se um relatório da equipe de pesquisa, desenvolvem-se as fórmulas no laboratório, que são, depois, testadas com o consumidor. Os primeiros feedbacks são enviados ao laboratório para alterações. E assim as coisas caminham, sucessiva e lentamente, até se chegar ao produto final.

Em vez disso, duas pessoas da equipe de inovação embarcaram para a Cidade do México, onde fica o que até então era o único Centro de Inovação para pesquisa e desenvolvimento de novos produtos da Coca-Cola na América Latina. O local é uma mistura de laboratório de química e cozinha, com bancadas que misturam pipetas e mixers, armazenagem de ingredientes e uma sala para testes com consumidores. “A Yas já tinha algumas fórmulas desenvolvidas. Recrutamos consumidores engajados com alimentação saudável, inclusive, alguns brasileiros que tinham acabado de se mudar para o México”, diz Renato, orgulhoso da artimanha de testar o paladar brasileiro mesmo em solo mexicano.

Ali, fizeram o que o vice-presidente de Pesquisa e Desenvolvimento para a América Latina, o cientista americano Robert Scott, chamou de sequential recycling. Aos consumidores era dada uma dose da bebida para provar. Eles faziam suas críticas: muito doce, amargo ou “preciso sentir mais o sabor da fruta”. Assim, imediatamente os cientistas do laboratório ajustavam a formulação e davam para as pessoas provarem novamente. Dessa forma, chegou-se à composição final da Yas. Renato fala mais a respeito:

“Foram três ou quatro dias com as mesmas pessoas indo e voltando para as degustações da Yas e, ao final, tínhamos a fórmula possível para aquele público”

O feedback do consumidor, que antes demorava duas semanas, agora demora duas horas. “Começamos a ver que, de fato, precisávamos de um centro desses no Brasil. Não dava mais para desenvolver algo, enviar informação para o México e aguardar. Tinha que mandar o produto, passar pela alfândega, várias questões que deixavam claro que o negócio era ter o laboratório aqui.”

UM CENTRO DE INOVAÇÃO AGORA TAMBÉM NO BRASIL

No começo deste mês, a Coca-Cola inaugurou, então, o Centro de Inovação para pesquisa e desenvolvimento de produtos em sua sede em Botafogo — o segundo na América Latina, que irá atender, além do Brasil, mais seis países: Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai, Peru e Bolívia. Embora o laboratório não esteja diretamente ligado à Diretoria de Inovação (ele está sob tutela da vice-presidência de Pesquisa e Desenvolvimento), Renato e sua equipe poderão trabalhar em parceria com esse novo centro. 

Cientistas já trabalham no Centro de Inovação, em Botafogo, o segundo da Coca-Cola na América Latina (foto: Stella Ribeiro).

A viagem para o México rendeu, além da Yas, uma parceria com a plataforma Remeli, que auxilia as pessoas a escolherem cardápios saudáveis e a organizar compras.

“O que fazer de almoço na segunda, terça ou quarta-feira? Tínhamos identificado que isso era uma dor do consumidor. Que serviços podíamos oferecer para ajudá-lo? E se a gente matou essa dor, qual a próxima?”, diz Renato.

Ele também já havia lançado seu time às ruas e até à casa das pessoas para ver onde elas moram, o que comem, o que têm dentro da geladeira. A equipe da esteira de refrigerante falou pessoalmente com mais de 100 pessoas para fazer o recrutamento de consumidores com o perfil desejado para a Yas, usando também o que chamaram de método de guerrilha. “Íamos aos locais onde estariam nossos consumidores, conversávamos com as pessoas, às vezes sem nos identificar”, diz Renato.

Para muitos, funcionar como uma startup dentro de uma corporação (que geralmente tem procedimentos lentos, burocráticos ou hierarquizados) pode parecer uma grande dificuldade, mas Renato prefere ver o lado cheio do copo:

“Tenho o melhor dos dois mundos: muita autonomia para fazer acontecer, mas com todos os recursos que existem dentro da Coca-Cola”

Ele continua: “Se quero falar com o consumidor, posso eu mesmo sair para a rua ou, como existe uma área focada nisso, também posso conversar com eles, trabalhar em conjunto, pegar o que disseram e fazer”. Inovação também é isso: juntar o útil ao agradável.

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