Saiba o que a centenária EY, uma das maiores consultorias do mundo, tem aprendido ao inovar

Bruno Leuzinger - 6 ago 2020
Denis Balaguer, diretor do BeyondLabs, o centro de inovação da EY.
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Como as áreas de inovação morrem? poderia ser o título de um best-seller, na linha do livro recente sobre a morte das democracias.

Assim como se fala no Vale da Morte das startups para definir aquela etapa inicial na qual empresas sucumbem sem receita e/ou investimento, o primeiro ano também pode ser crítico para as iniciativas de inovação corporativa. É o que explica Denis Balaguer, diretor do BeyondLabs, o centro de inovação da EY

“Quando você lança um programa de inovação, o hype está lá em cima, vem todo aquele ‘teatro’, aquela ‘festa’ de workshop, post-it na parede… Mas quando você apresenta a conta, ‘olha, fizemos uma ideação, tenho um portfólio de cinco produtos, preciso de 200 mil reais para cada’, aí, é comum ouvir: Não, peraí, não era bem isso que eu queria quando falei em inovação, veja bem…” 

Sorte que a história transcorreu com outro roteiro na tradicionalíssima EY, cuja origem remonta ao comecinho do século 20 (na época, o Ernst e o Young tinham, cada um, sua firma de contabilidade).

Quando conversamos com Denis pela primeira vez, em 2016, o centro de inovação da empresa ainda era um bebê com meses de vida. Agora, a primeira mudança que ele pontua é no tamanho do equipe. 

“Na época, devíamos ser um time de duas pessoas. Hoje, somos onze. Isso tem a ver com não só com um aumento de escopo, mas um incremento no nível de maturidade de execução.”

O “LADO PADARIA” DA INOVAÇÃO: “SERVIR BEM PARA SERVIR SEMPRE”

Lá atrás, no começo, havia já algumas teses esboçadas. Por exemplo, a necessidade de inovação no modelo de negócio da EY, uma firma de consultoria “muito focada em vender horas de pessoa, man-hour”, diz Denis.

“Quando a gente estruturou o centro de inovação, tínhamos uma percepção da importância de se criar modelos de negócio diferentes, e uma visão de negócios baseados em tecnologia, em ativos tecnológicos… E que, para isso, precisávamos enraizar uma cultura de transformação muito forte na firma” 

O primeiro ano e pouco foi um período de consolidação, de se desenhar o modelo de inovação que fazia sentido para a empresa, focar em treinamentos, organizar encontros e hackatons. 

Era uma forma de semear a transformação cultural e também um movimento de autoafirmação da área, de mostrar internamente sua relevância e cativar os colaboradores da companhia.

Nessa fase, foi importante colocar em prática a atitude que Denis chama, brincando, de “lado padaria” do BeyondLabs: servir bem para servir sempre

“A gente não diz não para ninguém. Se um sócio ou o líder de alguma conta nos procurava: preciso fazer uma palestra de inovação para o board do meu cliente, vamos lá? A gente respondia: ‘Vamos’. Ah, preciso desenvolver um robozinho para automatizar um processo tal…. Vocês me ajudam? ‘Ajudamos’.”

UM LAB DE ENGENHARIA PARA EXPERIMENTAR COM IOT, AI E BLOCKCHAIN

Entre 2016 e 2017 o centro de inovação alcançou uma virada de chave importante. 

“Percebemos que, para atacar muitos dos problemas de negócio nos quais estávamos trabalhando, precisávamos ter um nível de tecnologia, um domínio tecnológico que talvez não fosse, naquele momento, tão natural para EY.” 

O caminho escolhido para evoluir foi estruturar um laboratório de engenharia ligado ao programa de inovação para experimentar com tecnologias então emergentes: IoT, Blockchain, inteligência artificial, computação em nuvem… 

No início de 2017, a equipe se entregou à missão de prototipagens:

“Começamos a fazer protótipos, como aplicação de inteligência artificial para jurimetria ou uso de Internet das Coisas para medições agrícolas… Questões que se relacionam com a natureza dos problemas que a EY resolve para seus clientes, mas trazendo aí um viés de experimentação tecnológica”

O “chão cultural” já estava semeado; com os protótipos, o BeyondLabs preparava a “prontidão tecnológica” para entregar, futuramente, soluções com um nível maior de maturidade.

O GRANDE SALTO: UM LABORATÓRIO DE COINOVAÇÃO COM O CLIENTE

A partir do fim de 2017, Denis e seu time começaram a preparar o que chamam de “grande salto”: o lançamento, em agosto de 2018, do Wavespace, um laboratório de coinovação com o cliente.

Aparentemente não é trivial para uma empresa superconsolidada entender que não é dona da verdade, que soluções prontas de portfólio nem sempre funcionam, e que ouvir e acompanhar o cliente em toda a jornada do seu problema é crucial.

“O Wavespace surgiu do entendimento de que, para fazer projetos transformadores nos meus clientes, eu não podia partir da premissa de que já sabia quais eram as dores deles… Eu precisava trazer o cliente para uma discussão de ‘peito aberto’, um momento de imersão e descoberta”

Além de gerar novas oportunidades de inovação, o Wavespace ajuda, segundo Denis, a transformar a própria maneira da EY se relacionar com seus clientes. E o laboratório de engenharia entra para dar suporte na construção de protótipos.

“Por exemplo, imagine um cliente com um problema de credibilidade na cadeia de suprimentos. A solução seria fazer uma acreditação — e blockchain resolve isso”, diz. 

Mas como funciona o processo, na prática? “A gente não apresenta PowerPoint. Vamos fazer a prova de conceito real, vamos levantar um blockchain aplicado à rastreabilidade da cadeia de suprimentos, trazendo o cliente para essa jornada e entendendo o valor [da solução] para o relacionamento desse cliente EY com seu consumidor final.”

COM O WAVESPACE, O BEYONDLABS DEIXA DE SER UMA ÁREA INTERNA

O Wavespace é um laboratório físico, real. “Tivemos um período de incubação, uns seis meses, de projeto, estruturação. Não só a construção, mas de montagem do modelo operacional, e o desenho da metodologia de design.”

Até a inauguração do projeto, o BeyondLabs era uma área puramente interna da companhia. E isso by design, como diz Denis. “Minha interface era com a EY, só.” 

Com o Wavespace, a EY abria as portas do BeyondLabs para seus clientes. Em quase dois anos, foram mais de 300 sessões. 

“Já tivemos mais de 2 400 executivos de clientes nossos nessas sessões. Experiências imersivas em que colocamos perspectivas novas sobre problemas de negócio, e diferentes visões exploratórias de como a EY poderia trabalhar esses problemas — com analytics, blockchain, IoT” 

A ideia é sair dessas sessões com um roadmap de transformação para o cliente, seja qual for a sua dor.

“Nossa grande agenda em 2018 foi botar para rodar essa máquina geradora de roadmaps conjuntos de transformação. E hoje ela está em [velocidade de] cruzeiro.”

OS MVPS MOSTRAM QUE NOVOS MODELOS DE NEGÓCIO SÃO POSSÍVEIS

Com essas engrenagens azeitadas e novas conexões construídas dentro da companhia, o BeyondLabs estruturou e lançou duas esteiras de inovação interna: BeyondMakers e AccountLabs. Ambas estão com MVPs rodando junto a unidades de negócio da EY.

Especificamente no BeyondMakers, foram lançados cinco desafios internos, abertos a todos os colaboradores. Ao todo, o programa recebeu 110 ideias, que foram peneiradas num modelo de funil. Daí saíram inicialmente seis protótipos — e, destes, três MVPs.

“Vimos a validação das nossas hipóteses lá de 2016. Primeiro, porque são MVPs baseados em plataformas digitais; e segundo, porque são modelos de negócio baseados não na venda de horas, mas na monetização de um produto digital. É algo completamente diferente”

Um desses MVPs seria uma solução de consultoria em gestão de pessoas vendida em modelo por assinatura, que daria acesso a um número pré-determinado de consultas por mês com um executivo da firma, além de conteúdos e eventos da EY. Seria uma alternativa mais econômica, pensada para startups.

O primeiro batch dos dois programas foi encerrado em junho de 2020. O desafio agora é se adaptar ao contexto da Covid-19. O Wavespace, por exemplo, roda virtualmente desde março.

“Nesse período, já fizemos mais de 80 sessões virtuais, boa parte delas com clientes”, diz Denis. “Cerca de 40% das sessões do ano fiscal foram feitas nesse formato. Com colaboração, post-it, tudo que você imagina num laboratório de coinovação — só que agora no digital.”

 

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