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A vida sem CEP é dura. Mais do que entregar encomendas, ele ajuda moradores de favelas a exercerem sua cidadania

Anna Oliveira - 3 jan 2024
Pedrinho Jr., CEO da Carteiro Amigo Express.
Anna Oliveira - 3 jan 2024
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Um CEP não é apenas um endereço. Ele é um facilitador de oportunidades e uma validação da existência de um cidadão.

Porém, no dia a dia privilegiado de quem mora em prédios e casas em áreas regulamentadas, essa dimensão potente por trás dos oito dígitos de um CEP passa despercebida.

Só para e pensa nisso quem vive ou já viveu uma realidade em que sua moradia não é identificada por uma sequência de números. É o caso de Carlos Pedro da Silva Jr. — mais conhecido como Pedrinho.

Nascido na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, o jovem de 26 anos ocupa, desde março de 2022, o cargo de CEO do Carteiro Amigo Express, uma logtech de impacto social que foi criada pelos seus pais Carlos Pedro e Elaine junto com seu tio, Silas Vieira. 

A ideia surgiu quando ambos trabalhavam como recenseadores do IBGE, coletando dados por meio de entrevistas com os moradores, e resolveram acrescentar duas perguntas no questionário. A primeira era se a pessoa recebia cartas em casa e a segunda, se ela pagaria uma pequena taxa para receber essas cartas na sua residência. Nem é preciso dizer quais foram as respostas…

Mais recentemente, a startup ganhou visibilidade ao participar do Shark Tank Brasil, por meio do qual recebeu um aporte de 1 milhão de reais. Hoje, o Carteiro Amigo Express está em fase de expansão. Entre as metas, a empresa pretende chegar a 400 mil pedidos entregues em 2024; construir uma base de 3 mil assinantes ativos; e alcançar um faturamento bruto de 2,5 milhões de reais. 

Tudo isso para, por meio de um “simples” número, dar mais oportunidades para quem vive nas comunidades. 

“Se pararmos para pensar, o nosso trabalho vai muito além das entregas, sabe? Ajudamos a criar novos negócios, trouxemos acessibilidade para uma pessoa que não pode sair de casa devido à condição dos filhos, ajudamos alguém a se aposentar, fora a coisa mais prática que é ter acesso a um cartão de crédito”

O Carteiro Amigo Express, porém, não é a única forma por meio da qual Pedrinho contribui para esse objetivo. Desde 2020, a ONG Pedrinho Social ajuda moradores de favela a tirarem documentação sem custo, como uma nova via da identidade ou uma certidão de casamento.

Em entrevista ao Draft, o jovem fala sobre o impacto que a logtech e a ONG vêm gerando na vida de quem vive em comunidades no Brasil e compartilha a sua trajetória empreendedora — que começou antes mesmo do Carteiro Amigo Express.

 

O que contribuiu para que você seguisse a vida empreendedora?
Os meus pais foram empreendedores desde sempre. Então, eu meio que nasci nesse meio, ia a eventos do Sebrae com eles, vi o Carteiro Amigo surgir dentro de casa e crescer a cada ano… 

Além disso, eu tinha referências ao meu redor: pessoas com seus negócios crescendo e saindo da favela porque ascenderam social e economicamente por conta do empreendedorismo. 

Aí, entrou a questão de querer ter grana, de não continuar só pedindo dinheiro para pai e mãe. 

A primeira “empresa” que eu criei foi de venda de camisas. Comecei a comprar camisas da [marca] Complexidade Urbana, lá no Complexo do Alemão, e, como eu estudava na Freguesia, conseguia vender para a galera de lá, que tem um poder aquisitivo maior 

Na época, essas camisas estavam bem em alta. Eu comecei a comprar e vender, comprar e vender, e fui ganhando dinheiro.

Foi quando comecei a desenvolver a habilidade de comunicação, a perder um pouco a timidez e a vergonha de vender. 

Habilidades que você usou dentro do Carteiro Amigo Express, certo? Como foi sua jornada na startup até chegar a CEO?
Quando comecei a trabalhar no Carteiro Amigo, fui para o atendimento e fiquei lá entre 2016 e 2018. 

Minha experiência na área foi ótima porque eu já era comunicativo, então, quando o cliente chegava, eu o tratava muito bem e tudo mais — às vezes, até ganhava caixinha. 

Depois, eu fiquei mais nas Finanças. Foi pouco tempo, porque a área não estava tão desorganizada, não precisava arrumar tanto. 

Na sequência, comecei a ser meio que um gerente porque passei a orientar a pessoa que entrava como atendente, comecei a trazer um olhar um pouquinho mais de cima para o atendente poder realmente entender o negócio e o Carteiro Amigo ter uma operação bonita. 

Logo depois disso, comecei a pensar que precisava trabalhar na entrega porque, às vezes, tinha entregador que demorava muito em uma rota e eu ficava intrigado porque, pelo Google Maps, a rota era bem mais rápida 

Não era para algumas estarem demorando tanto, só que eu não podia cobrar porque eu nunca tinha feito entrega. Como é que eu vou cobrar se eu não sei como é? 

Então, ali entre 2019 e 2020, comecei a entregar um pouquinho. Nessa época, a operação estava em uma crescente porque a volumetria de pacotes aumentou de uma forma muito rápida na pandemia, o Carteiro Amigo não se limitava mais a entrega de cartas.  

Para realmente ter essa propriedade na hora de cobrar os entregadores, eu fiz cada rota durante um mês. Entreguei em todas as rotas da empresa: da unidade da Rocinha até dentro das unidades da Cidade de Deus  

Depois, por conhecer muito bem a empresa e ter passado por todas as áreas, eu vim para o cargo de CEO.

E o que você aprendeu fazendo todas essas rotas?
O primeiro de tudo foi que, como dentro da favela não tem porteiro, a rota tem muitas paradas. 

Por mais fácil que seja o trajeto, leva tempo porque o entregador precisa bater na porta, esperar, ligar para a pessoa caso ela não tenha atendido a porta, mandar mensagem, esperar alguém descer ou abrir o portão para você subir com a encomenda… 

Não era só chegar e entregar, tinham também todas essas etapas que precisavam ser incluídas no cálculo. Ou seja, tudo isso gasta um tempo enorme! Se tivesse um porteiro, era só chegar, mostrar o documento, informar o nome completo e ir embora.

Outra coisa que identifiquei foi que os motoboys faziam a roteirização da cabeça deles. Ele achava que aquela rota seria mais rápida, porém, às vezes, ele passava no mesmo lugar duas vezes 

O que acontecia muitas vezes é que o entregador começava pelos endereços que já conhecia porque achava mais fácil e queria garantir o fácil primeiro. Depois, ele fazia o endereço mais difícil. 

Então, a pessoa ganhava velocidade no início, mas, no final, era absurdo o aumento do tempo. Às vezes, o cara fazia uma entrega a cada três ou quatro minutos e, no meio da rota, fazia uma entrega a cada 15.

Por isso, nós implementamos uma metodologia para se fazer uma rota linear e, assim, gastar menos tempo e combustível 

Quando isso foi feito, verificamos que o entregador estava terminando, às vezes, uma hora ou uma hora e meia mais cedo, e gastando bem menos embreagem, gasolina etc. 

Então, foi fundamental esse meu “estágio” na entrega porque eu pude entender todo o fluxo. A partir dele, passamos a desenvolver um protocolo para as entregas.

A experiência no Carteiro Amigo Express também inspirou a criação da sua ONG, certo?
O Pedrinho Social surgiu logo no início da pandemia, por volta de março de 2020, e foi engraçada a história de como ela surgiu. Foi basicamente por causa de uma coroinha. 

Foi assim: o Carteiro Amigo sempre foi uma instituição que ajudou as pessoas e, com a pandemia, passamos a ser um centralizador de doações de todo o Brasil. A CUFA, Cruz Vermelha, Sesc, enfim, várias instituições nos procuravam para fazer a distribuição das doações de uma forma mais assertiva. 

Só que nós não conhecíamos 300 pessoas para fazer a doação, então, fazíamos o seguinte: falávamos com um pastor, um líder comunitário ou alguma liderança assim pedíamos que eles indicassem uma quantidade de pessoas que estavam precisando de doações.

Só que eu comecei a perceber que, com isso, estávamos beneficiando sempre as mesmas pessoas. Tinha tanta gente na Rocinha precisando e as doações estavam indo para a mesma gente. Aí, comecei a pensar em fazer um cadastro para ter uma rotatividade maior

Até que, em uma ação de doação de botijão de gás, chegou uma coroinha querendo saber como que fazia para receber um botijão. 

Eu expliquei que, infelizmente, já tinha sido tudo doado, mas falei que, se ela voltasse às 11h, eu poderia fazer um cadastro para avisá-la por WhatsApp quando tivesse uma nova ação. Eu disse que poderia fazer isso, mas pedi para ela não contar para ninguém porque ainda não tinha isso do cadastro. 

Cara, deu 11 horas, eu estava sentado na mesa e só foi juntando gente, juntando gente e eu fui ficando desesperado porque era o auge da Covid, não podia ter aglomeração! Acho que deveria ter umas 700 pessoas e eu só pensando como é que eu ia despachar todo mundo.

Expliquei que não tinha como atender todo mundo e pedi para todos irem outro dia na unidade do Carteiro Amigo na Rocinha para fazerem o cadastro porque lá tinha uma estrutura para isso. 

Só que, nisso, já tinha a associação dos moradores e os jornais da Rocinha ligando para saber se era verdade que estávamos dando vale-gás. Dissemos que não, que só íamos fazer um cadastro. Então, criei um Google Forms, divulgamos para as pessoas fazerem o cadastro online mesmo — e, em uma hora, já tínhamos mil inscritos 

Com isso, veio o desespero porque não tínhamos nada para dar para quem tinha preenchido o formulário. Começamos a divulgar a ação, corremos atrás para virar uma ONG, receber doações e distribuir para os cadastrados.

Só que, com o tempo, as doações foram diminuindo na pandemia. Hoje, quase não tem mais. De novo, ficamos naquela situação de não saber o que dar, até que algumas pessoas começaram a perguntar se nós não fazíamos documentação, por exemplo de certidão de casamento. 

E foi assim que o Pedrinho Social virou uma ONG que ajuda as pessoas a tirarem documentação sem custo. É mais um jeito de ajudar as pessoas a terem acesso a direitos.

Pensando nessa questão de acesso a direitos, gostaria que você explicasse o papel do Carteiro Amigo Express nessa missão. O CEP também abre uma série de oportunidades, não?
Eu tenho um exemplo que ilustra bem isso: um dos nossos primeiros clientes foi o senhor Antônio. 

Há uns dois anos ele tentava se aposentar, mas não conseguia porque a aposentadoria do INSS só vem através de carta e ele não recebia a carta porque não tinha CEP. Quando ele ia no INSS para pegar essa carta, os funcionários falavam que não era possível, que aquela carta tinha que ser mandada para o endereço dele.

Então, ele ficava nessa de ir no INSS e não conseguir pegar a carta, mas a carta também não chegava na casa dele e, por isso, ele não conseguia se aposentar. Então, ele soube do Carteiro Amigo e virou cliente. E aí, em poucos meses, a carta do senhor Antônio chegou! Depois, ele voltou no Carteiro Amigo falando que tinha conseguido se aposentar.

É um exemplo perfeito do que falo: um CEP não é apenas um endereço, é realmente um facilitador de possibilidades. Imagina uma pessoa já podendo se aposentar, mas não conseguindo porque não recebe uma simples carta?

Outro caso é de um cliente que virou até meu amigo. Ele montou uma loja de conserto de telefone através do serviço do Carteiro Amigo porque, antes, ele não conseguia receber as encomendas. Com isso, ele tinha que comprar as peças na [rua] Uruguaiana, no centro do Rio, onde pagava mais caro, obviamente. Depois do Carteiro Amigo, ele conseguiu comprar na China e montou uma loja. 

Temos uma cliente que não pode sair de casa porque tem dois filhos com Transtorno de Espectro Autista. Com o Carteiro Amigo, ela consegue comprar de papel higiênico até remédio, tudo pela internet! E nós vamos lá e entregamos para ela.

Se pararmos para pensar, o nosso trabalho vai muito além das entregas, sabe? Ajudamos a criar novos negócios, trouxemos acessibilidade para uma pessoa que não pode sair de casa devido à condição dos filhos, ajudamos alguém a se aposentar, fora a coisa mais prática que é ter acesso a um cartão de crédito.

A maior parte das pessoas que moram em uma favela tem conta em banco, mas não recebe seus cartões porque não tem um CEP. E muita gente não consegue pegar em uma agência [bancária] porque tem conta em um banco digital 

Essa possibilidade que trazemos mostra o impacto de ter um CEP, o CEP é realmente a validação de que eu existo. 

O que mais deve ser feito para contribuir com a inclusão digital dentro das comunidades e o acesso a oportunidades?
Eu acredito que precisam acontecer movimentos que fomentem a educação digital dentro das favelas, como escolas de programação, curso de web designer e outras iniciativas que tragam o aprendizado da tecnologia. 

Acho que a democratização da tecnologia dentro das favelas acontecerá através da educação focada em tecnologia. 

Isso vai mudar a forma como as favelas são vistas e dar oportunidades para as pessoas que moram lá. É investir para termos um cenário favorável para que surjam mais figuras como Celso Athayde [fundador da CUFA], Lucas Lima [Innovators Under 35]…

Existem pessoas com muita capacidade na favela e acho que a partir do momento que existir mais oportunidades, que elas tiverem acesso a mais ferramentas, a favela vai ter uma visibilidade maior. 

Essa visibilidade será tão grande que ignorar a potência que é a favela vai ser um desaforo!

Considerando a sua experiência no ecossistema de startups no Brasil, como você avalia esse ambiente com relação à diversidade? Hoje, ele é menos excludente do que no passado?
Estamos em um momento em que é bonito, é sexy falar de favela. Quando eu chego em lugares hoje e falo que sou da favela da Rocinha, as pessoas querem conversas, as portas se abrem. Mas, antes, era bem diferente. 

Quando eu falava que era da favela, tinha quem perguntava se também entregava drogas porque, afinal, eu sou do Carteiro Amigo. Aquela ideia de que se está levando ali uma paradinha, porque não leva uma droga também? Tem esse estereótipo  

Tive recentemente uma entrevista com um possível cliente da China. Ele foi fazer uma visita nas bases, conhecer nossa operação e me perguntou se nós tínhamos CNPJ. Então, surgem perguntas desse tipo ainda…

Mas, mesmo assim, melhorou muito. Antes, o preconceito com a favela era maior, agora, não. É legal você falar que está ajudando a favela de alguma forma. 

Eu adentro diversos espaços hoje por conta do Carteiro Amigo e isso dá visibilidade para os negócios na favela. 

Viramos uma referência, como tantas outras pessoas antes de mim que vieram da favela e também se tornaram uma referência. Como o Celso [Athayde], da CUFA; o Gilson [Rodrigues], do G10 Favelas; o Edu [Lyra], da Gerando Falcões

Todas essas pessoas estão propagando uma imagem positiva de empreendedorismo nas favelas e isso tem ajudado bastante a mudar o cenário

Então, vejo que, hoje, para a favela, está legal. Não sei até quando isso vai durar, espero que dure para sempre, que não seja somente uma moda esse movimento de se associar à favela. 

O ideal é que esse movimento venha e permaneça. Porque isso significa que as pessoas entendem realmente que a favela é potência. 

 

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