“Não dá para pensar o Brasil apartado da favela. São 14 milhões de brasileiros que precisam de ajuda e demandam oportunidades”

Bruno Leuzinger - 10 mar 2021
Gilson Rodrigues, fundador do G10 das Favelas e do G10 Bank.
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Natural de Itambé, no sul da Bahia, Gilson Rodrigues chegou ainda menino, aos 5, a Paraisópolis. Foi lá, na segunda maior favela de São Paulo, que ele se criou — e lá que ainda hoje, aos 36, vive e cria seus dois filhos.

Gilson é um dos fundadores do G10 das Favelas. Criado em 2018, o grupo articula lideranças das maiores favelas do Brasil para atuar em conjunto, compartilhando experiências e atraindo investimentos.

Para você ter uma ideia, as favelas do país movimentam 178 bilhões de reais”, diz Gilson. “Não dá para pensar o Brasil apartado da favela. São 14 milhões de brasileiros que precisam de ajuda, oportunidades e também têm suas próprias soluções.”

A Covid-19 causou, claro, um baque ainda maior nessa população economicamente vulnerável. O G10 reagiu organizando iniciativas que têm como carro-chefe a criação de um banco — o G10 Bank Participações.

O banco nasce com a proposta de oferecer microcrédito (a juros mais baixos do que os de mercado, embora a taxa por ora não tenha sido anunciada) e oportunidades de mentoria a empreendedores locais.

A seguir, Gilson fala sobre os impactos da pandemia para a vida nas comunidades, as ações do G10 das Favelas e os objetivos e desafios do G10 Bank.


Quanto mudou Paraisópolis, desde a sua infância até hoje?
Mudou completamente. Paraisópolis vai fazer 100 anos neste ano, foi um loteamento para milionários que deu errado. Aí, na época da construção do estádio do Morumbi e do hospital Albert Einstein, houve uma intensificação das ocupações, um crescimento desordenado, que continua até hoje.

A Paraisópolis da minha infância era uma Paraisópolis dividida, onde pessoas não podiam andar na rua de baixo ou na rua de cima porque tinha justiceiros que comandavam a favela, ordenavam quem podia circular, e ocupar as áreas.. Pagava-se pedágio, os comerciantes eram abusados… Era como se fosse uma milícia

Vivi esse período de rua sem asfalto, falta d’água…  Eu tinha de dizer que morava no Morumbi, porque se falasse que morava em Paraisópolis a chance de ter uma oportunidade, um emprego, era muito difícil. Ao longo desses anos, a gente percebeu que tinha de se organizar e ajudar a comunidade, porque a perspectiva de sair era praticamente nula. 

Hoje a gente vive um novo momento. Meus filhos podem contar com rua asfaltada, escola aqui dentro, bolsa de estudo, cursos de arte, acesso a saúde… Esses benefícios foram sendo construídos pelos moradores ao longo dos anos dentro de um programa chamado Nova Paraisópolis, de transformação da favela em bairro.

O programa foi um sonho que começamos no grêmio estudantil, éramos um grupo de jovens. A Paraisópolis de hoje é cheia de oportunidades, perspectivas de transformação, em que meus filhos vão poder decidir se querem morar na favela, porque as condições da nossa família também melhoraram.

Como a pandemia impactou a atuação do G10 das Favelas?
Imagine que 2020 seria um ano maravilhoso para o G10. Tínhamos quatro ações fora do país: uma atividade em Boston na Conference Brazil, uma atividade na Itália para levar o [projeto] Costurando Sonhos, uma atividade em Zurique, uma em Londres… 

As pessoas estavam descobrindo a economia da favela… E, de repente, veio a Covid-19 e tudo isso foi para escanteio. A gente falou: temos que pensar alternativas para nos salvar

Somos 14 milhões de favelados [no Brasil] que sofrem porque o serviço do Samu não vem aqui, que sofrem com desemprego e da fome e que já não tinha como fazer isolamento porque vivem em casas pequenas, com famílias numerosas, em espaços cheios de dificuldades… 

O público da favela é o que mais se contamina e mais morre de Covid-19. Estamos muito mais vulneráveis a fake news do que outros públicos mais escolarizados e com grana: foi aqui que as pessoas mais acreditaram que [a Covid] era uma “gripezinha”, uma doença “só para rico”, foi aqui que falaram que não iam tomar vacina porque a vacina é da China e porque iriam virar jacaré… 

Então decidimos criar um movimento chamado Presidente de Rua, que se baseia no mapeamento da comunidade onde a cada 50 casas, temos um voluntário cuidando de 50 famílias. Esse movimento hoje tem 658 pessoas — então, na ausência de um presidente [da República], nós temos um presidente a cada 50 casas, que cuidam de 3 900 famílias. 

Esse movimento ganhou o Brasil de maneira espontânea, 14 estados começaram a reproduzir esse trabalho em 300 comunidades… e ali nós criamos 12 iniciativas de apoio a essas favelas para mitigar o Covid: contratamos ambulâncias, criamos casas de acolhimento para pessoas que testaram positivo, reunimos costureiras através do programa Costurando Sonhos, que produziram em casa 1,4 milhão de máscaras distribuídas na comunidade…

Criamos também um programa chamado Adote um Diarista, e adotamos mais de 7 mil diaristas, doando a elas cestas básicas, kit higiene e 300 reais durante três meses para que pudessem se sustentar.

Tivemos também um trabalho de organização das cozinheiras através do Mãos de Maria. Foram distribuídas mais de 1,3 milhão de marmitas — chegamos a distribuir 10 mil por dia, só aqui em Paraisópolis.

E, nesse contexto, como surgiu a ideia do G10 Bank?
A gente já tinha pensado em criar um banco em Paraisópolis mas não tinha conseguido, porque é muita burocracia — e principalmente porque não tínhamos dinheiro. Mas com a Covid, percebemos que teríamos que fazer do jeito que fosse, já que o crédito e as oportunidades para empreender estavam mais difíceis para nós.

A crise sanitária tende a se agravar… E existe outra crise chegando, a crise econômica, que mais uma vez vai atingir mais a população de favela. Porque somos nós que estamos ficando desempregados, nós que estamos na fila da marmita…

E o que nós pensamos? Que se a gente através do G10 puxasse novamente iniciativas de apoio à economia da favela, teríamos uma chance de amenizar essa situação. E foi por isso que criamos dez iniciativas de apoio, da qual oo G10 Bank e Participações é o carro-chefe

Como foi a estruturação do G10 Bank, e como ele vai funcionar?
Procuramos um escritório de advocacia, o FAL Advogados, especialista na estruturação de bancos, fintechs e instituições financeiras, e pedimos a eles se podiam nos ajudar a montar o nosso banco. Foi na caradura. 

O Paulo, dono do escritório, topou fazer esse processo de estruturação e nos deu alternativas dentro da legislação para que pudéssemos criar essa empresa. No início a gente achou que seria mais demorado, mas foi muito rápido. 

Quando conseguimos o CNPJ e as autorizações, acionamos amigos, empresários. Com o G10, começamos a nos conectar com muita gente legal, e convidamos essas pessoas para: 1) compor um conselho de notáveis que nos aconselhasse na estruturação das iniciativas, principalmente do banco; e 2) e que fossem nossos doadores e investidores, colocando dinheiro direto de doação, como empréstimo mútuo ou cota de participação na empresa.

Mobilizamos um grupo de empresários e fizemos um primeiro levantamento de 1,8 milhão de reais para essa ação. A gente pretende, neste primeiro semestre, apoiar 120 empreendedores atuando inicialmente em Paraisópolis e Heliópolis,que vão poder receber entre 1 mil e 15 mil reais

Junto a isso, estamos criando uma escola de líderes transformadores, uma plataforma para que cada empreendedor receba o auxílio de um mentor que vai ajudar a montar o plano de negócios, o conjunto de ações…

E vamos criar o Decola na Favela, um pitch em que a gente vai trazer esses conselheiros e outros investidores para ouvir esses empreendedores de favela e quem sabe aportar recursos;

Esses conselheiros e investidores permanecem anônimos? Se sim, pode dar uma ideia do perfil?
Permanecem anônimos. Decidimos que o protagonismo tem que ser do morador da favela. Daqui a pouco alguns vão poder aparecer como conselheiros, consultores, dando mentorias. 

São vinte conselheiros. Empresários do Brasil que já se provaram, que têm propósito social, que não querem entrar numa situação de exploração da favela… Ao todo, 33% do lucro do banco se reverte para ações sociais, então todos os investidores que aportam concordam com isso

Estamos procurando pessoas com disposição de apoiar as favelas a desenvolver e queiram um valor para além do lucro do banco — ou seja,girar a economia local, gerar emprego, oportunidades… Cumprir o papel social que um banco tem que cumprir. Vamos ser o BNDES da favela.

Esses 120 empreendedores que vocês pretendem apoiar já estão definidos?
Estamos selecionando os primeiros dez empreendedores. Os cinco principais negócios girando na favela são beleza, construção civil, moda, alimentação e logística, por causa desse novo momento do Brasil, com e-commerce, digital. Essas cinco frentes são as que mais vão prosperar e têm maior potencial de crescimento na favela, então estamos buscando iniciativas nesse contexto.

Temos dois projetos já selecionados. Um é o Favela Express, que visa colocar o CEP das favelas no e-commerce do Brasil. Porque a gente não é visto. E quando você coloca o CEP e identifica as ruas, você passa a poder comprar e receber suas mercadorias. 

O projeto tem parceria com a Loggi e o Correios, e nove funcionários que entregam correspondências dos moradores com bicicletas e ou a pé, e agora estão avançando para espalhar lockers em Paraisópolis e conectar outros lockers da cidade para que a população tenha essa intermediação.

Para algumas empresas, parece que os 50 reais do cara do Morumbi vale mais do que os 50 reais do cara da favela… Queremos democratizar o e-commerce no Brasil para que qualquer morador de favela que queira comprar um produto, seja ele “para rico ou para pobre”, possa recebê-lo

O outro projeto é o Costurando Sonhos Brasil, de mulheres costureiras que solicitaram apoio para capital de giro e compra de máquinas de costura, elas têm uma coleção de moda e uma rede de 78 costureiras que depende delas para crescer, então a gente vai apoiá-las.

O que vocês olham nesses negócios, na hora de selecionar esses empreendedores?
Estamos olhando se o negócio está funcionando, se já está dando lucro, se o empreendedor tem brilho no olho, e se tem disposição de participar das mentorias. Não queremos empreendedores que são tão ocupados que já não têm tempo para participar de formação, de aprender… 

Às vezes, vemos negócios que estão dando certo na favela, estão dando lucro, mas o empreendedor se mata 24 horas, porque não consegue estabelecer alguns processos que facilitariam a vida dele… Então queremos iniciativas com esse contexto e que possam ser escaladas, levadas para outros locais

Queremos gente com condições de participar e construir o processo juntos, para que esses negócios virem franquias e que esses empreendedores ganhem dinheiro vendendo essas franquias para outras comunidades.

Como você vê o futuro de Paraisópolis? E quais os principais desafios do G10 Bank daqui para a frente?
Vejo Paraisópolis em cinco anos transformada, urbanizada, com recursos que esses negócios tiverem — construindo escola, creche, transformando a vida das pessoas. E vejo também como ela [já] tem sido — uma comunidade mobilizada, organizada e agente da sua própria transformação.

Sobre o banco, o desafio é continuarmos nos conectando com pessoas com propósito, que não queiram entrar numa situação de exploração da favela. A gente já tem sido muito explorado, muito marginalizado. As instituições financeiras querem cobrar juros altíssimos, explorar a nossa comunidade, querem vir rápido, sair rápido e não deixar nada… 

Sempre digo que não adianta “estar em Paraisópolis”, tem que ser de Paraisópolis. As instituições e parceiros que estão conosco têm essa cabeça. 

O desafio é aproximar [mais] pessoas com disposição de aportar recursos. Estamos entrando com uma segunda rodada de captar 5 milhões [de reais] para cada comunidade, e depois uma terceira rodada de 20 milhões para cada comunidade, para levarmos mais recursos aos empreendedores. 

E queremos que essas pessoas entendam que a gente não é um “banco comunitário”. Somos um banco. Às vezes, querem nos colocar no “lugarzinho de fala de favela”. Mas a gente quer se colocar no lugar de fala “de Brasil”. E mostrar que podemos ajudar o Brasil a construir esse novo momento. 

 

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