A reinvenção de João Palomino: o jornalista e ex-VP da ESPN agora quer desbravar o mercado de streaming como empreendedor

Marina Audi - 26 nov 2020
João Palomino, CEO da LiveSports (foto: divulgação).
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Começou com uma brincadeira o encontro (virtual) com João Palomino, 55, jornalista, ex-VP da ESPN e agora CEO da LiveSports, empresa recém-criada para transmitir, ao vivo e via streaming, jogos, shows e eventos corporativos. 

Habituado a fazer locução e narração esportiva desde meados dos anos 1990, Palomino foi convidado a “aprovar” a seguinte chamada (para uma fictícia reportagem de TV sobre sua trajetória): 

João Palomino: o zagueiro frustrado do Taquaritinga que se tornou repórter de política e economia da Rede Manchete, SBT e TV Cultura, depois se transformou em apresentador e narrador de esportes, ascendeu ao cargo de VP de Conteúdo e Produção da ESPN e se tornou empreendedor em 2020, o ano mais atípico deste século

“Sim, aprovaria”, disse, após uma gargalhada, e completando que, mais do que uma carreira de sucesso, ele valoriza empresas de sucesso. “Uma vitória coletiva é muito mais importante do que uma vitória individual.” 

A LiveSports, nova empreitada de Palomino, surgiu em sociedade com o engenheiro eletrônico Nilson Fujisawa, profissional da área de broadcast. Juntos, eles vão investir, ao longo de um ano, 2 milhões de reais em infraestrutura tecnológica e recursos humanos, e mais 100 mil dólares em tecnologia para colocar o projeto de pé.

A empresa se posiciona como responsável pela captação das imagens no local do evento até a bilhetagem. O diferencial, afirma, será incluir nesse pacote um conteúdo de entretenimento e emoção antes da transmissão, para alavancar as visualizações. 

Como clientes, Palomino mira clubes, federações esportivas e empresas de segmentos diversos, oferecendo conteúdo proprietário a usuários-fãs. Ou o famoso modelo B2B2C.

“As pessoas não têm a mínima noção da complexidade que é você conseguir fazer o streaming de um sinal, cobrar por ele e, acima de tudo, ter segurança de entregar esse sinal”, diz. “O público vai receber [o conteúdo] na íntegra, com alta qualidade de áudio e de vídeo. Disso nós cuidamos. A pessoa na ponta só terá o prazer de assistir.”

Leia abaixo os principais trechos da conversa com o Draft:

 

Onde você nasceu e cresceu?
Nasci em Fernandópolis (SP). Morei lá até os 9 anos, quando meu pai sofreu um acidente de carro e duas pessoas que estavam com ele faleceram. Ele ficou muito mal e os médicos recomendaram que ele ficasse mais próximo da família dele, então, nós nos mudamos para Taquaritinga (SP). 

É depois dos 10 anos que você toma vários dos seus gostos: os amigos da vida toda, o gosto pelo futebol, pelo esporte — e por escrever. 

Comecei a escrever moleque, com 13 anos. Na Copa de 1978, escrevia sobre os jogos em um caderno, só para mostrar para a família. Infelizmente, ele se perdeu. Aí eu tomei gosto pela coisa. Queria ser jogador de futebol, mas a bola e eu não tínhamos uma relação muito próxima [risos] 

Com 14, comecei a escrever no jornal de Taquaritinga, sobre o time local. Foi um momento pulsante da cidade: o time, que estava na terceira divisão [do Campeonato Paulista], subiu para a segunda e depois para a primeira divisão. Com doações, construiu-se um estádio para 30 mil pessoas, em menos de 90 dias.

Vivi um momento diferente na história de Taquaritinga. Talvez por isso eu tenha sido convidado para ser correspondente da Gazeta Esportiva, antes dos 18 anos. 

Como se tornou repórter de TV?
Durante a faculdade de jornalismo [na PUC Campinas], eu trabalhava para pagar o curso. Passei pelo Diário do Povo, Rádio Princesa, Rádio Central, Rádio Educadora, até que em 1987 fui convidado para ser pauteiro. Só que o repórter Luiz Crescenzo – que estudava comigo, era meu amigo – ficou doente e alguém tinha de ir para a rua. Eu fui. 

No fim, nunca fiz nenhuma pauta lá. Fiquei como repórter, com uma paixão enorme por narração. Mas a vida me conduziu para ser repórter de televisão. A Cristina Piasentini me deu a primeira oportunidade na TV Manchete, em São Paulo, cobrindo férias. E o Rodolpho Gamberini foi quem me efetivou como repórter. 

Daí para frente, me tornei repórter de geral, política e economia; fiquei dez anos. Passei pela Rede Manchete, TV Cultura, SBT e depois fui convidado a ir para a ESPN, em 1995. Fiquei um tempo me dividindo entre a TV Cultura e a ESPN.

Como a ESPN começou a crescer, veio o convite para ficar só lá. Aí, foi a realização do sonho de criança! Mas virei narrador com 30 anos. Se por um lado o jornalismo apareceu cedo na minha vida, por outro a narração apareceu tarde — e a gestão, mais tarde ainda. Fui ser chefe de alguém com 47 anos.

Que tipo de adaptação você teve de fazer quando assumiu o cargo de gestor na ESPN em 2012? O que ganhou e o que perdeu nessa transição?
Não passava pela minha cabeça assumir essa posição porque para mim, o [José] Trajano ia seguir ainda por muitos anos. Foi uma decisão dele parar. 

Eu não fui treinado para ser gestor, ainda mais no estilo de gestão que a ESPN tinha à época, porque não era só gestão de conteúdo e produção. Era gestão com ferramentas, porque é uma empresa Disney, com muitas exigências de compliance. 

Tive uma gestão muito mais intuitiva do que de treinamento. Fui para o Insper, fiz cursos e, no final, consegui de certa forma, que a equipe continuasse produzindo com qualidade e relevância. Nós não podíamos abrir mão disso em hipótese alguma. 

Foi um desafio grande. Eu era colega e passei a ser chefe. Demorou para que as pessoas me vissem como tal — e para que eu visse as pessoas como tal também. É uma adaptação complicada. Em muitos momentos, chegava em casa e me perguntava: como ia lidar com a situação? 

E descobri uma coisa, que o Juca Kfouri me disse e é a mais absoluta verdade: [ser chefe] é uma das posições mais solitárias, porque não se pode dividir certas coisas com as pessoas próximas. Muitas vezes, é uma decisão que você tem de tomar. 

Você teve algum arrependimento nessa trajetória?
Nunca me arrependo das decisões que tomo. Quando você decide, está influenciado pelo meio, pelo momento. É injusto perguntar, dez anos depois, se tomaria a mesma decisão. E outra: dez anos são suficientes para você descobrir se acertou ou se errou.

Foi uma mudança radical de profissão. Pela primeira vez na vida, senti a necessidade de ser o condutor de um planejamento. Até então, eu era convidado a opinar. Quando você passa a organizar o planejamento, a responsabilidade é infinitamente maior. 

E encontrei aí uma coisa que só o tempo me mostrou… Um prazer de viver a gestão da mesma forma como eu tive prazer de narrar duas finais de Copa do Mundo

Quando, na Copa de 2014, fomos transmitir a final direto do Maracanã – quem narrou foi o Paulo Andrade, montamos um timaço, com participação do Paulo Calçade, Gustavo Hofman, PVC, Juan Pablo Sorín… –, eu tive o mesmo prazer, me coloquei ali com uma satisfação enorme. Fui ao estádio, acompanhei a parte de estúdio no caminhão [de transmissão], tive a felicidade de assistir ao jogo ao lado do meu filho.

Sou um cara absurdamente afortunado, porque vivi várias profissões. E agora, como empreendedor… Talvez essa seja a última [profissão]. Ou a penúltima: quem sabe depois eu me torno dono de um café ou de uma hamburgueria? [risos]

E essa transição pós-ESPN para a pele de empreendedor, como está sendo?
Quando eu saí da ESPN, depois da mudança estrutural em que eles desligaram os comandos de todos os outros países e passaram para a Argentina, em outubro do ano passado, dei algumas entrevistas, participei de vários programas… Fiz um tour. 

Depois, decidi ficar parado até o Carnaval. Me propus a não fazer nada, a não ser me dedicar a meus filhos – João Vitor (18), Lucas (12), Rafael (6) e Isabela (4) – e à minha esposa, Triana. Foi a melhor coisa que fiz. Nunca fiquei tão próximo, nunca fiz tanto nem me diverti tanto com outras coisas… 

Quando disse “vou voltar para o mercado”, veio a pandemia. Então, estendi minha presença em casa e comecei a fazer lives, por diversão. Foi bom, me levou a entender que o mercado tinha mudado, tinha ficado mais difícil, reduzido, exatamente por conta da pandemia.

Você considera o impacto da pandemia mais importante do que as mudanças tecnológicas? E como a ideia da LiveSports entrou no seu radar?
A pandemia só acelerou alguns processos. Ao perceber essa redução do mercado, percebi que teria de cuidar de mim e também que eu precisava ser dono das minhas decisões. 

Apesar de haver convites, promessas e interesse, havia também mundos em que eu poderia mergulhar: o das palestras, o dos livros e a academia, que sempre foi uma paixão, já dei aulas na Cásper Líbero. 

Eu já vinha estudando a mudança de hábito há alguns anos. Vinha estudando o streaming, inclusive com um produto que eu queria colocar no mercado, quando o Nilson Fujisawa me trouxe essa ideia de montar algo voltado para o streaming. Tenho até uma lembrança emocional dessa conversa, porque foi em 3 de setembro, data em que meu pai completaria 90 anos

Aí, três circunstâncias me fizeram chegar à conclusão de que eu queria ir em frente. A primeira é que conheço o Nilson há mais de 20 anos, desde a Copa de 1998. 

A segunda é que o que estávamos conversando era a materialização de tudo que a gente tinha discutido na ESPN, em termos de possibilidades: ideias, conceitos, o futuro da distribuição de conteúdo. 

E o terceiro ponto é que, quando nós conversamos, a única palavra que ele usou foi streaming. Nós partimos do zero. Não havia nome, logotipo e nem conceito.

É correto dizer que a chegada ao Brasil, em 2019, da DAZN, primeiro serviço de streaming de esportes ao vivo e sob demanda do mundo, levantou essa bola?
Não. Foi desde antes de 2012, quando a gente discutia o projeto 360 – que virou o Watch ESPN – e nem vice-presidente eu era. Isso foi a chegada da ESPN ao streaming, ocupando o espaço de distribuição direta para o consumidor. E foi muito rápido e fácil entender que a regionalização para definição de público-alvo te dá um valor muito grande para distribuir em streaming

Porque todo mundo quer o que é bom, todo mundo quer o que é de impacto, todo mundo quer estar nos grandes eventos. Eu também quero — mas existe um grupo gigantesco de pessoas de outros esportes, que não o futebol, que querem consumir determinado conteúdo. 

É uma gama significativa que não tem acesso ao conteúdo porque os grandes players não se interessam por esses conteúdos. Esse é o começo da distribuição em streaming que vai levar a uma distribuição de grandes produtos, que têm grandes direitos. 

A DAZN chegou como um player gigante, pagando caro pelos direitos de transmissão de eventos. Eu não gosto de fazer juízo de valor e não posso avaliar se a decisão deles foi correta ou errada, mas tem um resultado aí que evidencia que a empresa foi muito otimista com o desenho de chegar ao mercado

Hoje, você vê outros movimentos acontecendo. Jogos da Seleção no pay-per-view, o Comitê Olímpico Brasileiro criando canal de streaming para atender federações e confederações… Essas são circunstâncias criadas em um mercado que terá muito consumo, porque vai ter o impulso do fanático, do fã, do interessado. 

Por isso, estamos com a LiveSports. E tenho plena convicção dos resultados que vamos obter.

Como a empresa foi desenhada? O meio de transmissão é o streaming, mas como fica a questão dos direitos de transmissão? Será um modelo de assinatura para o consumidor?
O que o streaming permite é um leque grande de modelos para negócios gigantes, médios ou menores. O produto é adaptável à necessidade do nosso cliente. 

Hoje, você pode ter tanto um clube de futebol interessado em contratar a LiveSports para que cuidemos das transmissões – isso quando os direitos permitirem, é bom que se diga –, bilhetando, ou seja, possibilitando que o usuário adquira um ticket para assistir, quanto a LiveSports administrar um pagamento recorrente do sócio-torcedor. Além de administrar a parte de conteúdo desse oferecimento! 

Então, você tem: compra por subscrição, que é o assinante normal; pay-per-view, que é a pessoa que quer comprar aquele conteúdo específico; advertising, que permite a inserção de comerciais com uma marca assumindo aquele conteúdo; eventos corporativos, em que se faz uma entrega com interação, por intermédio de plataforma; e tem o VOD [vídeo sob demanda, na sigla em inglês] normal. 

A solução que nós construímos nesses quase 90 dias de vida da empresa é uma estrutura na nuvem, robusta tanto de streaming, quanto de bilhetagem, além de estética da plataforma. E isso te dá uma liberdade enorme para se ajustar conforme a necessidade do cliente que você quer atender

Tenho ouvido a pergunta se é um canal de televisão. Percebe que ainda estamos no processo de aculturação? Hoje, direitos [de transmissão] não estão no escopo da LiveSports. Nós estudamos meios para que o direito não estivesse no negócio — senão, inviabilizaria. 

Ao mesmo tempo, construímos uma alternativa de rentabilização para federações, confederações e clubes como eles nunca viram e vão poder explorar cada vez mais, porque eles são os donos do conteúdo. A LiveSports não será a dona do conteúdo, será uma parceira, uma integradora de facilidades que permitirá aplicar esse modelo.  

Como você pretende lidar com conteúdo na LiveSports?
O que é importante é avisar para as pessoas que aquele conteúdo estará disponível naquela plataforma, naquele momento, para aquele fim e, para ela ter acesso, precisa fazer tal coisa. Esse é um processo importante, que estamos trabalhando desde o início. Então, já trouxemos para dentro [da empresa] assessoria de imprensa, coordenação de redes sociais e webdesign, por exemplo. 

Quando a gente faz algo direcionado para um público específico, isso te dá uma liberdade enorme para trabalhar esse conteúdo de espera, de preparação… Quem sabe com um documentário, uma grande reportagem ou uma boa entrevista de estúdio. Nós vamos estar aparelhados e preparados para isso

É diferente de você ter um countdown numa plataforma que diz: “O evento começa em 3 horas 59 min 57 segundos”. A pessoa vai acessar a plataforma a partir do momento que ela souber que tem conteúdo ali. Ela vai ser instigada e convidada a continuar ali. 

Você teve várias facetas profissionais até hoje. Como gostaria de ser lembrado?
Como uma pessoa leal, sem manchas profissionais. Podem questionar decisões, atitudes, escolhas… Isso faz parte do jogo. Quero ser lembrado com respeito, sabendo que tomei decisões duras, que afetaram as pessoas. 

Muitas dessas decisões foram minhas, em muitas eu fui a ponta da lança.. Teve decisões que não fui eu que tomei, mas que foram tomadas. Mas, acima de tudo, sempre estive na linha de frente — e sempre de forma transparente. 

Trabalhar de forma escusa e escondida nunca fez parte da minha vida, e nunca fará. O que importa é voltar para casa plenamente satisfeito com aquilo que construí.

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