Luxo é ser sustentável: conheça as joalherias que criam peças com ouro e prata reciclados e diamantes feitos em laboratório

Maisa Infante - 2 ago 2022
Luna Nigro (à esq.) e Júlia Blini, fundadoras da Gaem (foto: divulgação).
Maisa Infante - 2 ago 2022
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O mercado de joalherias é dependente de recursos naturais. Ouro, prata e pedras são extraídos da natureza por meio da mineração, e os impactos dessa atividade não são pequenos: vão desde questões ambientais, como desmatamento, contaminação de solo e água, até questões sociais, como trabalho escravo e ocupação de terras indígenas.

Essas questões começam a pautar algumas mudanças no setor, como o reúso de metais. Ouro e prata, por exemplo, podem ser extraídos de materiais do dia a dia, como lixo eletrônico, fivela de cinto, exames de raio-x, dentre outros. E já existem empresas que fazem isso, inclusive aqui no Brasil. Temos bastante metal disponível e não há necessidade de extrair mais”, diz a joalheira Karina Olsen.

De forma geral, o ouro e a prata são extraídos desses materiais em processos químicos e, depois, levados para a purificação. Como o ouro e a prata puros (ouro 999 e prata 1000) são muito moles, os joalheiros aplicam as ligas metálicas como cobre e paládio de acordo com a sua necessidade. Os mais usados no mercado nacional são o ouro 18 quilates, que leva 75% de ouro e 25% de outras ligas, e a prata 950, que tem 95% de prata pura e 5% de outros metais.

Além do reúso, outra forma de levar sustentabilidade à joalheria é o uso de metais certificados. Existem diversas certificadoras no mundo que atestam que aquele material veio de garimpos legais, que respeitam leis ambientais e trabalhistas. 

Muitas marcas pequenas e artesanais já nascem com esse propósito. Mas algumas grandes redes também estão olhando para isso e começam a fazer mudanças. A Tiffany & Co, por exemplo, compartilha com os clientes a proveniência dos diamantes e não adquire pedras com procedência desconhecida, mesmo com a garantia de compras responsáveis. A Swarovski lançou, junto com a atriz Penélope Cruz, uma coleção que usa rubis, safiras e diamantes feitos em laboratório, além de ouro proveniente de comércio justo. 

“As mudanças em grandes empresas são importantes porque influenciam o mercado a ter uma cadeia de fornecedores preocupados com isso”, diz a joalheira Débora Maltz Goldenfum

Como quase tudo na sustentabilidade, o caminho é longo e tem desafios. Os custos de produção de joias sustentáveis são mais altos e nem sempre é possível aplicar esse valor no preço final. Assim, as margens de lucro acabam sendo menores. Tem ainda a conscientização do consumidor para que entenda e aceite esses novos produtos. 

A seguir, conheça quatro negócios nacionais que já estão focados na joalheria sustentável. 

 

A GAEM PÕE A SUSTENTABILIDADE EM PRÁTICA COM JÓIAS FEITAS COM OURO RECICLADO E DIAMANTES DE LABORATÓRIO

Foi em 2020 que Luna Nigro e Júlia Blini resolveram empreender na área de joalheria tendo a sustentabilidade como pilar principal. Para isso, optaram por trabalhar com ouro certificado e reciclado, além de diamantes de laboratório, os chamados Lab Grow Diamonds

Também foram em busca do certificado de empresa B, que conseguiram em dezembro de 2021 na categoria Certificada Pendente, já que o negócio ainda não tinha um ano de existência. 

“A Gaem veio para ser transparente”, diz Júlia, que trabalhou nas marcas de calçados Jimmy Choo, em Londres, e Alexandre Birman. Também teve sua própria joalheria, que levava o seu nome. 

“Tive uma marca de jóias durante sete anos, mas havia uma incoerência entre os meus valores da vida pessoal e o que eu via que era possível aplicar desses valores no trabalho”

 Foi justamente no propósito e na vontade de fazer algo com impacto positivo que ela e Luna, que vem da área de styling, edição e consultoria de moda, se encontraram. 

A Gaem foi lançada em agosto de 2021 e trabalha com ouro certificado pela Responsible Minerals Initiative, que atesta que as práticas utilizadas pelos garimpos estão de acordo com as leis ambientais, direitos humanos e trabalhistas, e também com ouro reciclado, certificado pelo fornecedor por meio do blockchain. A meta, segundo as empreendedoras, é chegar em 100% de ouro reciclado.

“Essa é a nossa meta desde o começo, mas não conseguimos começar pelo reciclado porque não achávamos um material que estivesse de acordo com os nossos valores”, conta Júlia. 

Aneis da Gaem (foto: divulgação).

Hoje, a marca já consegue trabalhar com 50% de cada material. Outro diferencial da Gaem é o uso de diamantes de laboratório, tecnologia que existe desde a década de 1950, mas sempre foi mais utilizada para a produção de brocas e materiais cirúrgicos. 

Com a evolução tecnológica, os laboratórios conseguiram chegar em um diamante com as mesmas propriedades físicas, químicas e ópticas do diamante natural, com a vantagem de não ser extraído da natureza e não carregar os impactos ambientais da mineração e nem as marcas sociais daqueles que são extraídos em zonas de conflito e fazem uso de trabalho escravo (os chamados “diamantes de sangue”).

A produção em laboratório começa com uma semente de carbono colocada em um reator. Em um período de 7 a 9 semanas obtém-se um diamante bruto que, assim como o natural, é 100% carbono e tem o mesmo índice de dureza na escala Mohs: 10. 

“Um gemologista com uma lupa não sabe ver as diferenças porque são as mesmas propriedades. Só é possível identificar usando um maquinário específico”

Embora seja tão valioso quanto o diamante natural, ainda existe o desafio de comunicar isso ao consumidor. O que tem ajudado é o fato de grandes marcas já estarem aderindo aos diamantes de laboratório. A De Beers, mineradora e joalheria inglesa, por exemplo, lançou uma linha feita com diamantes de laboratório. 

“No começo, o mercado fez muito lobby contra. Hoje em dia, as marcas já olham para isso”, diz Luna. “No nosso entender, é um produto idêntico, porém tem menos intermediário, então tem um preço muito competitivo.”

A OLSEN K CRIA PEÇAS REAPROVEITANDO OURO E PRATA, E COM METAIS EXTRAÍDOS DA RECICLAGEM DE ELETRÔNICOS

Usar os recursos naturais de uma forma mais sustentável sem perder em design, beleza e qualidade é o propósito da Olsen K, marca lançada por Karina Olsen em 2018 que trabalha com o conceito de upcycling. 

Ela seguiu por esse caminho depois de estudar gemologia no Gemological Institute of America, em Nova York, trabalhar no ateliê do designer Jack Vartanian e, durante sete anos, ter sua própria marca, a Cocoon. 

“Foi super desafiador deixar esse negócio porque a marca estava indo super bem”, diz Karina. “Mas eu precisava ir atrás de um novo sonho que me trouxesse, além do design, um propósito maior.” 

Esse propósito é justamente a sustentabilidade. Hoje, a Olsen K. trabalha apenas com ouro e prata reaproveitados, certificados internacionalmente pela London Bullion Market Association. O fornecedor é uma empresa belga que possui escritório em Manaus e recicla lixo eletrônico para extrair metais. 

“Esse foi o único fornecedor que encontrei trabalhando de maneira salubre. No Brasil tem muita gente que faz isso no fundo do quintal, mas é um problema porque o processo é tóxico. E eu não quis ir por esse caminho porque você ajuda em um ponto e atrapalha no outro” 

A sustentabilidade também está no uso das pedras naturais. Gemóloga de formação, Karina acredita no poder energético desses minerais e foi em busca de uma forma mais sustentável de lidar com o insumo, que leva milhões de anos para se formar na natureza e é extraído por meio da mineração, uma atividade com impactos ambientais como contaminação de água e do solo. 

Ela descobriu que entre 30% e 70% das pedras eram descartadas pela joalheria tradicional por terem inclusões (as partes mais brutas de uma pedra formadas por outros minerais). 

“Os lapidários deixavam essas partes das pedras em caixas. Quando comecei a usá-las, eles me doavam porque não tinham valor algum.”

Para criar valor ao material e ajudar a cadeia de lapidários, Karina começou a criar desenhos para as pedras brutas e usá-las nas joias. Foi assim que surgiu o nome Laskas, uma linha que leva beleza e valor para esse material. O colar Laskas, por exemplo, tem 12 pedras com inclusões, cada uma com uma lapidação diferente.

“Eu acredito que joia é energia e que toda cadeia precisa estar bem. E acho que conseguimos criar valor para algo que não tinha e é tão precioso. Outro dia até precisei pedir um desconto para um lapidário porque essas pedras passaram a ser mais valorizadas”

Com relação ao valor de mercado, Karina conta que consegue ter um preço competitivo, porém, as margens de lucro são menores do que na joalheria tradicional, já que o custo de produção é mais alto e ainda não é possível cobrar um preço que dê as mesmas margens. 

“Comecei com valores mais baixos para lançar conceito. Com o posicionamento da marca, já conseguimos chegar no mesmo valor das joalherias, mas a nossa margem é menor. Não conseguimos cobrar mais caro porque a aceitação do cliente ainda não está nesse nível”.

Hoje, a Olsen K tem seis funcionários, vende em e-commerce próprio, no ateliê em São Paulo e em lojas parceiras em São Paulo e Nova York. Karina desenha as peças, que são produzidas por uma rede de 20 parceiros entre ateliês, lapidários e ourives. O ticket médio fica em 4,5 mil reais para compras no escritório e 2,3 mil reais na loja online. Os preços variam de 600 reais a 40 mil reais. 

O próximo passo, previsto para 2023, é investir em um projeto social que capacite pessoas em situação de vulnerabilidade social a trabalhar na cadeia de joalheria. 

“O trabalho artesanal é fácil de ensinar e está morrendo, porque a maioria da joalheria é feita na China, por máquinas”, diz Karina. “Hoje você consegue cravar um brinco inteiro na máquina. Porém, eu acredito que faz muita diferença o artesanal.”

PARA A DEMGO, UM DOS PRINCIPAIS DESAFIOS É COMO INCLUIR A SUSTENTABILIDADE NO USO DAS PÉROLAS

É em Porto Alegre que Débora Maltz Goldenfum cria as joias da Demgo, marca autoral que só trabalha com prata reciclada. 

Historiadora da arte e designer, ela se encontrou na joalheria depois de ter trabalhado com criação de figurinos e no desenvolvimento de produtos para a Insecta Shoes, marca de calçados vegana, onde ficou por cinco anos. 

“A sustentabilidade apareceu pra mim mais como uma experimentação. Na Insecta, por exemplo, a gente transformava roupas de brechó em sapatos. Tinha também toda uma pesquisa de desenvolvimento de solado reciclado – e isso acabou me interessando”  

Fazendo cursos variados na área de design ela chegou na joalheria e descobriu que uma prática comum no segmento era reutilizar metais. E resolveu começar dessa maneira.

No começo, Débora comprava de uma pessoa que garimpava objetos antigos como cintos, bandejas e vasos e fazia a extração dos metais. 

Hoje, a prata que ela usa vem de uma empresa que compra de diversos fornecedores e revende o metal puro. A fonte é variada: desde objetos antigos até lixo eletrônico e exames de raio-X. Com isso, contribui para que menos prata seja extraída diretamente da natureza.

Ateliê da Demgo (foto: divulgação).

“O metal não é uma matéria-prima renovável. Então, se pudermos usar o que já tem é mais interessante”, diz Débora. 

Um dos desafios que ela tem é encontrar formas de incluir a sustentabilidade no uso das pérolas, outra matéria-prima usada na Demgo. Isso ainda não foi possível por uma questão estética, muito relevante dentro da joalheria. 

“Às vezes uma pérola que você deseja pra sua coleção versus a que vai ter ali sobrando não tem a mesma qualidade ou a mesma beleza.” 

Ela pontua que as mudanças que algumas grandes marcas começam a fazer, no sentido de incluir mais sustentabilidade nos seus processos, podem impactar muito esse mercado e beneficiar também os joalheiros mais artesanais, já que impactam na cadeia de fornecedores. 

“Quando falamos de metal, é possível ter uma peça nova a partir de material de reúso porque é possível purificá-lo. Mas tem algumas substituições que não dá pra fazer porque ficamos um pouco refém do que o mercado oferece” 

As peças da Demgo são criadas no ateliê em Porto Alegre, mas a produção final ocorre em São Paulo, em um ateliê parceiro. Esse movimento veio junto com a vontade de escalar um pouco mais a produção, ainda que siga sendo artesanal. 

Se no começo Débora fazia tudo na bancada, sozinha, hoje ela cria as peças em 3D, manda para os parceiros que fazem a impressão e, a partir dela, o molde que será usado na confecção das peças. 

No início, em 2018, ela fazia duas peças de cada modelo da coleção e hoje pode fazer quantas quiser. Porém, para suprir sua demanda, fica com um número que varia entre seis e oito de cada.

“Por mais que exista tecnologia envolvida, boa parte da cadeia é bastante artesanal, como fundição, conversão da cera (molde) em prata e o acabamento, que acaba dando pequenas variações em cada peça.” 

O YBY BANK É UM BANCO DE METAIS DE REÚSO QUE UTILIZA BLOCKCHAIN PARA RASTREAR A ORIGEM DE SUAS MATÉRIAS-PRIMAS

Reaproveitar metais que já estão em circulação, ajudando a diminuir os impactos da mineração no País, e a dar mais transparência ao setor são os principais objetivos do Yby, banco de metais de reúso que começou a operar em outubro de 2021. 

Criado por Mayara Rovery, especialista em novos negócios com foco em sustentabilidade e com sete anos de experiência em joalheria, o Yby compra acessórios, pratarias e moedas tanto de pessoas físicas quanto de empresas. As transações são feitas de forma online e os metais que entram para o banco são cadastrados em um aplicativo de blockchain que gera um QR Code com todo o rastreio.

“A ideia é criar um sistema produtivo circular, onde minimizamos os custos ambientais, econômicos e sociais e maximizamos o valor do resíduo como novo insumo de produção”

Tanto vendedores quanto compradores preenchem formulários online para se cadastrar no banco. Os vendedores precisam mandar fotos e informações sobre os metais para que os produtos fiquem cadastrados. 

Quando chega uma demanda, a Yby vai em busca da captação e compra desses metais a partir daquilo que está cadastrado. É cobrada uma porcentagem de 10% sobre a compra e a venda.

Mayara Rovery, empreendedora do Yby Bank (foto: divulgação).

O metal pode ser vendido tanto purificado quanto já com alguma liga. Os principais produtos comercializados são o ouro 999 e a prata 1000 – puros – e o ouro 18 quilates e a prata 950. 

Quando os metais chegam para o Yby,  passam por um pré-teste, no qual o metal é derretido e vai para uma análise com raio-X, que identifica o teor exato dele. A depender do resultado é feita a purificação tanto por funcionários do Yby como por parceiros. Também existe a possibilidade de comercializar o metal já com a liga, desde que seja de boa qualidade e atenda às necessidades do cliente. 

“A ideia é realmente aproveitar da melhor forma possível o metal. Se ele está próximo a uma liga que as pessoas já querem comprar, podemos apenas adicionar o metal mais puro e conseguir o teor mais alto sem precisar purificar” 

Além do trabalho de compra e venda de metais, o Yby também criou um sistema de selos para apoiadores. Há quatro opções com preços e benefícios diferentes. O selo bronze é grátis, o prata custa 78 reais por mês e os selos Ouro e Verde têm os valores divulgados apenas sob consulta. A ideia é apoiar um trabalho de pesquisa, informação e materiais informativos desenvolvido pelo Yby. 

“É uma forma de continuar incentivando nossas próprias pesquisas. Porque, além de trazer uma solução para o problema do metal sem certificação, queremos trazer mais transparência para o setor.”

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