O +Asas conseguiu monetizar a coisa mais legal do turismo: a experiência inesquecível

Renata Reps - 10 set 2014
Os sócios João Pedro e Isabella ao lado do anfitrião Hugo Sanchez e de Graziella Fulchiron e Gabriel Barbosa, da equipe Mais Asas: turma satisfeita depois de uma experiência de stand up paddle.
Renata Reps - 10 set 2014
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Ir além, sair da zona de conforto, ousar. Para os amigos de infância João Pedro Lemos e Isabella Wiltgen, nascidos, criados e acostumados com as belezas da Cidade Maravilhosa, desvendar um Rio de Janeiro exclusivo era o primeiro passo em direção a um sonho inusitado. Além de descobrirem pontos de vista únicos e especiais da cidade em que moravam, eles conseguiram dar valor a essas experiências e, assim, criaram a empresa Mais Asas.

“Nós vendemos momentos marcantes, oferecidos por pessoas da cidade onde atuamos. Entramos em contato com gente talentosa e, sobretudo, apaixonada pelo que faz, que não necessariamente explora sua paixão de forma comercial, e possibilitamos que ela ofereça isso ao público por meio da nossa plataforma online”, explica João.

Assim, o Mais Asas vende roteiros turísticos fora do senso comum para quem vem de fora e também para os próprios cariocas. Existem três linhas de experiências: algumas são voltadas para o setor de bem-estar, outras são gastronômicas e há também as culturais. Assim, você pode comprar tanto um roteiro dos bares mais descolados em favelas cariocas quanto experimentar um almoço gourmet em uma mansão aos pés do Cristo Redentor.

Chamados “anfitriões”, os líderes de cada experiência repassam ao Mais Asas de 20 a 30% de comissão por cada passeio, que custa de 85 a 300 reais e dura em média quatro horas hoje – já foi um pouco diferente. “Começamos com tours longuíssimos, de quase um dia inteiro, e vimos rapidamente que esse modelo não funcionava, ficava todo mundo cansado demais. O melhor é fazer em quatro, no máximo cinco horas para a pessoa sair satisfeita e com gostinho de quero mais”, diz João.

 

Na experiência da Pedra do Sal, reduto de samba do centro do Rio, o cliente é levado a bares e rodas de samba históricos

Na experiência da Pedra do Sal o cliente é levado a bares e rodas de samba históricos do Rio

Os parceiros têm cada vez mais liberdade para propor alterações nos roteiros e refiná-los. Ao menos um dos membros da equipe do Mais Asas – formada pelos dois sócios, um consultor e uma estagiária – acompanha sempre nas primeiras vezes que um novo tour se monta, mas quando o formato já está bem delineado, o anfitrião vira o líder do evento.

Por exemplo, no Guaratiba Dreams, os turistas dão uma volta de stand up pedal pelas águas paradisíacas do bairro de Guaratiba, que fica na zona oeste do Rio de Janeiro. Quem guia é a surfista Gabriela, que também dá uma aula básica de SUP para os não iniciados e guarda mil histórias para contar de suas viagens pelo mundo.

No Moda para que te quero, a cool hunter Karen traça um roteiro personalizado depois que o cliente responde, pelo site, a algumas perguntas que delineiam seu interesse pelo estilo fashion carioca. Bem articulada, ela traça visitas a lojas, ateliês e fábricas e marca encontros com estilistas que podem até resultar em um descontinho camarada em futuras compras.

COMO INVENTAR O PRÓPRIO EMPREGO

João tem 29 anos e é advogado. Trabalhou muitos anos em escritório de advocacia, principalmente na parte societária empresarial. Três anos antes de criar o Mais Asas, ele tinha se tornado executivo de negócios e consultor jurídico do Sistema Elite de Ensino, uma tradicional escola carioca. Nos momentos de lazer, sempre buscou descobrir novos cantos da cidade, fora do eixo praia-Zona Sul. Essa característica era comum entre ele e a amiga Isabella – e, assume o rapaz, diferente da maioria dos seus amigos, que gostavam de frequentar os mesmos lugares sempre.

“Somos acostumados a nos aventurar muito pelo Rio, então tem muita coisa que a gente conhece e já pensa automaticamente que poderia virar uma experiência. Já se põe logo a questão: será que conseguimos encontrar alguma pessoa que tenha uma ligação íntima com esse lugar e tenha interesse de mostrá-lo a partir de seu próprio ponto de vista?”, conta João.

“Empreender é algo muito bacana, claro, mas é muito difícil. Dá um frio na barriga quando você pula de cabeça, mas eu sempre quis construir algo do zero e em que eu realmente acreditasse. Poder estar totalmente dedicado a isso é algo que me realiza”

João decidiu largar o emprego estável e se dedicar inteiramente ao Mais Asas depois que o site foi ao ar, em agosto de 2013. Antes disso, durante a montagem do projeto, trabalhava para a escola durante o dia e para o Mais Asas à noite. Ao todo, ficou cerca de nove meses sem ter um salário, na máxima de reinvestir na empresa todo o lucro que obtia. Mas não foi fácil.

“Empreender é algo muito bacana, claro, mas é muito difícil. É preciso ter muita disciplina, inspiração e dedicação que no nosso caso precisa existir também em vários fins de semana. Dá um frio na barriga quando você pula de cabeça, mas eu sempre quis construir algo do zero e em que eu realmente acreditasse. Poder estar totalmente dedicado a isso é algo que me realiza bastante no dia a dia, e o projeto faz cada vez mais sentido para mim”, conta.

Cerca de seis meses de pesquisa, planejamento e investimento – somando os dois sócios, foram 40 mil reais de capital inicial– se seguiram à primeira conversa sobre o projeto antes de o site ir ao ar. Logo depois do lançamento, a sorte bateu à porta deles: fecharam um contrato de um ano com a marca de moda feminina Farm, que adorou o produto oferecido e queria formular seis experiências específicas para um grupo de clientes e funcionários da loja.

Mais Asas Farm

A Farm foi uma das primeiras empresas a se tornar cliente do Mais Asas, e a parceria rendeu várias experiências

Com esse trabalho, a empresa já conseguiu gerar um fluxo de renda necessário para alavancar seus projetos. Já desde o início, o Mais Asas virou parte de um dos espaços de coworking criativos mais famosos do Rio, o Templo, no bairro da Gávea. Começaram dividindo a bancada coletiva e, recentemente, negociaram um espaço privado em uma sala no casarão. Isso foi necessário devido ao crescimento do negócio: especialmente durante a Copa do Mundo, eles venderam outras muitas experiências particulares para empresas como Airbnb, Uber e Audi e estão em fase de expansão desta vertente.

O modelo de tour personalizado pode levantar algumas questões, do tipo: o que leva os anfitriões a continuarem a recorrer ao Mais Asas, mesmo depois de conhecer de perto a sua clientela e já ganhar autonomia suficiente para tocar os passeios por conta própria? João não se preocupa com isso. “A nossa plataforma facilita muito a vida do anfitrião na hora de organizar aquela experiência. Gerenciamos venda, calendário, marketing e número necessário de pessoas para que a saída valha a pena”, explica.

O parceiro, então, pode focar naquilo que mais importa, que é o passeio em si. Além disso, os sócios se direcionam a um público que, sozinha, a pessoa teria mais dificuldade de atingir. Buscam atrair gente que tenha mesma filosofia que eles e que queira dividir um momento especial com o anfitrião. O objetivo da empresa também é conectar pessoas que tenham interesses em comum e que possam, eventualmente, também se tornar parceiros.

QUANDO O TRABALHO INVADE A VIDA, E VICE-VERSA

A rotina de trabalho é dura. “Tem um mundo de coisas a fazer ainda; aliás, há tudo por fazer, esta é a realidade de qualquer start-up. Questões burocráticas e financeiras, a parte operacional de como as experiências estão acontecendo, o nível de satisfação dos clientes e dos anfitriões e o que fazer para aprimorar nossos serviços. A gente se encara como um agente facilitador entre o anfitrião e o cliente, é basicamente isso que somos”, diz o cofundador.

Todos os integrantes da empresa têm metas individuais e estão envolvidos no planejamento estratégico de crescimento do Mais Asas. Mudanças são bem-vindas, e consideradas importantes – nada é batido a martelo, tudo é acompanhado e alterado conforme a evolução das ideias. E a cada dia surgem mais desafios e novas tarefas a cumprir. “Mas como é algo nosso, é divertido, não tem aquele cansaço de um trabalho com que você não se identifique tanto. Ficar na empresa de 10h às 20h nem parece obrigação para mim”, diz.

Mais Asas Urca

A anfitriã Érica revela segredos bem guardados do bairro da Urca

João e Isabella queriam, no início, proporcionar experiências inovadoras de sua própria cidade aos cariocas. Agora que viram que o modelo dá certo, eles sonham em ganhar o Brasil e depois, quem sabe, o mundo. Eles buscam entender, ainda nesta fase que consideram inicial, que outras cidades estariam abertas a esse tipo de aventura. Consideram São Paulo uma possibilidade natural, devido aos múltiplos universos que a metrópole reúne – tantos que é impossível que um paulistano conheça todos eles.

Porém eles querem mais, e desejam sobretudo aumentar essa rede de gente que pensa fora da casinha e que quer descobrir outras formas de ver locais que acha que já conhece tão bem. Dar asas para voar é o objetivo – e, pouco a pouco, experiência a experiência, o Mais Asas vai chegando lá.

Draft Card Mais Asas

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