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Mulheres na ciência: como desenvolver uma carreira internacional?

Giovanna Riato - 23 jan 2020 Mulheres na ciência: Camila Cruz fala sobre carreira internacional na área técnica
Camila Cruz Durlacher, líder dos laboratórios corporativos da 3M para a Europa, Oriente Médio e África, fala dos desafios de comandar um time técnico fora do Brasil.
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Este texto faz parte da série especial Mulheres na Ciência, que destaca a história, desafios e aprendizados de profissionais que atuam em posição de destaque na área científica da 3M.


Pare e pense: quantas mulheres você conhece em uma posição de liderança na área científica de uma empresa? Pois é: esta é uma peça rara, difícil de encontrar. Camila Cruz Durlacher, 46 é uma delas. Brasileira, química, mestre em engenharia de materiais e mãe de dois filhos, ela desenvolveu a sua carreira na 3M do Brasil, com alguns períodos em posições em outras regiões, como Argentina e Estados Unidos.

Mesmo com a jornada já admirável até aí, em 2019 ela assumiu o seu maior desafio profissional e atualmente lidera os laboratórios corporativos da companhia para a Europa, Oriente Médio e África. Para chegar no cargo ela diz ter se preparado, buscado a oportunidade e, enfim, juntado a família toda e um tanto de coragem para se mudar para a Alemanha, onde fica baseada.

Perto de completar um ano na nova posição (e nova vida), ela fala na entrevista a seguir sobre seus desafios, realizações, de como foi realizar o sonho de morar na Alemanha e, enfim, das possibilidades para as mulheres na área científica.

Qual é o seu papel nesta nova posição na 3M na Alemanha?

Em 2018 a 3M mudou a estrutura de seus laboratórios na Europa, Oriente Médio e África. Até então, tínhamos uma liderança por país. No lugar disso, passamos a ter um comando para cada uma das cinco áreas de negócio, com responsabilidade por toda a região.

O meu marido é descendente de alemães e sempre tive o sonho de morar aqui. Achei a oportunidade interessante, me candidatei à vaga e fui selecionada para liderar a área de pesquisa e desenvolvimento dos laboratórios de Segurança e Gráficos naquele momento, com uma equipe de cerca de 300 pessoas espalhadas por vários países.

Você permanece nesta posição?

Em março, tivemos uma nova mudança, na qual a 3M passou de cinco para quatro grupos de negócios. Com isso, deixei minha função anterior e fui convidada a assumir os laboratórios corporativos.

Nas áreas de negócio, desenvolvíamos produtos já mais próximos do mercado, muitas vezes atendendo a uma demanda do cliente. Já os laboratórios corporativos representam uma etapa anterior do ponto de vista técnico. A missão ali é desenvolver as tecnologias que serão incorporadas nos produtos.

É um desafio completamente novo para mim, porque eu não estou trabalhando com produtos, e sim com tecnologia, com ciência básica, com muita propriedade intelectual

Como é ser uma mulher na ciência neste contexto?

Do ponto de vista de diversidade, a Europa está na frente quando falamos da mistura de culturas, do número de estrangeiros trabalhando juntos, que é algo que não temos tanto no Brasil. Meu primeiro líder aqui era inglês e agora me reporto para um vice-presidente dos Estados Unidos, além de trabalhar com muitos alemães e uma série de pessoas de outras nacionalidades. Agora, quando se trata de gênero, sou a única mulher no Comitê Operacional Técnico.

Mulheres na ciência

Em paralelo com os desafios no trabalho, Camila enfrentou uma mudança completa de vida ao levar a família toda para morar na Alemanha.

Houve um choque cultural?

O fato de eu ser brasileira não é estranho aqui, já que eles têm esta cultura de trabalhar com pessoas de origens diferentes. Ao liderar o grupo de pesquisa corporativa, meu grande desafio está no fato de que 40% do time é formado por doutores. É um nível científico bem avançado.

Claro que não se espera que eu seja expert em todos os temas técnicos porque tenho uma função gerencial, mas preciso entender o que meu time está falando. É essencial aprender sobre as tecnologias com maior profundidade em pouco tempo.

Com a mudança de país e função, a sua perspectiva sobre liderança também se transformou? O que você aprendeu neste sentido?

Lidar com equipes em vários países me ajudou a entender as diferenças, o que move as pessoas, suas motivações e perspectivas. Ao mesmo tempo, eu não sinto que tenho exclusividade neste processo. Eu mudei de país, mas as mudanças na estrutura da companhia também fizeram com que os times passassem a se reportar a lideranças em outras regiões. Somos quase 1300 pessoas na área de pesquisa e desenvolvimento nos adaptando a este novo contexto.

Do ponto de vista pessoal, qual foi o impacto da mudança?

Eu sou casada, tenho dois filhos adolescentes e trouxe todo mundo para cá. Então esta é mais uma preocupação dentro deste processo. No trabalho, para dar certo, preciso aprender muitas coisas novas e atuar 100% do tempo em outro idioma – algo que traz uma carga extra. Em paralelo, em casa, eu preciso me manter atenta e apoiar a transição de todos.

É um desafio em dobro, então?

No começo foi mais difícil, porque a minha função inicial exigia que eu viajasse muito. Ninguém reclamou, ninguém sofreu, mas eu agora me pergunto se eu não conseguiria ter dado um jeito de estar mais presente. É algo que a gente sempre se questiona. Ainda assim, como o meu marido não está trabalhando por enquanto, ele consegue cuidar bem dessa parte de organizar as coisas em casa.

Por outro lado, estou realizando o desejo de viver a cultura alemã, de experimentar a segurança, de aprender a ficar tranquila quando meus filhos saem de casa sozinhos, porque aqui não tem perigo. Tem sido muito bom.

Como única mulher na liderança da área técnica, de certa forma você sente que também tem a responsabilidade de ser uma referência?

De certa forma, sim. Fui convidada para criar um grupo de liderança feminina focado na organização técnica. Tem sido um novo desafio também. No Brasil nós fazemos um trabalho de liderança feminina há algum tempo, mas com abordagem mais abrangente, como organização. Este grupo que estou criando do zero é focado na comunidade técnica, com participantes de diferentes países.

Este projeto já está estabelecido?

Lançamos a iniciativa em julho. Em cada país que eu visito, faço uma apresentação e trabalho para atrair interessados. Estamos com mais ou menos vinte pessoas de diferentes países, o que é muito legal. Tem gente da Rússia, Polônia, Inglaterra, entre muitos outros. É bem diversificado, com participação de homens e de mulheres, além de pessoas da área técnica e também de gestores.

Depois deste primeiro passo, estamos definindo as nossas prioridades. O objetivo é entender como podemos ter mais mulheres na área científica sênior da companhia. Hoje a presença feminina é inferior a 10% no nível técnico equivalente ao de vice-presidência.

Em geral, você percebe que há mais possibilidades para as mulheres em carreiras científicas na Europa?

Esta foi uma grande surpresa aqui na Alemanha. Quando olhamos de fora, para aspectos como licença maternidade de um ano, pensamos que é tudo mais avançado do que no Brasil. A verdade é que as mulheres que optam por usufruir desta licença mais longa têm um prejuízo grande na carreira, tanto em salário, quanto em ascensão profissional. Aqui o homem também pode ter a licença parental ampliada, mas pouca gente faz porque eles não querem abrir mão de seus ganhos.

No fundo, aqui também há esta expectativa de que a responsabilidade por se dedicar aos filhos após o nascimento é da mulher

Assim, percebi que na Europa a mulher tem a mesma dificuldade de desenvolver uma carreira técnica – talvez até mais do que no Brasil. Em geral, o ambiente de trabalho aqui é até menos inclusivo. Há mulheres nestas carreiras, em posições de liderança, mas não é comum.A discussão sobre diversidade está mais avançada no Brasil como um todo, até quando falamos de outras frentes, como a inclusão de pessoas LGBT.

Você é uma exceção como mulher na ciência em posição de liderança, com uma carreira internacional. O que foi essencial para construir esta trajetória? Quais conselhos você daria a quem busca um caminho semelhante?

Foi importante me colocar à disposição. Eu me candidatei, me voluntariei, busquei as mudanças. Se disponibilizar para as oportunidades é essencial.

Ninguém tem a obrigação de adivinhar quais são os nossos objetivos e sonhos.

Como foi colocar isso em prática no processo de mudança para a Alemanha?

Eu queria morar na Alemanha por algum tempo. A partir do momento em que coloquei isto na cabeça, comecei a planejar em casa, a comunicar o meu objetivo para as pessoas que trabalhavam comigo e poderiam influenciar este processo.

Estar disponível é essencial e não pode ser da boca para fora. Porque quando a oportunidade surge você precisa estar pronta e ter a consciência de que vai deixar coisas para trás. No meu caso, com a mudança, ficamos longe da família. Há benefícios, mas também existem custos.

Tem uma frase do Louis Pasteur que define bem isto: “A sorte favorece as mentes preparadas”

Que sonho profissional você ainda tem? O que quer alcançar?

Esta é a pergunta mais difícil de todas (risos). Tenho a sensação de ter acabado de alcançar um grande sonho, então fica difícil pensar em outra coisa. Neste momento, acho que o meu grande objetivo é me estabelecer bem aqui, fazer o meu trabalho, sentir que agrego valor à organização. Há também o desafio de construir a minha imagem profissional – algo que eu já tinha no Brasil dentro e fora da 3M. Quero buscar este reconhecimento externo, os contatos e conexões.

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