“Nós, mulheres, não podemos terceirizar a busca pelo prazer! Ou: por que decidi criar um clube de assinatura de produtos eróticos”

Tâmara Wink - 16 set 2022
Tâmara Wink, fundadora da Muito Prazer.
Tâmara Wink - 16 set 2022
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“Você sabe que a Muito Prazer é parte do seu processo de redescoberta, né?”.

Esta é uma frase que já ouvi algumas vezes do meu psicólogo na minha sessão de terapia. E faz todo sentido. Afinal, eu sou uma mulher que, como a maioria, cresceu cheia de tabus, preconceitos e desconhecendo a importância da sexualidade. 

Não, nunca fui carola ou supertímida. Pelo contrário, tive vários relacionamentos e sempre fui mais liberada e bem resolvida que a maioria das minhas amigas.

Mas ainda assim, não dava a devida importância ao tema e me condicionava aos modelos de subserviência e aceitação da sociedade patriarcal, o que me levou a um casamento violento e abusivo e a relacionamentos quase sem personalidade após o divórcio. 

Quando a pandemia chegou, eu tinha o que todos diziam ser uma vida plena: um relacionamento estável e duradouro, um trabalho com uma remuneração muito acima da média, uma filha saudável e bem desenvolvida, uma casa confortável e o lifestyle das redes sociais: viagens constantes, passeios recorrentes e idas frequentes a bares e restaurantes.

O que ninguém via era que eu estava em uma fase de total anorgasmia — não conseguia chegar ao orgasmo — e não tinha prazer com nada na vida. Vivia para fazer o que esperavam de mim e agradar aos outros 

Fechada em casa, retomei a terapia e iniciei o processo de me redescobrir. Lembro que, logo no início, mal sabia dizer o que eu gostava ou os motivos que me levavam a fazer minhas atividades diárias.

PRECISAMOS SAIR DO AUTOMÁTICO NA CASA, NO TRABALHO E NO ENTENDIMENTO DO NOSSO PRAZER

Com o tempo, voltei a me reconhecer, a buscar atividades que me gerassem prazer e bem-estar, a me priorizar, a estar com as amigas, a me relacionar de novas maneiras.

Voltei a olhar para o meu corpo, a me descobrir. Comprei um “Satisfyer Pro”, o hit da pandemia e, com a minha cabeça no lugar certo, consegui chegar ao ápice.

Foi aí que percebi como a gente se acostuma a levar a vida no automático — casa, trabalho, contas, relações, responsabilidades, cobranças, expectativas — e, assim como diz Marina Colasanti em um dos meus textos preferidos, como a gente não devia.

Precisamos sair do automático e buscar mais. Mesmo acreditando que eu era uma mulher independente e bem resolvida, sentia que havia algo errado neste querer mais 

A princípio, pensei que fosse uma questão minha… mas, em uma conversa com a Rafa, minha amiga e cofundadora — e depois conversando com outras amigas próximas –, percebi que não.

Esta percepção levou a Rafa e eu a criar uma pesquisa que foi respondida por mais de 150 mulheres. Queríamos saber como elas estavam se relacionando com si mesmas, como entendiam o sexo e como estava sua sexualidade.

As respostas confirmaram o que percebíamos: avançamos em direção à igualdade dos gêneros, mas esta evolução ainda não incluía a busca pelo prazer!

Mais de 70% das entrevistadas gostariam de melhorar sua relação com o sexo e a sexualidade e aumentar sua frequência de orgasmos. Todas nós queríamos mais!

O BEM-ESTAR SEXUAL FEMININO AINDA PARECE SER UM CONCEITO NOVO PARA O MERCADO E UMA OPORTUNIDADE A SER EXPLORADA

A partir destes insights surgiu o conceito da Muito Prazer, em 2021. Quando comecei a estruturá-lo e compartilhar com pessoas próximas, principalmente com homens que trabalhavam comigo ou estavam ao meu redor, ouvi frases, sempre em tom de chacota, como: “Ah, você vai vender consolos? Mandar uma caixa de vibradores?”.

Eu dava um sorriso sem graça e respirava. Sabia que estava juntando dois conceitos novos e que teria que educar o mercado.

O primeiro deles, um clube de assinatura, que apesar de bastante explorado no Brasil para livros, vinhos e cosméticos, ainda engatinha em outros segmentos. Mas que não era novo ou desconhecido para alguém que, como eu, trabalhou na meca das assinaturas, a Editora Abril.

Na prática, trata-se do envio de uma caixa mensal com um determinado número de produtos que estimula, de forma leve e em tom de presente e brincadeira, mulheres a trabalharem sua autoconfiança e investirem no autoconhecimento e na masturbação

O segundo conceito era mais complexo. E mexia com tabus e preconceitos da sociedade: o bem-estar sexual feminino. Algo que começou a ser falado em meados de 2017 e ganhou destaque em 2020 e 2021.

A junção dos dois resultou no que é hoje a empresa, um clube de assinatura de bem-estar sexual. Para quem não conhece o termo, eu diria, de modo bem objetivo, que é a conexão do nosso desejo e do nosso prazer com a nossa saúde física e mental.

Somou-se ao problema duas tendências que vivenciaremos neste pós-pandemia: a volta da libido à cena (inclusive cultural) e a sexualidade como próxima fronteira a ser desbravada no caminho do desenvolvimento pessoal

Como li recentemente, cuidar da sua sexualidade será (ou deveria ser) parte da rotina de qualquer pessoa.

MESMO QUANDO AINDA NÃO PODIA ME DEDICAR 100% À EMPRESA, ME PREOCUPEI EM FAZER TUDO DA FORMA MAIS PROFISSIONAL POSSÍVEL

Estávamos diante de um mercado promissor e iniciamos a operação, como grande parte dos negócios no Brasil, mantendo nossas carreiras em outras áreas e investindo o pouco tempo que sobrava após o expediente e os fins de semana para fazer as coisas acontecerem — e elas não acontecem do dia para a noite.

Ainda assim, cuidamos para que nada fosse informal. Desde o início, apesar dos custos maiores, da burocracia e das muitas exigências, tratamos o negócio como empresa, com sistemas, processos, estruturação, registros e alta qualidade em todas as etapas, ainda que este fosse o caminho mais tortuoso. 

Com pouco tempo, ficou claro que se quiséssemos realmente crescer e fazer o negócio ser mais do que uma caixa enviada a amigos e conhecidos — sempre os primeiros clientes –, seria necessário maior dedicação

E eu, que já não via sentido em muitas coisas na minha vida nos últimos anos, resolvi fazer mais uma mudança. Encerrei minha carreira corporativa para me dedicar 100% ao empreendedorismo e à MuitoPrazer.Club.

A Rafa, por diversas questões, não poderia fazer o mesmo movimento, então decidiu sair da sociedade.

A ADAPTAÇÃO E A SOLIDÃO FAZEM PARTE DA MINHA NOVA ROTINA, MAS VOU APRENDENDO A LIDAR COM AS ADVERSIDADES

Completo três meses de transição, convivendo com duas questões constantes.

A primeiro é a solidão, que não é ligada à quantidade de pessoas que estão na equipe, mas sim à divisão de responsabilidades.

Solidão, aliás, não é um sentimento desconhecido para mim, mãe, divorciada e praticamente única responsável pela criação da minha filha, tal qual mais de 11 milhões de mulheres no Brasil

Para aplacá-la, tenho buscado grupos e coletivos de mulheres que, assim como eu, optaram pelo empreendedorismo e estão fazendo seus negócios acontecerem. Nestes grupos, trocamos conhecimento, compartilhamos, cocriamos e nos ajudamos.

A segunda questão é a adaptação. Há muito para se fazer, para conhecer. Muito para resolver. O dia de quem empreende nunca parece suficiente e sem organização e direção é fácil se perder.

Fica perceptível que ninguém sabe tudo. A solução que encontrei foi sempre buscar quem entenda mais do que eu, e não parar de aprender, estudar, me aprofundar. 

APESAR DOS DESAFIOS, NÃO ME ARREPENDO DE ABRAÇAR A MISSÃO DE AJUDAR A TRANSFORMAR O BEM-ESTAR SEXUAL FEMININO

Tudo isso, misturado com a rotina de trabalho, torna esta nova fase muito mais desafiadora, às vezes até desconfortável, principalmente quando comparada à minha rotina anterior. E, como estou investindo, por enquanto ainda nada rentável…

E você que está lendo este artigo agora pode se perguntar: então, ainda faz sentido? Para mim, a resposta é clara. Faz todo sentido.

Quero tornar a MuitoPrazer.club um dos maiores clubes de assinatura do Brasil. Quero quebrar tabus e preconceitos, e ajudar a tornar a sexualidade algo natural, como deve ser

E, principalmente, quero transformar a vida de milhares de mulheres. Para que elas possam, assim como eu, reencontrar o prazer em suas vidas e reduzir o gap de orgasmo que ainda existe em nossa sociedade.

 

Tâmara Wink, 40, é mãe da Beatriz e fundadora da Muito Prazer. Formada em Administração, com especialização em Marketing e Planejamento, atuou por mais de 15 anos em empresas de diferentes segmentos atendendo principalmente empresas B2B.

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