“Sem renda, cheios de tristeza e dúvidas, nos reinventamos e agora levamos arte e esperança por meio de chamadas de vídeo”

Heidi Monezzi - 4 jun 2020
Com o projeto "Quando a Arte Chama", o casal Gustavo e Heidi encanta adultos e crianças.
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por Heidi Monezzi

Em março de 2020, eu estava finalizando um projeto desenvolvido pela ONG Canto Cidadão, no qual realizava apresentações teatrais em mais de trinta hospitais públicos e filantrópicos de São Paulo.

Já vinha acompanhando o panorama mundial do coronavírus, com minha irmã, em quarentena na Itália, e meu cunhado, nos Estados Unidos. Por volta da primeira semana de março, os hospitais nos sinalizaram que teríamos que pausar o projeto, ainda com algumas apresentações para finalizar.

Todos os meus trabalhos a partir dali foram cancelados

Contratos que já estavam em andamento com as bibliotecas de São Paulo para 20 apresentações foram rompidos. Meu marido, Gustavo Andersen, que é ator e psicólogo, também teve seus projetos paralisados.

Estávamos sem renda alguma, no meio desse caos no mundo, cheios de tristeza e, principalmente, com dúvidas. Como iríamos pagar nossas contas a partir de agora? Acabamos de mudar de casa.

Um dia, uma amiga me ligou pedindo para que eu contasse uma história para a sobrinha, de presente de Páscoa, e ficou durante alguns dias falando que eu deveria investir nisso.

A princípio, fui resistente por não conseguir imaginar o que para mim sempre foi muito sagrado: o olho no olho, a presença física, o compartilhar a história pessoalmente

Neste período, a sensação foi de impotência, medo, insegurança. Mas percebi que deveria me abrir para esse novo universo, já que andava pedindo em meditação uma forma de me fazer útil para o meio, de colocar minhas habilidades em prol do outro.

Nas festas juninas dos anos anteriores, junto com o meu marido, cantávamos e fazíamos serenatas, como se fosse um correio elegante, sempre compartilhando com amigos e familiares o que para nós é essencial: o amor.

Foi então que tive a primeira experiência online, narrando uma história no dia da Páscoa para a linda Alice.

A interação com a Alice foi incrível. Teve conexão interpessoal, sorriso, diversão e conteúdo. E a partir disso, eu e meu marido percebemos uma nova possibilidade se abrindo — e nos reinventamos

Antigamente, quando não existia internet, nem celular, se mandava por telefone fixo mensagens de aniversário, de amizade, carinho. Pois é, bons tempos aqueles!

E agora, diante dessa pandemia nasceu o projeto Quando a Arte Chama, uma reinvenção dessa ideia. A proposta é levar músicas, poemas e narrações de histórias para crianças e adultos, por meio de chamadas de vídeo pelo WhatsApp. Com preços acessíveis, essa é uma forma das pessoas presentearem amigos e familiares, já que não podem estar perto neste momento.

Com a ajuda da amiga Mariana Salles, criamos uma conta no Instagram Empresarial; o projeto tem pouco mais de dois meses e está fluindo cada dia melhor. Estamos muito felizes por compartilhar todo esse carinho e amor, de maneira sensível, delicada, e de ser um instrumento de boas histórias nesse momento em que o mundo está passando por tantas dificuldades.

Temos vivido muitas experiências, com diversas pessoas e suas diferentes condições de vida, e isso nos traz um sentimento muito grande de gratidão, num exercício diário de empatia

Certo dia ligamos para uma mulher que estava em trabalho de parto e sua amiga quis lhe dar esse presente durante esse momento tão especial. Sentada em uma bola de pilates, ela chorava de alegria, emoção. Quando vinham as contrações, ela respirava fundo, fechava os olhos e o marido sorria para nós. Foi muito especial participar de um momento tão lindo como esse!

No Dia das Mães, atendemos diversos pedidos. E quantas avós e mães estavam em isolamento, repletas de saudades! Algumas apenas choravam e não conseguiam nem falar depois da música. Após a experiência, nos escreviam agradecendo, falando que pudemos acalmar o coração e que se sentiram mais próximas das pessoas que amam.

Uma das mães recebeu do filho uma história que ele mesmo escreveu, relatando trechos da própria vida, com direito a um episódio sobre um carrinho que ele desejava. Durante a contação, sua mãe o abraçou e lhe disse: “Você gostou tanto daquele brinquedo. Se eu pudesse, teria comprado, mas no momento eu só posso te oferecer meu amor e meu carinho”.

Eles se abraçaram e essa foi a melhor lição que esse menininho recebeu: a importância do ser acima do ter. Choramos juntas, tornando aquele momento marcado em nossos corações. Quanto temos aprendido e vivenciado!

Já ligamos para vários profissionais da saúde. Uma dessas ligações foi para uma enfermeira na linha de frente do combate ao vírus, que se sentia triste por estar longe de seus filhos e marido. Cantamos “Paciência”, do Lenine, e ela ficou muito emocionada

Indicamos uma rede de apoio psicológico gratuito para profissionais de saúde e, no dia seguinte, ela já começou o acompanhamento. A amiga, que tinha dado nossa apresentação de presente, nos escreveu agradecendo muito.

Esse trabalho tem nos conectado com pessoas diversas, desconhecidas, com quem muitas vezes sentimos um elo criado naquele momento, uma conexão, como se nos conhecêssemos há anos.

Não vemos esse negócio apenas como nossa atual fonte de renda, mas como a maneira que encontramos de sermos úteis para o meio, conectados ao nosso propósito de levar esperança e fé através da arte. Pois a arte resiste!

Estamos todos no mesmo barco, sensíveis, à flor da pele, e esperamos que possamos sair dessa pandemia com melhores pensamentos e ações, para construirmos, de fato, um mundo mais igualitário para todos, onde o ser seja mais importante do que o ter! Sejamos!

 

Heidi Monezzi é atriz, cantora e narradora de histórias. Formada em teatro pela UNICAMP e pós-graduada  em “A Arte de Contar Histórias – Abordagens poética, literária e performática” pela FACON. Foi atriz pesquisadora em diversos projetos de teatro. Como narradora de histórias, atua em escolas, bibliotecas, Sescs e Festivais. 

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