Nunca é tarde para descobrir o que você não quer mais fazer com a sua vida

Marina Mártims - 7 nov 2014 Marina Mártims, que mergulhou atrás de si mesma, num processo de autoconhecimento, e descobriu uma nova carreira
Marina Mártims, que mergulhou atrás de si mesma, num processo de autoconhecimento, e acabou descobrindo uma nova carreira
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Por Marina Mártims

Era fevereiro de 2013. A emissora em que eu trabalhava, havia um ano, como diretora de um programa de moda, precisou fazer ajustes e eu rodei no famoso facão que assombra várias empresas depois do balanço de fim de ano. Perdi um emprego estável, com benefícios, status e me vi ali, aos 36 anos, mãe, divorciada, jornalista, tendo que mais uma vez procurar um emprego que atendesse às minhas necessidades.

Recebi uma proposta muito interessante para trabalhar no marketing de uma grande empresa, que naquele momento mexeu muito com meu ego. Mais uma vez vesti minha fantasia de Mulher Maravilha, determinada a me sair bem na entrevista de contratação.

No meio da conversa, lá estava eu, toda segura, e me mandaram uma pergunta que me fez tremer na base:

“Marina, o que faz seu coração bater mais forte? O que te move?”

Óbvio que disfarcei e dei uma resposta pronta, mas logo veio aquela voz interna, que falou baixinho no meu ouvido: “Hummm, mentindo, hein?”

Aquela pergunta, e aquela minha resposta pré-fabricada, juntas, representaram um tabefe na minha cara – e um belo choque de realidade.

O emprego não rolou. A vaga foi preenchida por outra pessoa e escutei o primeiro e maravilhoso “não” que mexeu completamente com minhas crenças e meus valores. Percebi que era infeliz e não sabia. E que muitas coisas que antes eram partes inquestionáveis da minha vida, agora não faziam mais sentido.

Sempre trabalhei nos lugares que escolhi e quis, tudo muito cool – morei em Londres, entrevistei as bandas que curtia, trabalhei com moda, casei, tive um filho, descasei. Então comecei a perceber que estava sempre correndo atrás de algo que me preenchesse, mas que nunca me satisfazia.

Olhava para meu filho, à época com 5 anos, e me perguntava: “O que tenho para deixar a esse ser humano?”

Percebi que era infeliz e não sabia. E que muitas coisas que antes eram partes inquestionáveis da minha vida, agora não faziam mais sentido. O que estava acontecendo comigo? Por que não conseguia mais ser feliz conquistando aquilo que sempre almejei nem fazendo aquilo que sempre fiz bem?

Outras oportunidades apareceram, mas aquela questão sempre se apresentava, sem ser convidada – “o que te move?” Passei em uma seleção, fui trabalhar numa empresa de brand content – e pedi demissão no mesmo dia!

O que estava acontecendo comigo? Por que não conseguia mais ser feliz conquistando aquilo que sempre almejei nem fazendo aquilo que sempre fiz bem?

Sentia que estava atravessando um deserto – durante essa peregrinação, meu filho sempre foi o meu Norte. Paralelamente a isso, comecei a cuidar melhor da minha saúde, que sempre foi boa, dentro dos padrões. Mas comecei a investir mais nisso, com uma alimentação mais orgânica, acupuntura e aos poucos fui mergulhando em um trabalho profundo de autoconhecimento.

Fui descobrindo coisas a meu respeito que estavam muito adormecidas ou então sobrepostas por conceitos e preconceitos que vamos empilhando em cima de nós mesmos e que vêm de pessoas, família, amigos, sociedade, TV, publicidade… Até que, em algum momento, você encontra um “euzinho” lá no fundo, escondidinho, soterrado, louco para dar um “oi”.

Tinha vontade de fazer algo que pudesse gerar um legado, que eu pudesse deixar como uma herança a meu filho. Queria contribuir para que as pessoas se sentissem melhores e menos aflitas dentro desta sociedade nem sempre saudável em que vivemos. Eu tinha passado, e estava passando, por esse processo de revisão de metas e de estilo de vida. E achava que essa experiência poderia ser compartilhada com outras pessoas.

Na paralela, descobri um senso de maternidade aflorando, o que me deixava com vontade de colocar as pessoas no colo e de lhes oferecer um pouco de carinho e de conforto.

Fui descobrindo coisas a meu respeito que estavam muito adormecidas ou então sobrepostas por conceitos e preconceitos que vamos empilhando em cima de nós mesmos vida afora. Até que, em algum momento, você encontra um ‘euzinho’ lá no fundo, escondidinho, soterrado, louco para dar um ‘oi’.”

Aos poucos, essas percepções começaram a fazer sentido. Comecei a aceitar que, talvez, minha essência, minha natureza e meu propósito pudessem estar longe do jornalismo – e que minha carreira poderia tomar outro caminho e ganhar outro sentido, tão digno e bacana quanto ser diretora de um programa de TV ou uma editora de conteúdo de marca no mundo corporativo.

Aceitei que, apesar da segurança que uma grande empresa pudesse me dar, minha personalidade não estava mais cabendo naquele molde. Nós, seres humanos, sofremos diversas mudanças com o decorrer do tempo e da maturidade, por diversos fatores. E é preciso aceitá-las.

Despertei um faro novo para as minhas qualidades e pude ver que existem outros formatos de atuação profissional. A famosa luz no fim do túnel de repente surgiu. Um dia, voltando para a casa, no meio do trânsito, tive um insight: me vi dando aulas de yoga para crianças – e meu filho fazia parte da turma!

Encostei o carro e comecei a pesquisar ali mesmo, no celular, cursos de formação para professores de yoga. Eu tremia de felicidade, pois vi que era possível dar aquela virada em minha vida. Só dependia de mim.

Comecei a desbravar esse universo novo e fui atrás de um bom curso, uma boa escola e um bom professor para começar a minha nova formação, o meu novo caminho e essa nova etapa em minha viagem de autoconhecimento.

Cada novo dia é uma possibilidade para novas descobertas e aprendizados, que me mostrem novos caminhos e me deem ferramentas novas para a construção dessa nova Marina.

Junto com a yoga, outros sentidos despertaram e surgiram novas possibilidades de aprimoramento e desenvolvimento profissional, como a aromaterapia e seu mundo dos óleos essenciais, e a yoga massagem ayurvédica, uma técnica de que funde os alongamentos e trações da yoga, com a massagem e a ayurveda, uma das ciências mais antigas que existem.

Cada vez mais, sinto que pertenço a esse universo e vou me apropriando desse sistema que, por consequência, também vai se oferecendo a mim. Ainda estou no primeiro degrau dessa longa escalada, pois a yoga é um caminho infinito. Estou tranquila, completa e realizada como há muito eu não sentia – conquistando dia após dia a condição de viver em harmonia com meu dharma. E isso tem muito valor.

Marina Mártims, 37, é Yogini, e vive dos valores éticos do yoga (yamas e nyamas), principalmente fora da sala de aula. Deixou o jornalismo e passou a atuar como terapeuta corporal de Yoga Massagem Ayurvédica.

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