Não sabe mais o que cozinhar? O Garimpos oferece cestas temáticas que põem a cultura alimentar brasileira no seu prato

Dani Rosolen - 21 set 2020
Rachel (de preto) e Deborah durante a produção da primeira cesta do Garimpos.
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Antes de dar a primeira garfada, responda: você sabe qual é a história por trás dos alimentos que estão no seu prato? O Sacola Brasileira pode ajudar nessa questão, apresentando dados sobre a origem, o modo de fazer e a regionalidade dos ingredientes nacionais.

Criado como um blog pela jornalista Rachel Bonino, o projeto evoluiu e se tornou um negócio, o Garimpos, uma curadoria de produtos brasileiros enviados para a casa do cliente com informações detalhadas que saciam a curiosidade sobre a cultura alimentar de cada item.

Até agora, foram seis edições de cestas (ou “seleções”): Mata Atlântica, Especial Milho, Doces de Leite, Goiabada com Queijo, Chocolates Brasileiros e Cafés Especiais, com valores entre 115 e 295 reais.

A proposta é que o consumidor saboreie não apenas o produto, mas informações sobre todo o processo envolvido para que aquele ingrediente chegue à sua mesa.

A PÓS E A COBERTURA GASTRONÔMICA SERVIRAM DE BASE PARA CRIAR O BLOG

Rachel nunca escreveu exclusivamente para veículos gastronômicos, mas sempre frilou e se interessou por essa área. Em 2013, ela se inscreveu numa pós-graduação do Senac chamada “Gastronomia: história e cultura”. Ela relembra:

“Durante o curso, tive contato com pensadores e autores da cultura alimentar brasileira e comecei a perceber que existiam poucos registros e conhecimento sobre o modo de produção dos alimentos. Isso falando do ponto de vista de uma pessoa que mora em um centro urbano e teve contatos esporádicos com o meio rural”

Foi a partir dessa percepção que Rachel decidiu criar o blog Sacola Brasileira, como um espaço para mostrar os bastidores, registros históricos e relatos orais, além de todo o contexto socioeconômico por trás de ingredientes nacionais.

NÃO PRECISA IR LONGE PARA ENCONTRAR INGREDIENTES DESCONHECIDOS

Para começar a gerar conteúdo no blog, a jornalista aproveitou suas férias de 2013 e foi para Belém. “Escolhi essa cidade justamente por ser um choque para quem está no Sudeste do país.”

Lá, ela descobriu, por exemplo, o turu, um tipo de molusco que vive em manguezais da região amazônica e é consumido em formato de sopa. Já ouviu falar?

Outra viagem de Rachel em busca de material para o blog foi para Minas Gerais, onde conheceu produções de queijos feitos do leite cru.

Com o tempo, ela entendeu que não era precisava partir para centros muito afastados para encontrar elementos desconhecidos.

“Existem ingredientes utilizados aqui em São Paulo que muito paulistano nunca provou, como as içás — saúvas com asa que, em outubro, saem do formigueiro para acasalar. Durante essa revoada, existe o costume de caçar esses insetos na região da Serra Mantiqueira e depois comer, tostadinho, o abdome dessas formigas”

Ao mesmo tempo em que nutria o blog, a jornalista aproveitava para produzir material para frilas, entre eles uma coluna na extinta revista Menu batizada com o mesmo nome do seu projeto.

A CURIOSIDADE DOS LEITORES FEZ ELA PENSAR EM UMA FORMA DE EMPREENDER

Em todas as reportagens que realizava para o blog ou para outros veículos relatando a cultura alimentar brasileira, Rachel recebia mensagens dos leitores perguntando onde comprar determinado alimento do qual havia falado.

Ela sempre passou os contatos dos produtores; afinal, entendia que era complexo indicar um sabor apenas com uma descrição. O ideal seria que os leitores provassem aqueles ingredientes.

“Em vários momentos na produção dos posts do Sacola, me sentia como esses viajantes estrangeiros do período colonial tentando descrever alguns sabores”

Foi a partir dessa demanda do público que ela teve a ideia de oferecer uma experiência completa e criou, no começo de 2020, o Garimpos.

SEM PRETENSÕES DE SER UM E-COMMERCE OU UM CLUBE DE ASSINATURAS

A ideia de oferecer seleções de ingredientes e todo o contexto que envolve a produção pareceu uma boa alternativa para começar um negócio. Mas Rachel não queria que o Garimpos fosse uma loja virtual.

“Sempre me incomodei com esses e-commerces que se dispõem a vender produtos nacionais, porque não existe nenhuma ação que ajude as pessoas a entender de onde partiu aquele ingrediente e por que a gente consome esse produto até hoje”

Junto com a irmã, Deborah, hoje responsável pela parte comercial do negócio, ela pensou em uma maneira de integrar o Garimpos ao Sacola Brasileira, investindo 10 mil reais na reformulação do site e na criação da marca.

Enquanto o Garimpos serviria para divulgar as seleções de produtos criadas mensalmente pela dupla, o Sacola ofereceria informações complementares sobre os ingredientes enviados. Rachel comenta:

“Preferimos falar seleção do que cesta para que as pessoas não confundam nosso produto com uma cesta de café da manhã, por exemplo. O que vendemos é uma seleção de produtos regionais, agrupados dentro de uma determinada temática e que podem ou não estar associada a uma dada comercial.”

A cada mês, o Garimpos lança uma cesta com edição limitada, cerca de 20 unidades. Ou seja, as irmãs não fazem estoque, mas podem produzir seleções passadas com o pedido mínimo de cinco unidades.

Sobre os compradores, elas não trabalham em esquema de assinatura, mas Rachel afirma que já há um público cativo do negócio que compra as cestas para si ou para presentear.

UM PRATO CHEIO PARA AMANTES DA CULINÁRIA SACIAREM A FOME POR INFORMAÇÕES

A primeira seleção do Garimpos foi lançada em março, batizada de Mata Atlântica.

A primeira cesta do Garimpos foi uma seleção de produtos relacionados à Mata Atlântica.

Junto com uma cartinha detalhando item por item, o comprador recebia uma garrafa da cachaça Maria Izabel envelhecida em barril de jequitibá, de Paraty (RJ), um pote da manteiga com botarga do Projeto A.Mar, de Ilhabela (SP), e um saco de beiju de tapioca da Pão de Festa, de Salvador.

Também faziam parte da cesta: potes de geleias de cambuci, araçá ou uvaia, do Sítio do Bello, de Paraibuna (SP), balas de cajá-manga, também do Sítio do Bello, e um pão de fermentação natural do Fatia Pães Artesanais, também de Paraibuna.

Além disso, o cliente recebia dois mimos “não-comestíveis”, mas relacionados à temática da Mata Atlântica: o livro Bromélias da Mata Atlântica, de Marcos Piffer, e um bordado feito pelas artesãs da Associação de Mulheres Artesãs de Guapiara – Arte e Vida, de Guapiara (SP).

Apesar da boa recepção, as sócias foram surpreendidas pela pandemia no meio da estreia do Garimpos — e precisaram repensar como seguir atuando.

NA QUARENTENA, LIVES AJUDAM A CONECTAR CONSUMIDORES E PRODUTORES

Todos os produtos da primeira seleção do Garimpos se basearam em pesquisas e visitas a locais de produção realizadas por Rachel antes da pandemia.

Com a quarentena e a impossibilidade de viajar para garimpar novas descobertas, a jornalista optou por conectar o público com os ingredientes das novas cestas através de lives temáticas com produtores e especialistas.

“Quando a gente puder voltar a viajar, a intenção é fazer um conteúdo conhecendo cada uma dessas produções in loco para as pessoas visualizarem isso, como se fossem levadas a esses lugares”, afirma a jornalista.

Ao todo o Garimpo já realizou 24 lives nesse período, sempre ao meio-dia — o horário de almoço funciona como gatilho para despertar a fome (e o interesse pelo assunto).

“A nossa seleção de maio, pensada como um presente para o Dia das Mães, foi de doces de leite. A gente aproveitou esse período de isolamento em que muitas pessoas estão em casa, cozinhando pela primeira vez, para mostrar em uma live o tempo dessa produção, qual o ponto, a proporção de açúcar etc.”

Também houve lives sobre a seleção de junho, desenvolvida para o Dia dos Namorados.

“Nesta cesta, trouxemos um ‘casamento consolidado’: a cesta de Goiabada com Queijo. Fomos resgatar a parte histórica dessa combinação com o historiador José Newton, que falou sobre a doçaria tradicional brasileira no tacho e o uso do queijo como forma de conservação dos alimentos”

Rachel conta que elas também com o produtor da goiabada Zélia, presente na seleção, e com a historiadora Tânia Mara Sasse, co-autora do dossiê que regularizou o registro de patrimônio imaterial da goiabada cascão de Ponte Nova (MG) e região”.

ALIMENTOS CONSIDERADOS “ORDINÁRIOS” ESTÃO NO RADAR DO GARIMPOS

Uma das missões do Garimpos (e da Sacola Brasileira), explica a jornalista, é dar visibilidade para alimentos que muitas vezes não têm seu valor reconhecido:

A cesta Especial Milho foi lançada pelo Garimpos em julho.

“O milho é um produto fundamental, está na base de nossa alimentação do Norte ao Sul do país. Mas sempre foi visto como um ingrediente que não merece citação.”

Para mudar essa percepção, em julho, foi lançada a cesta Especial Milho, com direito a uma série de lives. Rachel cita algumas:

“Conversamos com a historiadora Flaviane Malaquias Costa, pesquisadora de variedades de raças de milho, com o responsável por um projeto de Minas Gerais que começou a produzir milho de pipoca preto, e com Angelita Gonzaga, do Restaurante Arimbá, sobre o modo de fazer do pastel de angu.”

O CORONAVÍRUS MUDOU A MENTALIDADE DE CONSUMIDORES E PRODUTORES

Para Rachel, houve uma tendência durante o isolamento de os consumidores se aproximarem dos pequenos produtores, buscando saber de quem consumiam e como poderiam impactar positivamente a vida daquelas famílias num momento em que tantos negócios estão quebrando.

“Muitos produtores também tiveram que se adaptar. Alguns nunca tinham feito lives e toparam participar porque entenderam que precisavam estar mais perto do consumidor final e não apenas dos empórios e restaurantes”

Durante a quarentena, a empreendedora de primeira viagem também enfrentou perrengues para montar as cestas devido à logística do envio dos itens pelos produtores de diversas partes do Brasil.

Para piorar, no meio de tudo isso, rolou a greve dos Correios.

“A gente tem orgulho de conseguir sustentar um projeto nessas condições. Na primeira cesta, eu e a Deborah conseguimos nos encontrar para fazer a pesquisa, a seleção, o contato com os produtores, a produção das fotos… Depois, a comunicação foi toda por chamadas de vídeo.”

O UNIVERSO CORPORATIVO ESTÁ NA MIRA DO GARIMPOS

Rachel e Deborah têm o objetivo de ampliar o Garimpos. Além da venda para pessoas físicas de 81 cestas nesses seis meses de operação, elas conseguiram firmar um contrato com uma empresa que encomendou 18 cestas personalizadas para presentear parceiros.

“Estamos olhando com muita atenção para essa área corporativa, de empresas atentas a esse momento de valorização dos produtos artesanais e dos produtores locais.”

Apesar da intenção de focar nesse nicho maior, a meta das irmãs não é ser um negócio grande. Rachel afirma:

“Trabalhamos com pequenos produtores e também somos um pequeno produtor de conteúdo. Não temos essa pretensão de ser um negócio enorme. Gostamos de trabalhar no campo da pessoalidade, de nos envolvermos na produção”

Para setembro, o Garimpos deu uma pausa no lançamento das cestas, com o intuito de se dedicar a uma concorrência corporativa. Mas Rachel garante que já está estudando todos os detalhes dos ingredientes que serão enviados em outubro para saciar o apetite — e a curiosidade — dos consumidores:

“Acho que fica mais saboroso consumir esses produtos que a gente seleciona quando você sabe de todo esse trabalho do produtor… Entendendo a vida dele, os desafios e as limitações de cada produção.”

 

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DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Sacola Brasileira e Garimpos
  • O que faz: Cestas de ingredientes brasileiros com informações sobre a cultura alimentar de cada item
  • Sócio(s): Rachel e Deborah Bonino
  • Funcionários: 2 (apenas as sócias)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2020
  • Investimento inicial: R$ 10 mil
  • Contato: [email protected]
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