Montar tabela de campeonato dá trabalho. O iFut é uma plataforma digital para organizar torneios de futebol amador

João Prata - 9 mar 2020 O time do iFut, incluindo os sócios (no centro), André (na ponta-esquerda, agachado) e Matheus (de camisa polo, à direita).
O time do iFut, incluindo os sócios (no centro), André (na ponta-esquerda, agachado) e Matheus (de camisa polo, à direita).
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O iFut nasceu a partir de um negócio furado, do passo adiante depois de cair na real que não basta só ter uma boa ideia e um dinheirinho guardado para tirá-la do papel.

Os sócios Hugo Monteiro, 31 anos, e André Miguez, 25, cresceram juntos em Brasília. Apaixonados por futebol, resolveram empreender em 2014, criando uma rede social para fãs do esporte. Torraram 28 mil reais num negócio que não vingou. Hugo lembra:

“Quando o produto inicial deu errado e a gente percebeu que ninguém ia usar, começamos a ‘jogar tudo fora’. Não tinha apelo. Percebemos que não estávamos tentando atender a uma necessidade de mercado”

A dupla incorreu num erro fatal: lançar algo apenas por ser bacana, sem que haja de fato demanda. Eles levaram um ano e quatro meses para perceber que uma atividade paralela — um trabalho-tampão, que eles faziam de forma amadora, a fim de cobrir os rombos orçamentários — era na verdade o diamante a ser lapidado.

UM SÓCIO RALOU DE GARÇOM, O OUTRO TENTOU CARREIRA NO FUTEBOL

Formado em publicidade, Hugo trabalhava em agência, mas se sentia sufocado. “Em Brasília, a maioria das grandes agências trabalha para órgãos governamentais. Engordei muito na época… Não conseguia viver.”

Em 2012, ele mandou para o espaço a carreira em agência e foi morar um tempo em Sydney, na Austrália, para abrir a cabeça.

“Parecia que minha vida toda eu tinha trilhado um caminho para levar a vida de funcionário. Escola, faculdade, estágio… Lá fora, tinha autonomia e vi caminhos que nunca me liguei. Trabalhei de garçom, não sabia falar inglês na época, foi o que consegui”

Ele diz que sente saudade desse tempo. E voltou ao Brasil decidido a não trabalhar mais para ninguém.

André, por sua vez, chegou a jogar como lateral-esquerdo pelo Goiás, em 2007, e nas categorias de base do futebol espanhol e italiano, no ano seguinte. Quando viu que não era nenhum Neymar, resolveu fazer curso de Administração.

QUANDO A PRIMEIRA IDEIA NÃO DEU CERTO, ELES COMEÇARAM A ESTUDAR

Quando se juntaram para empreender, em 2014, cada um colocou 14 mil reais no negócio. A ideia era criar uma rede social do futebol, uma plataforma onde pretendia reunir pessoas interessadas em bater uma bola com campos disponíveis. O participante poderia reservar o campo online, convidar gente para jogar…

Um ano e quatro meses depois, porém, ninguém tinha se interessado. Pelo retrovisor, Hugo revê a inexperiência da dupla:

“Nessa época, a gente ainda não sabia o que era startup, não sabia como estruturar empresa… Olhando agora, vemos como fomos bem amadores. Terceirizamos a parte de tecnologia em São Paulo, por exemplo, e gastamos toda nossa reserva… E quando [o produto] ficou pronto, o apelo foi fraco”

O choque de realidade fez os dois partirem para o estudo. Passaram a ler Steve Blank, pesquisavam sobre o Vale do Silício, fizeram o curso online Startup School, da Y Combinator

O TRABALHO-TAMPÃO DE MONTAR TABELAS VIROU O FOCO PRINCIPAL

Paralelamente, precisavam se virar para ganhar dinheiro e pagar as dívidas acumuladas com o aplicativo da rede social que não deu certo. A forma que encontraram foi produzir tabelas para campeonatos amadores — até então de forma bem simplezinha, no Excel mesmo.

“Ganhávamos pouca coisa. Era mil reais em um [cliente], 300 de outro…”, diz Hugo. “Tinha um que se fosse ver o que gastamos de gasolina dava até prejuízo”

Era um trabalho de formiguinha. Eles iam em escolinhas de futebol e campinhos de pelada para oferecer o serviço.

“A gente conversava com os organizadores [dos torneios amadores] e todos reclamavam do trabalho que era montar uma tabela, receber as inscrições, passar os dados, horários…”

Aquela interação acabou se tornando a pesquisa de mercado que fez a dupla entender que os torneios em geral eram muito mal organizados. Daí veio o estalo de empreender nessa área.

Sem reserva financeira, a solução para criar a plataforma foi chamar um sócio para assumir a parte de tecnologia. Engenheiro de software indicado por amigos em comum, Matheus Godinho topou se arriscar sem receber nada para isso.

A plataforma começou a ser desenvolvida em maio de 2018. Quatro meses depois, estava pronta. “Para esse novo produto a gente só gastou tempo e gasolina”, diz Hugo. “Não teve investimento.”

OS PLANOS PAGOS INCLUEM GAMIFICAÇÃO, NO ESTILO CARTOLA FC

A ideia do iFut é simples. Numa página na internet o organizador do torneio faz o cadastro e lá encontra um painel para criar jogos, mandar link de inscrição online — enfim, toda gestão de resultado. Dependendo do plano, os atletas poderão acompanhar tudo por aplicativo.

O plano básico é gratuito e oferece apenas tabela. Outro custa 99 reais pelo campeonato (não importa a duração) e disponibiliza uma página online para o torneio, súmulas digitalizadas, aplicativo para jogadores e torcedores, perfil de cada atleta, página de gerenciamento de time, estatística das equipes e um tipo de gamificação da competição — algo como o Cartola FC, em que os atletas somam pontos com base em suas estatísticas em campo.

Leia também: A Filma Eu eterniza os seus melhores momentos de “craque de fim de semana” ao toque de um botão (e quem paga é o dono da quadra)

Um terceiro plano custa R$ 19,90 por time inscrito. Além dos serviços anteriores, inclui a possibilidade de personalizar a página online, gerar feed de notícias, subir vídeos e fotos, e incluir banner dos patrocinadores.

Por fim, há um plano de valor negociável (gira em torno de 8 mil reais por ano). É um white label: a página passa a ter apenas o nome do campeonato. O organizador fica com aplicativo próprio do seu torneio, sem menção à marca iFut.

ACELERADA POR 3 MESES, A EMPRESA CONQUISTOU PATROCÍNIO DA PENALTY

Em 2019, a plataforma ajudou na organização de 1 970 campeonatos em todos estados do Brasil.

Entre os clientes estão escolinhas de futebol — de clubes como Santos, Ponte Preta, Boca Juniors e Paris Saint-Germain (o time argentino mantém escolinhas em São Paulo, Santos e Curitiba; o francês, na capital paulista, Rio, Fortaleza e Recife) — a competições como a Taça das Favelas Brasília e Torneio da Federação Goiana de Society.

O faturamento do iFut em 2019 foi de 116 mil reais. Em setembro do ano passado, a Cotidiano Aceleradora de Startups investiu 100 mil reais no projeto, sendo que 25 mil reais retornam para a aceleradora como pagamento pelos três meses de aceleração.

Agora, a empresa está com round aberto para investimento. Os sócios já receberam 750 mil reais de investidores-anjo, com a expectativa de crescer dez vezes em 18 meses.

“Queremos faturar um milhão de reais por ano e rodar quase dois milhões de atletas na plataforma”

Recentemente, a startup conquistou o patrocínio da Penalty. A marca esportiva não tem porcentagem do iFut. “A gente oferece maior engajamento com o público deles, organizadores de torneios, técnicos, atletas de ambos sexos e todas as idades, além de torcedores”, diz Hugo.

Os 18 meses seguintes à rodada de investimento serão dedicados a expandir, e ganhar de vez o Brasil. “No próximo round vamos trazer dinheiro para crescimento exponencial em toda a América.”

 

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DRAFT CARD

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  • Projeto: iFut
  • O que faz: Plataforma que gerencia campeonatos de futebol amador
  • Sócio(s): Hugo Monteiro, André Miguez e Matheus Godinho
  • Funcionários: 9 funcionários (incluindo os sócios)
  • Sede: Brasília
  • Início das atividades: 2015
  • Investimento inicial: R$ 28 mil
  • Faturamento: R$ 116 mil (2019)
  • Contato: [email protected]
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