“O jogo é infinito. E as porradas são transformadoras. Hoje agradeço por todos os tombos. Eles me ensinaram a caminhar”

Re Cruz - 25 set 2020
A chef Re Cruz, fundadora do Foodness, uma plataforma de conteúdos de gestão para negócios de gastronomia.
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Trabalho desde os 14 anos. Algo sobre ter o meu dinheiro e fazer minhas escolhas sempre me encantou.

Comecei trabalhando com recreação infantil e iniciação esportiva para crianças. Dedicava as férias escolares a trabalhos em hotéis e festinhas, fazendo gincanas.

Na faculdade de hotelaria, me apaixonei pela cozinha. Aos 19, estava de volta ao Colégio Elvira Brandão, na Zona Sul de São Paulo, onde me formei, para assumir o restaurante que alimentava os pequenos no intervalo (e, em breve, os alunos do então recém-inaugurado período integral).

Foi uma jornada intensa, que durou seis anos. No meio desse caminho, abri uma filial do buffet na Faculdade Santa Marcelina e completei outra formação, em gastronomia.

Durante as aulas, tive a oportunidade assistir Philippe Gobet, na época diretor da École Lenôtre. Minha dedicação e a generosidade de Philippe me renderam um convite para passar uns meses em Paris, estudando na escola francesa.

Em 2009, voltei ao Brasil e abri o Amici. Funcionávamos como restaurante no almoço e, à noite, com buffet em eventos externos ou no nosso espaço. Já no primeiro ano, recebemos prêmios de revistas, convite para assinar o menu de uma grande companhia aérea — e também uma lição:

Reconhecimento e foto em revista não substituem ou amenizam a falta de um bom planejamento estratégico e financeiro

A primeira locação foi num bairro menos agitado; mesmo com os clientes felizes e divulgações na mídia, o número de refeições servidas era insuficiente para pagar as contas.

MESMO FATURANDO ALTO, NO FIM DO ANO ME VI FECHANDO NO NEGATIVO

Desistir nunca foi uma opção, então troquei de endereço: um bom acerto. O movimento na hora do almoço era mais expressivo e o buffet começou a ter uma demanda crescente.

O boca a boca, as recomendações e boas entregas impulsionaram o negócio; em 2013, tocar as duas operações já tinha ficado complicado.

Optei então por encerrar as atividades do restaurante e dedicar todas as energias ao buffet.

Crescemos muito. O espaço não acomodava mais, então nos mudamos. Grande aporte financeiro, empréstimo em banco e pouco tempo para dedicar à gestão, uma vez que a demanda de trabalho crescia cada vez mais e estar à frente da criação, equipe, operação e entrega sempre foi o meu negócio.

Foi então que, em dezembro de 2015, veio a notícia inesperada. Vendemos muito, quase chegamos aos 10 milhões de reais em faturamento, mas mesmo assim fechamos no negativo

Essas palavras ecoavam na minha cabeça no modo repeat e me lembro de acordar, sentar na cama e desenhar o dia: entregar tudo o que está vendido com excelência e trabalhar em dobro, cuidar da equipe.

EMPREENDER É UM ESPORTE COLETIVO (E DEMANDA COMUNIÇÃO PARA NÃO IR À LONA)

Nessa fase, eu não parar nem para respirar. “Respirar” significava quebrar, a empresa e a mim mesma. Foi muito difícil aceitar essa realidade.

Então, dobrei a quantidade de horas de trabalho, ainda evitando “respirar” — mas dedicada a entender onde as coisas haviam se perdido.

Passei a dividir o tempo entre a parte operacional e as planilhas, as quais tinha negligenciado nos últimos anos.

Eu tinha sócios e acreditava que cada um deveria fazer a sua parte. Só me esqueci que empreender é um esporte coletivo — e a falta de comunicação poderia me levar à beira de uma derrota muito dolorida

Ao mergulhar nesse outro universo, entendi que precisava de ferramentas de gestão e entender a matemática tão complicada da administração de um negócio com estoque perecível. Encarar meus erros e negligências foi a minha maior faculdade, mas também meu maior aprendizado.

UMA VERDADE MARTELAVA A CABEÇA: GESTÃO É QUASE TABU NO SEGMENTO DE COMIDA

Hoje, acredito na beleza de se entender vulnerável e no poder que isso traz de transformação.

Na época, porém, eu seguia focada em não respirar.

Agradeci por ter sempre construído bons relacionamentos. Tive muita ajuda e cooperação, gente que me pegou na mão, me ensinou o que já havia aprendido a duras penas e dividiu uma verdade que martelava em minha cabeça: não falamos de gestão no nosso segmento.

Em 2016, peguei um caderno em branco e comecei a rabiscar ideias soltas, que quatro anos depois eu chamaria de Foodness, uma plataforma de conteúdo de gestão para negócios de alimentação.

Naquela época, eram apenas ideias e muita vontade de ajudar a evitar que histórias como a minha se repetissem em outras vidas, em outras empresas.

Durante 2016 e 2017 me dediquei a mapear os erros e iluminar os acertos. Entendi a necessidade de participar de todas as áreas do negócio, nunca mais negligenciar a gestão e o mais importante: tirei um tempo para olhar para mim

Foi um processo sair do piloto automático da sobrecarga de trabalho e entender que eu precisava, sim, respirar.

Eu sempre me sobrecarreguei para evitar enxergar problemas pessoais. Respirar te faz enxergar aquele monte de coisa que você coloca embaixo do tapete.

UMA CRISE DE CHORO NO MEIO DA TARDE FOI O COMEÇO DE UM PERÍODO SOMBRIO

Hoje, é maravilhoso entender tudo isso. Mas na época foi muito profundo — e muito intenso.

Esse entendimento se somou ao estresse de contas, dívidas, responsabilidades… Além da dissolução da sociedade. E tudo isso, junto, me levou ao extremo.

No dia 8 de dezembro de 2017, meu corpo parou de responder a todo e qualquer estímulo. Uma crise de choro no meio da tarde, aparentemente sem motivo, foi o início da manifestação mais agressiva de todas as sensações que eu aglomerava dentro de mim

Eu simplesmente não era capaz de controlar o choro. Aos poucos, fui perdendo também a capacidade de controlar meus movimentos: minhas pernas, meus braços, a fala.

Tive um burnout com direito a internação e recomendações preocupadas da médica para que um psicanalista acompanhasse o meu caso e que remédios entrassem na minha rotina.

NÃO SE COLOCAR COMO REFÉM DOS ACONTECIMENTOS É VITAL (MESMO QUE DOA)

Fui contra os remédios. Por quê? Eu tinha encontrado uma certa liberdade em sentir essa dor — e usá-la a favor da tomada de decisões. Decidi por mim e por uma nova fase de vida e de trabalho.

Aprendi também a aproveitar a jornada, a não me colocar como refém dos acontecimentos, mas olhar para o cenário e dizer: “é para lá que quero ir”. Mesmo que essa escolha doa inicialmente.

Assumir que a cozinha não me completava, que eu não queria dar mais continuidade àquela empresa e àquele trabalho, só foi possível porque olhar para dentro me deu alguma coragem

Assim, no início de 2018, comecei a encerrar o Amici. Mas ainda tinha contratos a serem cumpridos até dezembro daquele ano. Desmontar a operação não seria tarefa simples. Eram mil metros quadrados de equipamentos, utensílios e histórias.

Ter a Re Cruz To Go, uma marca de comidas ultracongeladas que nascera (em 2017) a partir da demanda dos clientes, foi o que me manteve otimista e me ajudou a pagar pelos eventos já vendidos.

Mudei para Pinheiros, numa operação muito mais enxuta, com uma equipe fiel e dedicada. E assim honramos todas as entregas.

UM ANO DEPOIS DO BURNOUT, UM ACIDENTE EXIGIU SEIS MESES DE RECUPERAÇÃO

Aquele caderno em branco, de 2016, já estava todo rabiscado de novos sonhos e objetivos…

Mas havia ainda o medo de começar de novo.

Até que em dezembro eu sofri um acidente de carro. Foi no dia 18: um ano e dez dias depois do burnout.

Era um domingo; eu estava voltando do café da manhã com uma grande amiga. No caminho para deixá-la em casa, havia um cruzamento — e um motorista de aplicativo distraído.

Lembro da sensação do “vai bater!”, depois de ter apagado e só voltar na última chacoalhada do carro entre os três giros, a batida no poste e a batida no muro. Foram quatro costelas quebradas, perfuração de pulmão. Seis meses de muita morfina, uma recuperação lenta e dolorosa

Seis meses. Tempo suficiente para entender que aquele projeto precisava acontecer. E que quando a gente não entende o chamado, o universo se encarrega de mandar um “presta atenção”.

NÃO HÁ LINHA DE CHEGADA. MAS OS TOMBOS AJUDARAM A PÔR O FOODNESS DE PÉ

A sensação de urgência foi a grande virada para que eu colocasse em pé o projeto rabiscado no caderninho.

Eu queria ajudar. Queria dizer que a gente não pode negligenciar a gestão e que falar de números e compartilhar aprendizados é tão importante quanto ter um negócio reconhecido.

Queria dizer que ter o salão cheio de clientes não é sinônimo de uma casa lucrativa (mesmo que a maioria dos empresários talvez já saiba disso).

Lembro de pensar: se conseguir ajudar uma pessoa a não passar pelo que passei, minha missão está cumprida.

Assim, em julho de 2019, nasceu oficialmente o Foodness. Temos dentro dos pilares de conteúdo um podcast, onde bato papo com grandes players sobre gestão, mentorias e consultorias, além de cursos online com conteúdos para o controle dos números e dos negócios.

Empreender é muitas vezes solitário. Abrir esse canal de comunicação sobre o tema já me rendeu tantas mensagens carinhosas e emocionadas que hoje eu penso que encontrei um caminho muito feliz

Hoje, uso a minha história, meus aprendizados e minhas dores para ajudar empresas e gestores a não passarem pelo que eu passei.

E era disso que eu sentia falta: fazer parte de algo maior, que me fizesse acordar com prazer e a certeza de que não existe linha de chegada.

O jogo é infinito; as porradas são transformadoras. E hoje eu agradeço por todas as que tomei.

 

Re Cruz é chef de cozinha, empresária e fundadora do Foodness, plataforma dedicada a conteúdos e cursos de gestão para negócios de gastronomia. É formada nos cursos de Hotelaria e Gastronomia pelo SENAC, com especialização na École Lenôtre, em Paris. 

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