Do spray à lixa, do xampu ao esmalte, o NaBahia é um salão de beleza onde cada resíduo ganha o destino certo

Maisa Infante - 2 out 2019
Da esq. à dir.: Rafaella Crepaldi, Lenir Bragantin e Ruchelle Crepaldi são as sócias do salão Na Bahia, que fez uma transformação sustentável e quer a certificação Lixo Zero.
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Zero glamour. Assim foi o recomeço da cabeleireira Lenir Bragantin, hoje com 62 anos. Há 15, mesmo sem dinheiro e com uma dívida de R$ 20 mil no banco, ela deixou o emprego de duas décadas como cabeleireira na rede Studio W, em São Paulo, para realizar o antigo sonho do salão próprio. Enquanto reformava o imóvel em Higienópolis, se virava atendendo os clientes em seu apartamento. “O que eu ganhava em um dia, usava para pagar a obra no dia seguinte”, diz.

Lenir levou para o novo empreendimento sua experiência com a tesoura e um bom número de clientes, algumas das quais estão com ela até hoje. Nesses 15 anos, viu seu salão — o NaBahia — crescer e incorporar seis funcionários fixos e 50 colaboradores, além de duas sócias: as filhas Rafaella Crepaldi, 32, e Ruchelle Crepaldi, 33, que assumiu a administração há cinco anos.

É Ruchelle quem lidera um projeto que vem revolucionando a forma como o NaBahia encara a sustentabilidade. Em busca da certificação de Lixo Zero (que estabelece uma destinação máxima de 10% do lixo a aterros sanitários), o salão já vive o conceito na prática: apenas os resíduos dos banheiros seguem sendo recolhidos pelo serviço de coleta urbana. Todo o resto é reaproveitado.

UMA PRIMEIRA CONVERSA COM CATADORES SENSIBILIZOU OS FUNCIONÁRIOS 

Ruchelle via a importância da empresa estar alinhada a um mundo que precisa ser mais sustentável. Em meados de 2016, convidou a Cooperativa do Glicério para conversar com os 50 profissionais que colaboram com o salão e mostrar que lixo é dinheiro e renda para muitas famílias. “Foi quando virou a chave e começamos os processos de separação”, conta.

Não demorou para perceber que simplesmente separar os resíduos recicláveis era muito pouco para um salão de beleza. Nesse tipo de negócio, há um lixo contaminado que exige tecnologia para ser destinado corretamente. 

“Fui entendendo que o nosso resíduo era muito complexo e uma cooperativa comum não poderia recebê-lo. A cooperativa conseguia ficar com papelão e plástico, mas não tinha como aproveitar ou dar destino para os tubos de coloração, spray, esmalte, lixa e algodão”

Ela foi então em busca de soluções. Encontrou a empresa Beleza Verde, que faz o recolhimento, processamento e encaminhamento do lixo, principalmente os mais perigosos, como os aerossóis — pense nos sprays de cabelo. “Fiquei um ano negociando, porque não era barato. Até que chegamos a um acordo e eles assumiram a gestão dos nossos resíduos.”

RESTOS DE TINTA VIRAM COMBUSTÍVEL PARA A INDÚSTRIA DE CIMENTO

A Beleza Verde recolhe o resíduo uma vez por semana para dar a destinação correta. Mesmo com esse apoio, Ruchelle e sua equipe precisam atuar corretamente nos processos internos de separação. Manicures, cabeleireiros e assistentes foram convidados a aprender sobre o tema e a colaborar na criação dos processos internos de separação. 

Foi um funcionário que deu ideia de juntar num recipiente todo o resto de tinta de cabelo que sobra nas preparações. Antes, tudo era jogado no lavatório e escorria ralo abaixo, contaminando a água. Hoje, o resto de tinta é recolhido e transformado por meio de processos químicos, junto com outros resíduos não recicláveis, como cera depilatória, lixa de unha e algodão.

Se fosse destinado ao aterro sanitário, todo esse material geraria gás metano. Em vez disso, a Beleza Verde transforma tudo em um blend que serve de combustível para a indústria de cimento, evitando o uso de energia fóssil. Em 2018, 460 quilos de resíduos — leia-se, os restos de tinta, cera etc. — foram coletados no salão e reaproveitados dessa maneira acima. 

EMBALAGENS GERAM PONTOS QUE PODEM SER TROCADOS POR SERVIÇOS

No caso dos sprays, a Beleza Verde faz a despressurização e separa os componentes da lata, como ferro, alumínio e plástico, que são encaminhados para a reciclagem (assim como todo o papel usado no local). 

Os vidros de esmaltes também são reciclados. Já o esmalte em si é tratado e tem dois destinos possíveis: volta para a indústria como solvente ou é transformado em zarcão, substância utilizada para evitar ferrugem.

O salão NaBahia tem esse nome porque fica na Rua Bahia, em São Paulo. Ao lado, em um contêiner, Lenir abriu uma pequena floricultura, a Contém Flores, onde ela vende os arranjos que sempre gostou de fazer.

O lixo orgânico gerado pela cafeteria e pelo consumo interno é compostado em uma composteira automática no salão; o adubo resultante é usado nas áreas verdes do local. O NaBahia também instalou cisternas para recolher água da chuva e do ar condicionado e se tornou um ponto de coleta do lixo reciclável de moradores e empresas do bairro. 

Para incentivar a coleta, o NaBahia criou um programa de milhagem que permite trocar pontos por serviços. Cada embalagem gera 4 pontos. Pouco diante dos 800 pontos necessários por uma manicure — mas cada real gasto no salão também gera um ponto.

Ruchelle conta que a gestão de resíduos tem ajudado a dar visibilidade ao NaBahia e permitido reposicionar sua marca. Hoje, diz, ela recebe outros donos de salões que querem conhecer a iniciativa de perto. “Abro as portas para apresentar esse trabalho com o maior prazer, porque o intuito é mudar todo o setor, não somente a mim.”

O CABELO ESTOCADO PODE AJUDAR A CONTER MANCHAS DE ÓLEO NO MAR

Até o cabelo cortado no salão é reaproveitado. As mechas longas são doadas para a ONG Cabelegria, que faz perucas para crianças e mulheres com câncer. Enquanto isso, o cabelo curto, picotado, é varrido para um cano de onde segue para um recipiente coletor. O material está sendo estocado para dar origem a mantas usadas na contenção de manchas de óleo no mar. 

Esse recurso ganhou destaque a partir de 2010, quando a ONG Matter of Trust orquestrou uma mobilização internacional para coletar fibras e materiais diversos, incluindo cabelo, num esforço para conter a enorme mancha que se formou depois que a explosão de uma plataforma despejou o equivalente a milhões de barris de petróleo no Golfo do México.

Segundo Márcio Matana, gerente de operações da Beleza Verde, são necessárias três toneladas de cabelo para se começar a produzir essas mantas de contenção. Em um ano, o NaBahia já juntou 100 quilos. Ainda falta bastante, mas Ruchelle se entusiasma: “Não vejo a hora de expor essa manta aqui no salão e mostrar para todo mundo o que o cabelo pode virar!”.

A REVENDA DE PRODUTOS DOBROU AO FOCAR EM MARCAS COM ATIVOS NATURAIS

A sócia do NaBahia conta que investiu R$ 5 mil para colocar todo o projeto de gestão de resíduos de pé. Um valor irrisório diante dos R$ 3,5 milhões de faturamento em 2018 e dos benefícios para o meio ambiente e a reputação do negócio.

Para Ruchelle, a sustentabilidade é um caminho sem volta: quando as pessoas começam a olhar o resíduo como recurso, isso logo se torna natural. Um impacto econômico evidente foi na revenda de produtos de cabelo, que dobrou com a troca das marcas tradicionais por outras que dispensam derivados de petróleo na formulação, privilegiando ativos mais naturais.

“No começo, as clientes foram um pouco resistentes. Mas persistimos e as convidamos a experimentar. Isso aumentou nosso alcance. Hoje temos clientes que vêm por causa dos produtos naturais e aquelas que fazem questão de prestigiar empresas sustentáveis”

Ela diz que ainda gostaria de trocar as colorações, mas depende de um avanço dos fabricantes que, nas suas palavras, não disponibilizam esse tipo de produto com a performance necessária. 

“Também esperamos uma resposta da indústria. Quando esse movimento começar a crescer, vai ser incrível porque poderemos juntar muitas empresas com o mesmo propósito.”

 

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DRAFT CARD

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  • Projeto: NaBahia
  • O que faz: Salão de beleza que faz a gestão Lixo Zero dos resíduos.
  • Sócio(s): Lenir Bragantin, Ruchelle Crepaldi e Rafaella Crepaldi
  • Funcionários: 6 funcionários e 50 colaboradores
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2005
  • Faturamento: R$ 3,5 milhões (2018)
  • Contato: [email protected]
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