“O pai precisa estar emocionalmente preparado para amar e ser amado. Amor não é idealização. Amor é prática, amor é tempo”

Ícaro de Abreu - 30 dez 2022
Ícaro de Abreu com a esposa, Yuri, e o filho, Otto.
Ícaro de Abreu - 30 dez 2022
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Sei bem da diferença entre o suporte de um pai e sua presença. 

Vou contar uma história. 

Eu tinha em torno de 6 anos quando meus pais se separaram e minha mãe, então, assumiu a função do que hoje entendo por paternidade

Não glorifico as “pães” — mães que acumulam as funções de pai e mãe — como se fosse algo bom. Minha mãe estava sobrecarregada, como milhares de outras.

Se nos dias de hoje a sociedade ainda não articula bem o fato de as mulheres criarem seus filhos sozinhas, imagine 35 anos atrás?

Como na maioria dos casos, não faço parte da estatística de filhos de casais evoluídos que conseguiram se relacionar bem depois da separação. Fui introduzido precocemente em um mundo “juridiquês” de guarda compartilhada, litígio e pensão alimentícia.

Um turbilhão que me colocou de frente com a realidade: agora que seu pai está fora, a responsabilidade está com você.

APESAR DA ROTINA PUXADA, MINHA MÃE ME INUNDOU DE CARINHO E ATENÇÃO. FOI PAI E MÃE, TUDO AO MESMO TEMPO

Cresci escutando que minha mãe acordava às 4 horas da manhã, ia pra escola e meia-noite encontrava meu tio no ponto pra subir o morro.

Por outro lado, conhecia a jornada do meu pai, que começou a vida capinando café, engraxando sapato e, por sorte, se tornou office boy em uma agência de publicidade, onde teve uma oportunidade.

Aos 14 anos, sentindo o peso da responsabilidade — e dos boletos –, lá estava eu saindo de casa às 5 horas da manhã para trabalhar, voltando pra casa à meia-noite, cansado pacas, assumindo esse papel no qual a vida se encaixa no trabalho, e não o contrário.

Por sorte, essa mãe “pãe” — matriarca e patriarca –, em uma família não-tradicional, ajudou a construir meu caráter, me inundando de carinho, de atenção e de cuidados

Mostrando que, apesar das dificuldades, você pode, sim, criar um ser humano combinando suporte e presença em um processo contínuo. Não é projeto. É uma relação always on.

Agora, chegou a minha vez. E prometi a mim mesmo que jamais falharia nessa missão.

QUANDO MEU FILHO NASCEU, ENTENDI QUE A GESTÃO DO TEMPO NÃO ERA ALGO TÃO CARTESIANO QUANTO EU PENSAVA

A vida seguiu e surgiu a Yuri na minha vida. Minha esposa e mãe do meu filho, que me trouxe uma bagagem única, que vou carregar lado a lado pra sempre, sendo tudo o que um pai deve ser.

Tal qual uma profecia, no dia 9 de março de 2022, às 8h37, tocava bem baixinho “Changes”, do David Bowie.

Por que sei o horário? Pois foi exatamente aí que Otto, meu filho, trocava sua respiração umbilical pelo precioso elemento oxigênio

Para quem nunca se atentou à música, Bowie nos diz para encarar o estranho. Que não importa ser o homem mais rico, mas sim um homem diferente, pois não podemos enganar o tempo.

Neste mesmo mês, meu pai me ligou para contar que estava doente. De repente, o tênue equilíbrio entre suporte e presença que eu deveria proporcionar para meu filho – bum! – foi pelos ares.

Pela lente do bebê, você consegue perceber o mundo como ele é. As coisas estão acontecendo aqui no presente, não são mais pelos seus traumas que estão no passado e nem no IPCA do futuro.

Com a vaidade de estar acostumado a trabalhar madrugadas adentro, previ que lidaria bem com a organização do tempo cuidando do bebê…

Mas não previ o círculo virtuoso de carinho e atenção que minha mãe tinha me ensinado, que me faria entrar em uma espiral de felicidade sem igual.

Pensando que paternidade fosse cartesiana, me peguei com a Yuri, depois de quatro dias sem dormir, falando sobre o quão estávamos apaixonados por essa criaturinha e de que seria incabível continuar a trabalhar a mesma quantidade de horas que trabalhávamos. 

Um ótimo exemplo de como a privação de sono pode proporcionar uma experiência bastante iluminadora de que, daqui pra frente, o cuidado seria contínuo e integrado ao nosso cotidiano.

ME AFASTEI DO TRABALHO EM BUSCA DE OPORTUNIDADES QUE ME PERMITISSEM TER MAIS TEMPO COM MEU FILHO

Dez dias depois, estava eu ligando para meu amigo e ex-chefe Fernand para dizer que precisava me afastar, com a ideia de encontrar alguma oportunidade que me permitisse viver mais horas com o meu filho.

Eu precisava reorganizar a vida para conseguir colocar o trabalho dentro dela, e não mais o contrário.

A tecnologia está aí, reinando com empresas e organizações que partem de uma cultura de confiança, e não dá mais para ter um regime de trabalho como o que foi implantado na Revolução Industrial.

A pandemia teve, sem dúvida, um grande peso na decisão. Logo no começo, perdi dois familiares para a Covid em uma mesma semana.

E a dimensão de que a vida passa muito rápido veio à tona, junto da sensação de que, não importa meu rendimento, eu sempre terminarei o dia com um monte de coisas para fazer

Mas a mesma pandemia me deu a oportunidade de vivenciar a gravidez de minha esposa de perto, o que me conectou com um universo do qual eu não participaria antes da chegada do bebê.

Teve yoga para grávidas, plataformas de delivery que evitaram saídas de madrugada em busca de um sorvete… e, claro, todo o acervo de documentários sobre bebês.

APRENDI PRA VALER A DIFERENÇA ENTRE O SUPORTE DE UM PAI E A SUA PRESENÇA, DE FATO, NA VIDA DE UM FILHO

Em um desses documentários, vimos um estudo da universidade de Bar-Ilan, em Israel, no qual analisaram os níveis hormonais de 43 pais, seis meses depois do nascimento de seus filhos. O resultado foi incrível!

Como acontece com a mãe, os cientistas acharam um padrão entre o nível de hormônio do amor e a habilidade dos pais de se relacionarem bem com seus bebês

Quanto mais hormônios o homem produzia, melhor era sua conexão com o bebê durante todas as situações.

Ou seja, para estes hormônios serem ativados, foi preciso um outro nível de envolvimento. E depois que passa a fase de recém-nascido, isso continua.

Segundo outra pesquisa, agora da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA/USP), “O pai e o profissional do mundo contemporâneo”, um maior envolvimento dos pais na criação dos seus filhos resulta no aumento da autoestima, desempenho escolar e cognitivo e bem-estar psicológico e socioemocional dos pequenos.

Além disso, a mesma pesquisa demonstrou que o envolvimento paterno ativo tem efeitos positivos no relacionamento conjugal.

A mulher, por exemplo, se sente mais apoiada pessoalmente e profissionalmente, sem a sobrecarga da responsabilidade total, permitindo que seja possível dar continuidade à carreira profissional — algo impossível quando somente uma das partes está envolvida.

Quer dizer que aquele lugar definido pela sociedade de “provedor” — que chega do trabalho, dá um beijo na criança e vai tomar banho pra jantar depois que o nenê já dormiu — é, no mínimo, injusto.

Se apaixonar requer um envolvimento ativo dos homens. Isto significa dar comida, banho, colocar para dormir, ir às consultas e trocar a fralda algumas vezes ao dia

O pai precisa estar emocionalmente preparado para amar e ser amado. Não é só suporte nem só presença. Amor não é idealização. Amor é prática. Amor é tempo.

Sei bem da diferença entre o suporte de um pai e sua presença.

 

Ícaro de Abreu é pai de Otto. Assumiu como Chief Creative Officer da IBM em novembro, com a flexibilidade necessária para equilibrar trabalho e família.

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