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Eu precisei me perder para entender o valor que ninguém estava medindo. Hoje tenho 47 anos. Sou estrategista de marca global, expatriada, empresária, mãe, mulher, latina nos Estados Unidos e hoje sinto que estou recomeçando no auge da minha vida.
Durante minha vida, agi como a garota prodígio. A que fez tudo o que se espera. Casamento estável, dois filhos, carreira internacional, um apartamento em Nova York, um cargo importante em uma das maiores agências de publicidade do mundo.
E, ainda assim, em 2023, tudo isso começou a fazer menos sentido. Eu tinha chegado onde todos diziam que eu deveria chegar, mas não conseguia mais me encontrar ali
Minha trajetória se construiu entrando onde as coisas não funcionavam, justamente nos lugares em que o sistema mais resistia a mudar.
Eu me movia na direção do que era desafiador, encontrava barreiras, provocava a mudança. E, quando ela acontecia, aquele espaço deixava de ser suficiente para mim.
Na época, eu era só movimento. Crescer, entregar, avançar. Sem muito espaço para questionar.
Antes mesmo de terminar minha faculdade de cinema na FAAP, me mudei para o Maranhão para trabalhar como redatora publicitária.
Eu tinha 21 anos e nenhuma experiência, apenas disposição para aprender. Ali, aprendi a construir sem referência e a sustentar uma posição que ainda estava me formando.
Voltei para São Paulo com uma certeza silenciosa: eu conseguia entrar em lugares onde ainda não estava pronta
E foi exatamente isso que fiz de novo. Entrei no universo de UX quando quase ninguém falava a respeito. Era o início da internet e, se ninguém sabia exatamente o que era, eu poderia aprender mais rápido. Assim me tornei uma das primeiras profissionais de UX no Brasil.
Mas nunca me interessou ficar na superfície. Levei o UX para um território mais estratégico, conectando comportamento, decisão e experiência. E a minha carreira acelerou.
Foi nesse movimento que me tornei mãe. E tudo mudou, não de forma imediata, mas profundamente. Pela primeira vez, não era só sobre mim. E eu segui.
Assumi posições de liderança, ampliei meu escopo e migrei para a estratégia de marca, até chegar à liderança da Chevrolet América Latina.
Era o lugar certo, até deixar de ser. Durante a gravidez da minha segunda filha, algo na minha relação já não era o que eu acreditava. E, ainda assim, eu fiquei
Hoje, entendo que o que estava em jogo ali era sustentar uma ideia de estabilidade que parecia mais importante do que o que eu estava sentindo.
Pouco tempo depois, veio Detroit. Uma posição global, dois filhos pequenos e uma mudança que parecia lógica. Mas não era.
Ali, aconteceu uma inversão silenciosa e profunda. Eu passei a sustentar tudo. E ninguém prepara você para esse lugar.
Depois de uma liderança marcada por abuso de poder, colocaram uma mulher para resolver a crise, e ela resolveu, transformando uma organização em colapso em uma potência criativa.
Foi em Detroit que eu vivi meu momento de maior vulnerabilidade. Eu operava no meu limite e, ainda assim, parecia insuficiente. Pela primeira vez a questão não era dar conta do trabalho, e sim sustentar uma vida inteira ao mesmo tempo.
Muitas vezes, no caminho de volta para casa, eu chorava, não por fraqueza, mas para conseguir chegar inteira.
Foi ali também que eu entendi que aquele ambiente já não se sustentava.
A entrada de uma liderança tóxica tornou o que já era difícil em algo insustentável e tomei uma decisão que parecia estratégica: sair em busca de estabilidade
Mudei minha família inteira para a Virgínia acreditando que ali encontraria um novo começo. Em poucos meses, tudo desmoronou.
A agência estava no centro do furacão do movimento MeToo, atravessada por escândalos, denúncias e uma crise estrutural profunda. E foi ali que eu vi algo que nunca esqueci.
Depois de uma liderança marcada por abuso de poder, colocaram uma mulher para resolver a crise, e ela resolveu, transformando uma organização em colapso em uma potência criativa.
Mais uma vez, a força feminina era chamada nos momentos de ruptura, acionada para sustentar um sistema que nunca foi desenhado para ela. Aquilo mudou a minha leitura
Não era mais só uma questão de trabalho. Era sobre sistema.
Depois veio Nova York, outro nível, outra exigência. Eu continuei performando, mas já não enxergava da mesma forma.
Eu não deixei de entregar: eu passei a enxergar o que a entrega não explica. E foi ali que algo se tornou claro.
O papel da mulher nunca foi apenas operacional, ele sempre foi estrutural, mas o sistema se organiza de forma a depender disso sem jamais reconhecer como valor.
A nossa geração cresceu provando valor e ocupando espaços que muitas vezes não nos eram dados. Mas, ao fazer isso, foi absorvida sem o mesmo reconhecimento
Existe uma preferência pelo que é novo, rápido e visível, mas o valor não está só na velocidade, está na capacidade de perceber padrões, sustentar decisões e antecipar consequências. E isso leva tempo.
Quando você é jovem, você aprende a caber; quando a experiência chega, você começa a enxergar, e a partir daí já não é mais possível voltar para o mesmo lugar.
E, quando você começa a enxergar, algo muda. Você deixa de caber.
Foi conversando com outras mulheres que isso se tornou impossível de ignorar.
As histórias mudavam, mas o padrão, não. Alta competência, alta responsabilidade e uma sensação persistente de desalinhamento. Não por falta de capacidade. Mas por excesso de lucidez
Quando comecei a organizar tudo isso, entendi que não era pessoal, era padrão. E precisava de uma linguagem que desse contorno a essa constatação.
Denominei isso de Prime Maturity, não como um conceito, mas como uma leitura sobre uma fase que o sistema insiste em tratar como declínio, quando, na verdade, é expansão.
Hoje, olhando para trás, eu não vejo uma sequência de eventos. Vejo um reposicionamento.
Precisei sair do lugar onde meu valor era medido pela entrega para entender algo mais profundo: existe uma camada inteira de grandeza que ainda não foi reconhecida
Porque, no fim, o problema nunca foi não caber no sistema. O problema é que, quando se passa a enxergar, é o sistema que já não consegue mais se sustentar diante de você.
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