Quem produz a roupa que você veste? O Projeto Fio capacita mulheres da periferia para tornar a moda menos desigual

Marcela Marcos - 25 jan 2021 Algumas das bordadeiras (da esq. à dir.): Suzana Brito, Sandra Cobra, Francisca Matos, Catia Carvalho, Antonia da Silva e Alda Pachu.
Algumas das bordadeiras (da esq. à dir.): Suzana Brito, Sandra Cobra, Francisca Matos, Catia Carvalho, Antonia da Silva e Alda Pachu.
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Você já parou para questionar se o rendimento das pessoas que produzem peças para confecções acompanha o aquecimento do mercado da moda? Se as pessoas que costuram as roupas que você veste são pagas de maneira justa e trabalham em condições adequadas?

A carioca Olivia Silveira, 26, se fez essas perguntas. E ao ver que a conta não fecha, resolveu arregaçar as mangas.

Junto com as sócias Ana Luiza Nigri, 26, Marina Bittencourt, 27, e Letícia Ozorio, 26, Olivia está à frente do Projeto Fio, que capacita moradoras do Rio de Janeiro em situação de vulnerabilidade econômica e social para bordar peças confeccionadas com tecidos naturais.

“O Projeto Fio é fruto de nossas insatisfações com a indústria da moda, extremamente desigual, machista e exploradora”, diz Olivia.

O portfólio vai de roupas (camisas, tops, quimonos) a chapéus bordados, passando por flâmulas e cachepôs. Cada peça traz uma etiqueta com o nome de quem bordou.

Da esq. à dir.: Olivia, Marina e Ana Luiza, três das quatro sócias do Projeto Fio.

Filha de uma ceramista, Olivia cresceu em contato com trabalhos manuais. Aprendeu a bordar com a mãe e as tias. “Sempre costurei minhas roupas, gostava de pintar aquarela, sempre tive uma relação pessoal com o artesanato…” 

A partir de 2017, recém-formada em Design de Moda (pela PUC) e refletindo sobre maneiras de mudar o próprio entorno, ela passou a encarar a arte como elemento de transformação social. 

“Eu ficava aflita com a realidade da indústria: mulheres trabalhando em fábricas insalubres, em jornadas de 12 horas por dia, por salários muitas vezes desconhecidos… Queria trazer de volta aquilo que me colocou na moda: a sensação maravilhosa de olhar para uma peça e falar, com satisfação: ‘fui eu que fiz!'” 

As outras sócias também trabalhavam na área, e partilhavam da indignação. Marina era amiga de Olívia de escola (mais tarde, se formou em Moda, na Universidade Cândido Mendes); Ana Luiza, ela conheceu na PUC. Letícia foi a última a embarcar no projeto.

“Começamos a pensar em como fazer o processo de criar uma roupa representar um momento de felicidade, de prazer com a criação…”, diz Olivia. “Aí, chegamos na ideia da capacitação.” 

A PRIMEIRA COLEÇÃO SURGIU NAS AULAS DE UMA ASSOCIAÇÃO DE MORADORES

O quarteto começou a ensinar bordado na Associação de Moradores do Horto (na comunidade de mesmo nome, junto ao Jardim Botânico, na Zona Sul), onde frequentadoras já tinham aulas de costura, modelagem e tricô. 

No passado, o bairro abrigou fábricas de tecido; nos cursos, moradoras compartilhavam conhecimentos têxteis transmitidos por suas avós. As sócias passaram a trocar figurinhas com as alunas e a professora que já fazia parte da associação. 

“Começamos a desenhar e a pensar coletivamente nas aulas… E se isso fosse uma camisa? E se a gente usasse esse desenho aqui pra ilustrar um vestido?”

Assim, surgiu a primeira coleção de roupas, em agosto de 2018, após a formação daquele primeiro grupo, essencialmente feminino. 

POR MEIO DOS CURSOS, ELAS ENGAJARAM BORDADEIRAS NO PROJETO

Ainda em 2018, as empreendedoras foram convidadas a integrar o projeto Eu Sou Arte, de arte-educação, promovido pela comunidade da Tijuquinha, no Itanhangá, Zona Oeste do Rio.

O público inicial eram as crianças. Mas elas concluíram que seria interessante reunir as mães, para que reconhecessem, por experiência própria, a importância de levar os filhos para as aulas.

As sócias incorporaram processos lúdicos e terapêuticos da arte-educação ao que já faziam. Depois, engajaram-se em outro projeto semelhante, na Casa das Mulheres da Maré, no Complexo da Maré, Zona Norte da cidade.

Os cursos duravam até seis meses e envolviam bordado lúdico e contação de histórias. Após a conclusão, as alunas eram convidadas a produzir para o Projeto Fio. 

“Falávamos da possibilidade de elas gerarem renda, e as próprias bordadeiras diziam que queriam trabalhar com a gente”, conta Olivia. 

O TEMPO DO BORDADO É “O TEMPO DA MÃO E DA VIDA DE CADA UMA”

O número de colaboradoras é flutuante, gira em torno de 25 mulheres, com idades entre 35 e 60 anos (visite o site do Projeto Fio para conhecê-las).

O catálogo inclui capas de almofada, cachepôs e flâmulas.

A quantia paga pelo trabalho depende da complexidade do bordado e do tempo que elas levam para fazer. Os valores, diz Olivia, são definidos em conjunto. 

“Nas capacitações, já começamos a fazer os primeiros desenhos e a pensar onde  [em que tipo de peça] cada um deveria ir, qual o tamanho… E, horizontalmente, vamos montando uma tabela de precificação.” 

Por um bordado mais elaborado, elas costumam pagar 80 reais como base, multiplicado pela quantidade de itens feitos manualmente. As colaboradoras são pagas antecipadamente e recebem um kit com linha, agulha, tecido, botão e o que mais for necessário para produzir as peças de casa. 

Como o trabalho é artesanal, o tempo de produção varia um bocado. Em geral, os itens sob encomenda levam de 10 a 20 dias para ficarem prontos. 

“Bordado é uma técnica com tempo próprio. E esse tempo é o da mão e da vida de cada uma das bordadeiras. Sempre tem diferenças [no trabalho], é legal de perceber. Um mesmo desenho você percebe claramente, pelo traço, de qual bordadeira é”

O Projeto Fio mantém um ateliê em Botafogo, na Zona Sul, onde recebe as peças prontas e monta os kits com material. Com agendamento, dá para visitar o espaço e comprar o que houver para pronta entrega. 

UM DESAFIO É ENCONTRAR FORNECEDORES DE MATÉRIA-PRIMA

Olívia conta que seu negócio social se inspira em marcas como Catarina Mina (de bolsas artesanais), Flávia Aranha (roupas com impressão botânica) e Insecta Shoes (calçados veganos) — as duas últimas já saíram aqui no Draft.

A premissa é só trabalhar com matéria-prima biodegradável — geralmente linho e lona de algodão para os tecidos, além de aviamentos em madeira — e produzida no Brasil. Encontrar fornecedores, porém, é um desafio.

“Teve um momento em que a gente conseguiu se capitalizar e chegou a fazer uma parceria com uma produção que tinha um algodão orgânico que vinha da Paraíba e trazia impacto social para as famílias produtoras… Mas ficou muito caro. Essa é uma luta constante” 

A questão do preço é um problema. Já aconteceu de elas encontrarem um fornecedor que cumpria todos os requisitos (trabalha com algodão brasileiro, biodegradável, de ótima qualidade), mas só vendia em quantidade mínima de 500 metros, o que hoje excede a capacidade da marca. 

”Isso é uma loucura para quem é pequeno”, diz Olivia. Os tecidos são comprados, em sua maioria, do G. Vallone, fornecedor com fábrica em São Paulo; alguns são adquiridos no Pólo Têxtil Rio. 

A SOBREVIDA NA PANDEMIA SÓ FOI POSSÍVEL COM AJUDA COLETIVA

O Projeto Fio já vendeu mais de 1 600 peças para todo o Brasil. O preço varia, em geral, de 230 a 330 reais (valor do quimono); exceções são o chapéu de palha, que custa 80 reais, e o cachepô (90 reais).

Eventos no Horto — e, em São Paulo, na feira Jardim Secreto — serviam para apresentar as coleções e interagir com o público. Olivia lembra que, em 2018, elas chegaram a vender em um fim de semana de feira, as 90 peças que tinham feito ao longo de todo o ano. As bordadeiras participavam dos eventos — era a chance de os compradores conhecerem as responsáveis por produzir a peça que eles levavam para casa.

A Covid mudou tudo. A produção das bordadeiras parou, os eventos foram cancelados, as capacitações na Maré foram suspensas… Apenas as aulas na comunidade Tijuquinha puderam ser mantidas, pela internet.

“Foi um susto muito grande no início, a gente achou que o Projeto Fio não ia mais existir. Tivemos que dar um gás forte no nosso e-commerce”

O site tinha sido recém-criado em março, quando a pandemia foi decretada. As sócias colocaram as peças já produzidas à venda pela metade do preço. Além disso, abriram um financiamento coletivo.

O crowdfunding segurou as pontas na crise. Em 60 dias (15 antes do término), a campanha bateu a meta, arrecadando 49 mil reais graças às contribuições de 275 pessoas que resolveram ajudar para manter o negócio vivo.

COMO EXPANDIR O NEGÓCIO SEM PERDER A DELICADEZA?

Em setembro, as bordadeiras voltaram a produzir. As sócias mandam para as casas delas, por motoboy, os kits com os materiais. 

O distanciamento social, tão necessário, tem como impacto negativo a perda do convívio nos eventos e nas capacitações presenciais. Olivia diz que sua motivação para empreender é justamente essa troca:

“A parte mais gostosa é trabalhar com tanta mulher incrível e ter essa rede tão unida. Os feedbacks [das artesãs] são muito legais, até uma questão de autoconhecimento que o bordado traz, e um fortalecimento de grupo” 

Depois de superar o receio pela sobrevivência do negócio, as empreendedoras encaram agora o difícil ano de 2021. Sabem que precisam melhorar a logística e aprender o caminho para expandir a empresa:

“Como manter a relação com as artesãs, manter toda a delicadeza, o detalhe, a beleza de algo artesanal — e, ainda, crescer?”

Descobrir a resposta para essa pergunta será crucial para bordar o futuro.

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DRAFT CARD

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  • Projeto: Projeto Fio
  • O que faz: Capacita e dá oportunidade de renda, por meio do bordado, a artesãs de comunidades periféricas
  • Sócio(s): Olivia Silveira, Marina Bittencourt, Ana Luiza Nigri, Leticia Ozorio
  • Funcionários: não tem
  • Sede: Rio de Janeiro
  • Início das atividades: 2017
  • Investimento inicial: R$ 10 mil
  • Faturamento: R$ 120 mil (em 2019)
  • Contato: [email protected]
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