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“O que mais me inspira na sociobioeconomia são as pessoas que produzem de forma harmônica com os territórios e têm uma noção coletiva aguçada”

Dani Rosolen - 14 maio 2026
Andréa Álvares, líder da plataforma FamaGaia Sociobioeconomia e presidente do conselho deliberativo do Instituto Ethos.
Dani Rosolen - 14 maio 2026
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Há dez anos, o Draft conversou com Andréa Álvares pela primeira vez. Na época, ela era VP de Marca, Inovação e Sustentabilidade da Natura, uma das muitas grandes empresas pelas quais passou construindo uma trajetória ligada a impacto.

Atualmente, a executiva está em seu segundo mandato como presidente do conselho deliberativo do Instituto Ethos, que tem como missão mobilizar e auxiliar empresas a gerir seus negócios de forma socialmente responsável, sustentável e ética. Mês passado, a organização lançou, em conjunto com outras entidades, uma coalizão contra a desinformação no Brasil.

O assunto tangencia a agenda da qual ela participará no Impacta Mais, fórum de economia de impacto, que acontece entre 20 e 21 de maio, em São Paulo, e do qual o Draft fará uma cobertura especial. No primeiro dia do encontro, entre 10h30 e 11h30, Andréa vai mediar o painel “O Brasil tem jeito? Democracia, confiança e caminhos possíveis para o futuro”. Ela até adianta um pouco aqui na entrevista como a crise de confiança afeta a escala das soluções de impacto.

Além da sua atuação no Ethos, a executiva faz parte do fundo Fama Gaia Sociobioeconomia, do Fama Re.Capital, no qual ingressou em 2024, para liderar a plataforma de investimentos com foco em projetos ligados à área. 

Na conversa a seguir, Andréa fala sobre sua participação no Impacta Mais, compartilha sua percepção da ideia de sustentabilidade, fala sobre a tese do fundo Fama Gaia e explica o que o mercado tradicional ainda precisa entender para deixar de ignorar iniciativas da sociobioeconomia. Confira:

 

Você construiu uma carreira em grandes corporações como Natura, PepsiCo e P&G. Em que momento percebeu que a sustentabilidade não poderia mais ser um “departamento”, mas a própria lógica do negócio?

Não teve um momento “aha!”, foi um contínuo. Mas teve, sim, alguns marcos ao longo da minha vida que fizeram muita diferença.

O primeiro deles aconteceu em 2006, quando estava na PepsiCo e a CEO na época era a Indra Nooyi. Ela lançou, naquele ano, como parte de um redirecionamento estratégico da companhia, a ideia de “Performance com Propósito” e com essa ideia começou a reorientar o negócio, já antevendo alguns dos impactos, tanto ambientais quanto de desafios sociais a partir do portfólio de produtos que a empresa vendia e que tinham questões associadas à saúde, como teor de sal e açúcar. 

Foi, de fato, a primeira vez que vi materializado no ambiente de trabalho essa ideia de que, além vender o que a gente vendia, existiam implicações do que os modelos de negócio faziam e que precisávamos ter consciência desses impactos, intencionais ou não, e tentar endereçá-los de maneira estratégica

Depois, quando assumi a presidência do negócio de bebidas no Brasil, aprofundei essa discussão com meu time e organizacionalmente, com algumas das agendas da estratégia global da companhia e capitaneando essas iniciativas aqui no Brasil.

O meu movimento de ida para Natura também tem a ver com essa busca crescente por uma coerência entre o que acreditava e aquilo que entendia que precisava ser feito. Lá, talvez tenha sido o meu primeiro momento de aproximação com a ideia de sociobioeconomia e de sustentabilidade, de uma forma mais ampla e integrada à estratégia, tanto no que fomentava a inovação e as práticas operacionais quanto nas relações com as comunidades e até nas diretrizes de uso de insumos, principalmente da biodiversidade brasileira

Agora, 20 anos depois, não consigo imaginar estar engajada em nada que não tenha essa premissa. 

Negócios fazem parte de uma sociedade, que faz parte de um planeta. Portanto, existe uma interdependência direta entre aquilo que faço no meu negócio e os seus impactos nessa sociedade e nesse planeta

É preciso ter consciência, responsabilidade e uma estratégia para endereçar tudo aquilo que eventualmente eu faça que não gostaria de fazer, bem como aquilo que faço e gostaria de amplificar e tornar ainda mais potente.

O que mais te chamou atenção ao mergulhar no universo da sociobioeconomia?

O que mais me impacta, surpreende, motiva e inspira são as pessoas que vivem da sociobioeconomia, que produzem de forma harmônica com os territórios onde vivem e têm uma noção coletiva aguçada. E que, por sua vez, estão muito alijadas dos sistemas formais

Mas, apesar de todas as dificuldades – da falta de infraestrutura a acesso a crédito, saúde e educação – são competentes, criativas e exímias resolvedoras de problemas, produzindo soluções inéditas que reverberam não só para si, mas para as comunidades onde atuam.

O Fundo Fama Gaia olha justamente para essas pessoas e negócios que os bancos tradicionais não enxergam. Você pode compartilhar um pouco dessa tese?

Hoje, essa plataforma de investimentos tem dois instrumentos financeiros, o FIDC IS (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), o primeiro que a gente criou, e agora temos também um fundo de renda fixa.

A tese do fundo parte da seguinte premissa: se a gente investir nas pessoas que estão nos biomas, trabalhando em atividades que protegem o ecossistema, e que hoje não têm acesso a crédito, elas se tornarão mais resilientes, terão mais fôlego econômico e poderão melhorar de qualidade de vida, reduzir desigualdades e proteger a biodiversidade e os ecossistemas no qual estão inseridas

A outra parte da tese do fundo consiste em como mobilizar capital para investir nesses projetos. Então, tem um desafio de convencer o dinheiro que hoje está alocado em outros lugares a entender que vale investir na sociobioeconomia e que ela pode trazer um retorno equivalente ao que se conseguiria num outro tipo de instrumento financeiro do mercado. 

E a outra parte tem a ver com o entendimento de que existe interdependência ecossistêmica. Então, queríamos estar nos seis biomas, mas também em zonas costeiras e nos manguezais, pela questão da diversidade natural mais interdependente e para pensar numa diversificação de risco, tanto climático como de crédito.

Agora, quase dois anos depois, investimos em 15 projetos, em cinco biomas e uma Zona Costeira, que vão desde agricultura familiar à produção de cacau em sistemas agroflorestais na Amazônia. Apoiamos um de produção de mel orgânico na Caatinga, que fomenta a venda para mercados como Europa e Estados Unidos, compensando financeiramente bem os apicultores e ajudando a proteger um grande polinizador, as abelhas. 

Temos também um projeto no litoral de São Paulo, que não só resgata e valoriza a pesca artesanal, mas assegura que existe um cuidado com a proteção das espécies pescadas. Apoiamos ainda um grupo de agricultoras do Cerrado goiano, a Floryá, que travaram uma batalha para poderem ser registradas como cooperativa de agricultoras, porque o cartório local só registrava no masculino.

E para citar mais um, temos o projeto de um coletivo que trabalha com viveiro de mudas na Mata Atlântica, produção relacionada ao reflorestamento e à recuperação de áreas degradadas. Enfim, tem projetos que a gente já recebeu o pagamento de volta, reinvestiu e já está investindo de novo. 

E, na sua visão, por que o mercado tradicional ainda ignora esses projetos, mesmo sabendo que dão retorno e geram impacto socioambiental mensurável?

A lógica do sistema financeiro, mas não apenas do sistema financeiro, está associada a noções de concentração de recursos e players, de escala, eficiência, tamanho… O mercado e o mundo hoje remuneram e aplaudem esse modelo. 

E a sociobioeconomia é o oposto disso: ela é complexa, distribuída, descentralizada e grande na sua escala na soma de milhares e pequenos, não necessariamente em um grande player – o que não quer dizer que esses negócios não possam crescer ou se expandir

Existem várias razões pelas quais o mercado hoje talvez não a valorize. Mesmo quando pensamos nessa ideia do Brasil com potência em biodiversidade e que poderia ser uma potência da sociobioeconomia mundial, o que se tem feito nos últimos anos é tentar traduzir para essa linguagem financeira o que é uma proxy de valorização desses ativos, que hoje não são considerados nem valorizados, como o fato de termos uma das bacias hidrográficas mais importantes do planeta ou mesmo essa nossa biodiversidade de fauna e de flora. Até hoje é muito desafiador definir um preço para uma tonelada de carbono, que é uma métrica simplificada, de certa forma. 

Se formos pensar no crédito de biodiversidade, isso fica ainda mais complexo porque estamos falando em ser capaz de mensurar o valor da vida e dos serviços ecossistêmicos prestados

Falta essa compreensão e é por isso que existe dificuldade em ver valor. Uma parte desse problema se deve justamente ao fato do que a gente decidiu chamar de valor, que é o valor econômico quantificado financeiramente. 

O que mais trava o redirecionamento do capital para atividades regenerativas: a lógica de curto prazo, a dificuldade de medir impacto socioambiental ou um sistema que ainda premia a extração?

Eu acho que as três alternativas, mas a primeira, a lógica de curto prazo, e a terceira, um mercado que premia a lógica de extração, são as mais fortes do ponto de vista econômico. 

A dificuldade de medir impacto também contribuiu, mas sinceramente acho que sabemos que tem certas coisas que estão certas mesmo quando não conseguimos medir. 

Existe uma lacuna entre a filantropia e o investimento tradicional. Quais modelos financeiros ou combinações deles serão decisivos nos próximos anos para o ecossistema de impacto? 

Pelo que eu tenho aprendido nos últimos anos nesse setor, existe muita inovação financeira acontecendo no espaço de investimento de impacto, investimento regenerativo, investimento sistêmico, que vêm tentando criar frameworks para ajudar a contrapor essas estruturas e lógicas mais estabelecidas e que falam nessa mesma linguagem para, de certa maneira, aproximar noções de valor. 

Desde o blended finance até, por exemplo, desenhos de instrumentos como os nossos, que efetivamente são desenhados pensando em tentar resolver essa natureza de problema. As provas de conceito então aí e essa aproximação entre o que antes era filantropia e investimento está virando, talvez, esse espaço do investimento de impacto, regenerativo e sistêmico.

Você estará no Impacta Mais agora em em 20 e 21 de maio e será mediadora de uma das palestras, tratando de um tema caro ao Instituto Ethos, que é a crise de confiança nas lideranças e instituições. Hoje como isso trava a escala das soluções de impacto no Brasil?

Essa crise de confiança não é exclusiva do Brasil, é planetária e vem de um colapso da crença em várias coisas. É uma combinação de fatores, pois apesar de termos atingido crescimentos econômicos extraordinários, a distribuição dessa riqueza não é feita de forma igual e, nos últimos anos, há uma consciência maior desse desequilíbrio na distribuição. 

Por desenho, existe um sistema de retroalimentação, em que a concentração de riqueza só aumenta se não tiver algum tipo de regulamentação ou incidência  pública/social que possa discutir essa distribuição, criando inúmeros problemas, como governos com pouca capacidade orçamentária para exercer seu papel público e, consequente, endividamento. 

Ao mesmo tempo, existe uma dúvida sobre a aplicação eficiente e íntegra dos recursos e dos orçamentos públicos nos diferentes países do mundo e aqui também, somada a uma indústria que foi construída para fomentar a proliferação de informações falsas para benefício próprio, seja financeiro ou de outra natureza. E isso acontece da área da saúde à esfera política.

Essa desinformação tem uma consequência horrorosa, que é a captura da confiança nas instituições, nas marcas ou nas pessoas, de maneira intencional

Então, é perigoso demais o que está acontecendo, porque muito do que a gente está vendo dessa polarização também é fomentada. Não discordamos tanto quanto parece; existe uma indústria que se beneficia disso e do fomento às informações não fidedignas.

Mais do que nunca, é preciso fomentar o respeito e a crença nas instituições, por mais imperfeitas que elas ainda sejam, por mais jovem que seja a nossa democracia – porque mesmo as mais maduras e mais avançadas sempre tem o que melhorar e evoluir. 

Não é desacreditando as instituições que vamos melhorá-las, mesmo que a gente discorde da atuação indivíduo A, B ou C. Uma coisa é o indivíduo que está lá e que talvez não esteja honrando a posição que lhe foi outorgada, a outra é o vilipendiar da instituição em si 

Temos que agradecer a existência do Congresso, do Executivo, do Judiciário – e não torcer pelo fim das instituições, mas fortalecê-las e melhorá-las.

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Há dez anos, o Draft conversou com você. Neste período o que mudou na sua percepção de mundo e o que se cristalizou como caminho e propósito?

Só se fortaleceu, nessa década, a ideia de que é nesse espaço que quero estar e atuar, um espaço que permite essa integração entre a consciência sistêmica e o que eu esteja fazendo ou as organização com as quais estou conectada fazem. Que a vida é, de fato, o que deveríamos colocar em primeiro lugar, no centro, e todo o resto é acessório; temos que recalibrar aquilo a que atribuímos valor.

Tenho acreditado muito que as coisas caminham, mesmo quando parece que não estão caminhando, mesmo quando a gente não entende, se frustra e se enfurece. Tem uma frase da criadora da ideia de biomimética, Janine Benyus, que gosto muito: “A vida cria condições para preservação da vida”. Isso é uma grande verdade universal e absoluta. 

Nós, seres humanos, somos vida – e uma das espécies que habita esse planeta. Uma espécie poderosa e que deveria ter mais consciência do seu poder e do seu uso, mas que está aprendendo, eu acho. 

Independente do que a gente achar, esse planeta é muito maior que qualquer um de nós, a natureza é muito mais forte do que qualquer um de nós e será feito o que tiver que ser feito para a preservação da vida

Essa consciência talvez seja um dos grandes aprendizados desses últimos tempos e que tem a ver com maturidade. Fui aprendendo a trazer uma certa perspectiva e uma certa relativização para as coisas, o que não quer dizer que não me indigne profundamente com o que está equivocado e tem uma urgência enorme de ser mudado, seja no âmbito social ou no cuidado com o planeta, mas mantendo um certo distanciamento, para poder ter energia e seguir lutando.

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