O Spotify como ferramenta terapêutica: suas playlists são poderosos mapas de autoconhecimento

Adriano Silva - 23 jul 2021
(Imagem de Free-Photos por Pixabay.)
Adriano Silva - 23 jul 2021
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A música que você ouve define quem você é. Você está expresso – mais do que percebe e talvez mais do que gostaria – nas músicas de que gosta.

Quer se conhecer, se encontrar, saber mais de si mesmo? Ouça suas faixas prediletas. Pedagogicamente.

A música funciona como esse espelho revelador. Talvez porque ela ofereça um dos jeitos mais legais de mapear a sua existência. Estilos e sons são marcadores importantes das fases da vida da gente. 

Não se trata apenas da trilha que marcou esse ou aquele momento. A música que você ouvia em determinada época é mais do que isso: ela ajuda a entender quem você era e como você atravessou aquela fase de sua vida

Suas escolhas, suas rotinas, as pessoas com quem você convivia, o jeito como você enxergava as coisas ao seu redor e o modo como você lidava com elas, aquilo que você sentia, suas alegrias e suas dores, seus sonhos e frustrações. 

Está tudo lá. Para quem quiser ouvir. As canções que lhe tocam dizem muito de você. 

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Comecei a brincar de montar playlists no YouTube há uns dez anos. (Somente há pouco tempo as transferi para o Spotify.) E rapidamente percebi que isso era diferente de gravar mix tapes – ou de queimar CDs.

Tenho pouco mais de 4 mil faixas meticulosamente escolhidas e organizadas em torno de 100 playlists. Resultado de uma curadoria lenta e criteriosa. Saio à caça de uma determinada música, em uma determinada versão, com obstinação de colecionador. 

Esse mesmo respeito ao valor intrínseco, afetivo, de cada canção torna muito difícil a uma faixa que não signifique muito para mim ser incluída em uma das playlists.

Mix tapes eram amontoados de canções favoritas. Existiam para lhe gerar 60 minutos de prazer auditivo. Eram gostosas e refrescantes saladas de fruta – sem muita organização interna, sem muito valor imanente, sem muita transcendência.

Playlists – ao menos como as entendo – envolvem muito mais rigor e análise. Cada faixa tem uma razão para estar ali. E elas funcionam como gatilhos para o mergulho em universos íntimos e para o voo em infinitos particulares

Playlists lembram um pouco o velho conceito de álbum, de obra carpida com unidade temática – só que a ourivesaria e a edição são feitas por quem ouve, e não pelo artista que a compôs.

Playlists são marcadas pelo significado. Pelo impacto emocional. Pela capacidade de levar a uma determinada época. De trazer à tona um determinado sentimento – antigo ou novo. Pelo poder de gerar um certo mood, de produzir um ambiente, de criar um clima.

Mix tapes sonorizavam o ambiente. Playlists acontecem dentro da gente. 

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A música tem essa magia. Como um velho bruxo, posso sintetizar alegria. 

Posso voltar ao auge da minha vida como jovem adulto, ainda sem filhos. Como 20 e tantos anos, eu experimentava as primeiras conquistas e olhava para o caminho à frente com esperança e entusiasmo. 

Tinha uma banda, nada me prendia em lugar algum. Tinha todo o tempo (e toda a energia) em meu bolso — e a certeza serena de que o mundo era meu.

Reencontro esse paladar em faixas como “Secret Smile”, Semisonic; “Stolen”, Dashboard Confessional; “Chasing Cars”, Snow Patrol; ou “Maybe Tomorrow”, Stereophonics.

Também posso evocar a melancolia, essa velha companheira.

Posso voltar aos anos 70 — ou à ideia que faço daquela época, da minha infância profunda e do que foram aqueles anos cuja vibração chegava de forma difusa, mas nem por isso menos marcante, à minha sensibilidade em formação

Reencontro o sentimento triste daquela década vivida sob a égide do “the dream is over” em faixas como “When Will I See You Again”, The Three Degrees; “Oh Susie”, Secret Service; “Still the Same”, Bob Seger; ou “All for a Reason”, Alessi Brothers.

Posso voltar a ter 15 anos. Quando tudo era energia rebelde e desejo de transformação. Quando tudo era euforia e gesto radical.

Em faixas que me fazem querer dançar (ou poguear) até hoje: “Nicotina”, Os Replicantes; “Amnésia”, Cólera; “I Don’t Wanna Grow Up”, Ramones; ou “Até Quando Esperar”, Plebe Rude.

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Mas as playlists não expressam apenas quem fui, ou o que me construiu até aqui. Elas também ajudam a sintetizar novos estados de espírito que vão surgindo com a maturidade. 

Descobertas musicais recentes, novos gostos por novas sonoridades, exprimem e consolidam novas circunvoluções em minha jornada.

Recentemente, mergulhei no gênero Folk Music, encantado com a trilha da série This Is Us. E percebo o quanto esse interesse por música melodiosa, tocada no violão, com voz suave, harmonias delicadas e letras confessionais, introspectivas, traduz o tanto de calma e beleza que quero em minha vida, daqui para frente 

Embarco nessa roadtrip pelo (meu próprio) interior em tarde-perfeita-de-sol através de faixas como “Watch Me”, Labi Siffre; “Our House”, Crosby, Stills, Nash & Young; “Father and Son”, Cat Stevens; ou “Heartbeats”, José González.

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Sou tudo isso. E um bocado mais. Vou pintando quadros musicais com minhas playlists. Meu Spotify é uma galeria de autorretratos.

Espero que você tenha playlists bem construídas também. E que as use para se olhar no espelho. Como bússolas para navegar melhor dentro de si e se conhecer mais. Ou para conjurar alegrias num sábado de primavera, ou a dose certa de introspecção numa noite fria qualquer.

Se você ainda não as tiver construído, espero que este texto lhe estimule a montá-las. Melhor terapia não há.

 

Adriano Silva é fundador da The Factory e Publisher do Projeto Draft e do Future Health. É autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV A República dos Editores.

 

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