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Quem tem mais de 40 anos ainda se lembra de uma época em que não havia celular. O paulistano Xando Franzolim foi uma dessas crianças que cresceram em uma era analógica. Seu principal passatempo, ele lembra, era o desenho.
“Sempre morei em apartamento, não descia para brincar com a galera, era introvertido. E passei a desenhar.”
Seu talento ficou conhecido no colégio. Quando um colega queria uma caricatura de um professor ou precisava de alguém para ilustrar um trabalho, chamavam o garoto. “Era sempre eu a pessoa da sala que eles contavam para fazer um desenho.”
Hoje, Xando Franzolim, 41, está à frente da OIO, que se intitula “uma agência de ilustrações para todas as coisas”. No seu portfólio, a empresa apresenta projetos para marcas como BIC, Heinz, HBO Max, Localiza, TikTok e The New York Times.
Prestes a prestar o vestibular, depois de flertar com a ideia de publicidade por influência de um irmão mais velho,
Xando descobriu o design gráfico enquanto folheava um catálogo de profissões. Entendeu que aquela carreira combinava mais com ele, e acabou entrando na Mackenzie.
“Foi uma época muito feliz. Tive como professores Alexandre Jubran e Luiz Gê, os dois bem protagonistas do mercado… Minha orientadora foi a Zuleica Schincariol, tive o prazer de aprender com ela também”
Depois de estagiar numa agência que atendia o portal da Vivo, Xando entrou no mercado de apresentações corporativas.
“Fiquei três anos e meio na SOAP, na época era pioneira do mercado”, diz. “Depois saí e entrei na agência que o meu irmão criou como concorrente da SOAP, que se chamava MonkeyBusiness.”
A Monkey “começou num quarto”, diz Xando. Foi sua primeira experiência como empreendedor, ao lado do irmão e de outros sócios. “Com o tempo, a gente cresceu, a agência chegou a ter quase 30 funcionários.”
Em outubro de 2018, Xando se tornou pai. E com a paternidade veio um despertar de consciência:
“Quando minha filha nasceu, percebi que o ritmo que eu tinha na agência não ia ser saudável para a vida que eu queria ter”
Ele já estava há nove anos empreendendo com o irmão. “Era muito puxado, eu colocava a mão na massa em tudo”, diz. “Pegava roteiro, prospecção, atendimento — além da criação.”
Xando decidiu deixar a sociedade na MonkeyBusiness. Nesse meio tempo, sua esposa, Ana Paula Passarelli, estava começando a Brunch, sua agência de marketing de influência.
“Eu pensei: Bom, você já me ‘aturou’ por tanto tempo com o ritmo de agência, agora é a tua vez… ‘Vai lá e brilha’, e me deixe aqui com a nossa filha. Eu vou curtir esse momento”
Assim, Xando ficou um ano sem trabalhar, dedicando-se a cuidar da filha. Se essa fase foi um “privilégio imenso”, por outro lado havia uma questão de saúde mental à espreita.
Durante a década anterior, o dia a dia desgastante na agência e a complexidade da gestão de pessoas foram se acumulando e provocando um peso psicológico.
Além disso, Xando cita por alto algumas questões pessoais, “mais sensíveis”, que ocorreram na agência e nas quais ele evita se aprofundar. O fato é que havia uma crise instalada:
“Não sei se posso definir como burnout ou se existe outro nome, mas desenvolvi um trauma tão grande de empreendedorismo que achei que eu nunca mais fosse conseguir voltar a trabalhar…”
Quando, por fim, chegou a hora de se recolocar, ele teve dificuldades. Uma cláusula de não-competitividade o impedia de voltar ao mercado de apresentações corporativas — e a verdade é que ele não suportava mais ver slides.
Na antiga agência, muitos trabalhos eram feitos com sigilo exigido pelo cliente; assim, seu portfólio ficara defasado. Agora, ao tentar vagas em design, Xando encontrou as portas fechadas.
“Eu não consegui nada. E aí pensei: fodeu. Ninguém me quer, eu não consigo abrir o próprio negócio, o que eu farei? E do lado a minha filha, chorando…”
A saída seria superar esse ranço do empreendedorismo – agora, indo em uma nova direção.
O ano era 2020, começo da pandemia de Covid-19. Xando já vinha fazendo terapia há alguns anos — agora, online.
Ele conta como se deu o estalo:
“Teve uma sessão que me destravou completamente, parece que apertou um interruptor. Eu saí e pensei: ‘Preciso montar uma empresa neste exato momento’. E em meia hora criei a OIO”
O nome, diz, veio de “estar de olho”, como referência ao olhar criativo. “Pensei, preciso de um nome curto, de fácil pronúncia. E OIO é simples, é a menor palavra que a GoDaddy [empresa de registro de domínios e hospedagem de sites] aceita.”
Inicialmente, a empresa surgiu como um CNPJ para pegar frilas de design e emitir notas. Até que Xando teve uma sacada durante uma especialização em ilustração na EBAC.
Numa aula online, ele ouviu de Rico Lins um relato sobre o papel do agente de ilustradores — uma função e um mercado que inexistiam no Brasil.
“Comecei a ligar os pontos: ‘Aqui tem um caminho bom para mim…’ Eu já estava ficando cansado de ter que abrir o Photoshop para ficar criando, então fui pesquisar sobre o trabalho de um agente”
Xando entendeu que sua bagagem profissional ajudaria a suprir as lacunas da falta de conhecimento do trabalho de representação.
“Eu tive [experiência em] atendimento, prospecção, planejamento de projetos — que foi grande parte da minha carreira. Então pensei: vou tentar.”
Xando chamou alguns artistas que conhecia para montar o casting da OIO. “Comecei com seis. Cheguei a 40 nomes.”
Os clientes começaram a chegar, os projetos começaram a entrar, até que, analisando o negócio, Xando entendeu que a agência precisava de uma atualização.
“Eu precisava mostrar que a OIO não era um ‘CNPJ que eu criei saindo da minha terapia’; precisava mostrar profissionalismo, um posicionamento de mercado de quem pode entregar o trabalho com o mesmo crivo de outros grupos”
Ele implementou algumas medidas. Uma foi deixar a estrutura mais enxuta. “Reduzi meu casting, defini que meu limite seriam 20 nomes na agência”, diz Xando. (Hoje, a OIO tem 19 artistas no seu time e fica com uma comissão de 15% por projeto.)
Outro ajuste de posicionamento, sutil, teria sido influenciado pelas buscas online. A OIO até então se vendia como uma agência de ilustradores, mas na internet as pessoas pesquisavam por ilustrações.
“Foi uma mudança ‘pífia’, pequenininha, mas comecei a notar uma diferença comercialmente. Aumentou a demanda de empresas nos procurando”
Aliás, esse não foi o único ajuste fino verbal feito ao longo da jornada. Quando criou a OIO, Xando conta que ainda assinava com seu nome de batismo, Alexandre. Até que resolveu fazer um “rebranding de si mesmo”.
“No processo de buscar uma reconexão com a ilustração, que foi tão presente na minha infância, eu me lembrei do meu apelido de família e pensei: vou começar a me apresentar como Xando.”
A OIO coleciona alguns projetos que fazem brilhar os olhos dos clientes. Um deles fez parte de uma campanha que combinou uma caneta esferográfica e o maior dramaturgo de todos os tempos.
Criada pela VML para os 75 anos da BIC Cristal, a campanha utilizou IA para reproduzir a caligrafia de William Shakespeare e recriar, com a caneta de tinta azul, o manuscrito de Romeu e Julieta.
“A VML procurou a gente com esse projeto, estavam querendo um artista que pudesse trazer esse aspecto realista na ilustração”, diz Xando. E complementa:
“A gente chegou no nome do Antonio Luvs, eles adoraram o portfólio dele. Então, o Luvs foi o responsável por ilustrar a capa do livro e a abertura dos cinco atos [da peça]”
Artista analógico, Luvs estava preparado para fazer as ilustrações manualmente, segundo Xando, mas por uma questão de prazo foi preciso recorrer ao digital. “Foi um projeto com um cronograma muito curto, e muito exigente também na entrega.”
A campanha conquistou dois leões de prata e um leão de bronze no festival Cannes Lions, em 2025, e o manuscrito criado com a BIC foi doado ao Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro.
Apesar do sucesso, esse é um exemplo de trabalho em que a OIO entrou em uma fase adiantada. O reposicionamento da agência, diz Xando, tem a ver também com ser percebido não só como fornecedor, mas como potencial cocriador de projetos.
“Eu tenho artistas na OIO que não são só ilustradores, têm outros talentos. Por que não aproveitar esse talento e mostrar para o cliente que a gente consegue fechar um ciclo criativo [completo]?”
Um case recente ilustra essa perspectiva: o livro de receitas criado para a Heinz e distribuído durante uma ativação no TikTok Awards, no fim de 2025. A demanda veio da Just Live, agência que foi a responsável pela ativação da marca no evento.
“A princípio, foi um projeto que eles entraram em contato com a OIO, pedindo por ilustrações. Mostraram um mock-up 3D [do livro], ‘Olha, a gente quer um estilo parecido com os antigos livros de receita. Você tem alguém para indicar?’”
Xando sugeriu a Hellen Vieira, do casting da OIO, para equilibrar o resgate do passado com uma estética moderna. Nome aprovado, havia um desafio, o prazo curto.
“Pensei, uma pessoa sozinha vai ser difícil de atender esse briefing… Então, o que eu vou fazer? Fecho esse projeto como OIO, a Hellen entra como a ilustradora e diretora de arte, e eu trago outras pessoas para ajudarem a suprir essa demanda. E montei uma miniequipe”
Até então, a demanda ainda era apenas por ilustrações. Até que Xando perguntou: “E esse livro? Vocês que vão fazer ou querem que a gente faça?”. O cliente curtiu a sugestão e a OIO acabou tocando o projeto de ponta a ponta.
“Então a gente fechou o projeto gráfico do livro, fechou o arquivo com a gráfica, fizemos toda a parte de layout”, diz. “Foi um projeto em que conseguimos trazer mais artistas e fazer entregas que iam além da ilustração.”
Outro trabalho que ele destaca foi o Trauminhas, livro de colorir no estilo Bobbie Goods, porém em versão para adultos, ilustrando com traços fofinhos spoilers sangrentos de séries da HBO Max, como Game of Thrones e The Last of Us.
Ao todo, 11 ilustradores participaram do trabalho. “Foi um exemplo de projeto que eu consegui trazer muitas pessoas e fatiar um pouco esse bolo para que todo mundo pudesse participar.”
Sobre a ameaça da IA generativa ao emprego de designers e ilustradores, Xando afirma que, apesar dos lamentos de artistas repetindo nas redes o brado ludita de “queimem as máquinas!”, a demanda da OIO, pelo menos, “continua igual”.
“Talvez tenha projetos que fizeram cotação e não entraram, talvez o cliente tenha resolvido fazer com AI… Beleza, tudo bem. Mas a gente tem um objetivo de mostrar que o nosso trabalho tem uma execução humana.” E elabora:
“A execução humana conta com algo que a AI não tem: o improviso. Quantos trabalhos que já passaram por artistas que a OIO representa e representou e que o briefing apontava para um lado e o artista viu a oportunidade de ‘Entendi, mas dá uma olhada nisso daqui’…? E a ideia foi aceita”
Como forma de proteger o trabalho dos artistas da agência, ele conta que inseriu uma cláusula padrão que entra em todas as propostas da OIO: a de que aquele trabalho, por praxe, é único e não poderá ser usado para treinar modelos de IA.
“O artista fez para ser usado pra isso e ponto final. ‘Pô, quero desdobrar minha campanha…’ Não, você não pode. Você contratou [só] essa parte com a gente.”
Fundada na pandemia, a OIO não tem sede física. Os ilustradores estão espalhados pelo Brasil. “Eu tenho uma boa parte [de artistas] em São Paulo, tenho pessoas no Rio, em Curitiba, no Mato Grosso, Brasília…”, diz.
Trabalhando em home office, Xando continua dividindo a sua rotina entre a agência e a filha, Emma, hoje com 7 anos.
“A minha agenda é feita de OIO e Emma. Ela estuda à tarde, então toda manhã eu tô junto com ela. Aqui em casa, pela dinâmica de trabalhos, sempre ficou mais focado em mim: preparar comida para a escola, levar e buscar da escola…”
O combinado entre os pais é proibir o uso de telas, tirando a televisão. Ou seja, nada de entreter a menina oferecendo o celular.
Não chega a surpreender o fato de que, como Xando em sua infância, Emma pegou gosto pelo desenho.
“Ela está um absurdo desenhando, é incrível. Está com uma atenção muito legal nos detalhes. Tem coisas que eu ensinei, e que ela está fazendo”
Orgulhoso, ele conta que Emma fez amizade com uma menina do quinto ano, que conheceu no judô, e presenteou a amiga com uns “desenhos surrealistas”. E o presente fez sucesso:
“Ela falou, ‘Pai, dei um desenho pra ela e o pessoal da sala dela ficou elogiando, falando que não acreditava que fui eu que fiz!’.”
Formada em contabilidade, Kayka Couto vivia uma crise profissional quando buscou um curso de costura. Foi assim que destravou sua criatividade e fundou a Kuhra, marca de moda upcycling que produz acessórios com materiais inusitados.
Ele é biólogo. Ela trabalhou com marketing e tecnologia. Anderson Santos e Cris Muniz Araújo hoje tocam a Simbiótica, que engaja equipes e estimula a inovação nas empresas criando experiências como banhos de floresta e ativações sensoriais.
Daniel Lameira vinha de um burnout pensando em largar o mercado editorial. Até que um papo com Adriano Fromer levou os dois a fundarem a Seiva, uma escola e editora para inspirar pessoas a se reconectarem com elas mesmas pela via da arte.
