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Para superar uma crise financeira, mãe e filha transformaram uma receita de família em um negócio de sucesso

Fernanda Cury - 11 dez 2019
"Muitas vezes discordamos, mas paramos para analisar e entender o ponto de vista da outra e tomamos juntas uma decisão que ambas concordam”, conta Giovana.
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“Ao contrário do que muita gente pode pensar, eu nunca sofri nenhum tipo de pressão e, na verdade, nunca me pediram para que eu deixasse a minha carreira para trabalhar na NUT. Foi uma decisão 100% minha, por ter vontade de empreender e reconhecer na NUT a possibilidade de trabalhar para mim, para o meu sonho. Sempre tive muito orgulho da NUT. Nós somos muito felizes ao empreender em família e temos nossas dificuldades, faz parte. Mas enfrentar os desafios ao lado da sua melhor amiga, de alguém que só quer o seu bem, é muito bom. Nossa relação é muito boa, nos conhecemos muito e sabemos a visão de cada uma em relação às coisas. Muitas vezes discordamos, mas paramos para analisar e entender o ponto de vista da outra e tomamos juntas uma decisão que ambas concordam”, conta Giovana, logo no início da entrevista, mostrando que o empreendedorismo em família tem seus desafios, mas, também, muitas alegrias. Juntas à frente da Nut Biscoitos, empresa fundada por Cecília em 1997, elas explicam como nasceu o negócio e, suas mudanças ao longo do tempo e os planos para o futuro.

Como surgiu a ideia de empreender?

Cecilia: A ideia de empreender veio da necessidade. Há 20 anos a nossa família passou por uma instabilidade financeira e precisávamos de um meio para obter uma renda extra. Na ocasião, lembrei-me que minha mãe tinha uma receita de família do Biscoito Amaretto, ela costumava fazer para receber visitas em casa e era um sucesso. Decidimos então preparar algumas fornadas, vender para os amigos e colocar para revender nas lojas das minhas amigas.

Giovana: Quando a NUT começou eu era criança, lembro do cheiro que ficava na casa, por que no início os biscoitos eram assados no mesmo forno em que eram feitas as nossas refeições. Lembro, também, que depois de um tempo os pedidos aumentaram tanto que nem dava tempo de preparar o almoço, a gente tinha que comer fora. Eu cresci, fiz faculdade de administração e fui para o mercado. Depois de algum tempo, e certa experiência em ser funcionária de alguém, decidi ser funcionária de mim mesma e dedicar o meu trabalho para o negócio da nossa família, ou seja, meu próprio negócio.

O que vocês faziam antes?

Giovana: Antes de me dedicar integralmente à NUT eu trabalhei durante 8 anos na área de marketing de grandes empresas. Minha primeira experiência foi na COMGÁS como estagiária e depois trabalhei durante quase 6 anos na Editora Abril.

Cecilia: Minha experiência profissional sempre foi no mundo da moda! Trabalhei 10 anos como estilista de uma grande empresa e depois tive minha confecção e lojas de roupas infantis.  Na verdade, nunca pensei em trabalhar com alimento! Nossa fábrica, como já dissemos, nasceu de uma necessidade e acho que soubemos reconhecer a oportunidade.

Como nasceu a Nut Biscoitos?

Cecilia: A NUT nasceu há 20 anos, por uma situação de necessidade financeira que a nossa família passou. Na ocasião, eu e minha mãe decidimos fazer aqueles famosos biscoitos italianos, de receita da nossa família, para vender. A ideia inicial era vender para os amigos e oferecer nos estabelecimentos comerciais de alguns conhecidos. A produção era toda feita dentro de casa, na mesma cozinha em que eram feitas as refeições da família. Além de fabricar os biscoitos, nós também vendíamos, pegávamos os pedidos e fazíamos as entregas. Este sistema funcionou durante quase 3 anos até que em 2000 recebemos a ligação de uma grande rede de varejo interessada em servir os nossos biscoitos como acompanhamento de café nas cafeterias que seriam inauguradas em todas as lojas da rede. A partir daí tiramos a produção de dentro de casa, montamos uma cozinha profissional e formalizamos o negócio.

Explique-nos como funciona o negócio?

Giovana: Além dos biscoitos italianos, Amaretto e Cantuccini, produzimos uma linha de Amanteigados (são 6 sabores) e o nosso famoso Mini Pão de Mel. A produção é feita de forma semiartesanal. Os produtos são vendidos não só nos grandes varejistas, como também em empórios, mercados, padarias em embalagens de gondola, para serem revendidos para o consumidor final. Também vendemos a granel para restaurantes, lanchonetes, cafeterias, que utilizam os produtos como acompanhamento de café. Fabricamos, ainda, produtos exclusivos de algumas empresas, que são embalados com o logotipo do cliente e vendidos como marca própria. Além disso, vendemos diretamente para o consumidor final no nosso e-commerce. Temos o objetivo de produzir e vender um produto de qualidade, que seja percebido pelo consumidor como um carinho, um agrado, um presente que torna seu momento mais feliz. Nossos principais diferenciais são a qualidade dos produtos, que vai desde a fidelidade à receita original, a escolha dos ingredientes, a preocupação de cada etapa da produção e de todo o processo até chegar o momento do consumo, e o atendimento aos clientes, não importa se é a maior rede de varejo do Brasil ou um café pequeno de um bairro, todos os nossos clientes recebem o mesmo tipo de atendimento.

Como é a atuação de cada uma de vocês na empresa? 

Cecilia: Acredito que a nossa atuação é como a de todos os empreendedores que amam os seus negócios, fazendo de tudo! Se precisar vender, nós vendemos, se precisar atender os clientes, nós atendemos, se precisar entregar, nós entregamos, e muitas vezes colocamos a touca e vamos para a produção. Mas claro, que principalmente procuramos administrar a empresa em todas as suas áreas da forma correta, visando sempre a qualidade dos produtos, a saúde financeira da empresa e o bem-estar de nossos colaboradores. Na nossa estrutura atual, a Gi cuida mais de produtos e produção e eu fico mais com as vendas e parte administrativa, mas essa divisão funciona mais no papel do que na vida real mesmo.

Quais estratégias têm dado melhor resultado nesta trajetória?  

Giovana: A melhor estratégia é conhecer a fundo o seu negócio, identificar o que você sabe fazer de melhor, conhecer as deficiências do mercado e focar em ações que valorizem o seu trabalho.

Por outro lado, quais caminhos foram deixados de lado? 

Giovana: Nós já testamos muitas coisas que não deram certo, mas ao mesmo tempo aprendemos muito com todas elas. Acredito que todos os caminhos que fugiam do escopo do nosso negócio, ou da nossa forma de gerir a empresa, acabaram sendo testados e deixados de lado. Quando a gente entende o nosso lugar no mercado e foca as energias no que sabemos fazer de melhor, todos os caminhos neste sentido são válidos.

Quais as principais lições que você tirou desde o início da sua trajetória empreendedora até agora?

Giovana e Cecilia: São muitas lições, mas uma delas é que no início e até durante algum tempo, atendíamos a todos os pedidos especiais, fabricávamos produtos que não estavam no nosso portfólio (ex. rocambole, bem-casado) ou biscoitos em formatos diferentes dos nossos, ou com um ingrediente diferente, ou com algum tipo de mudança que saía da nossa produção normal. Eram pedidos especiais e em quantidade pequena que demandavam um tempo muito grande no planejamento, testes, produção dos mesmos, e que neste tempo estávamos deixando de produzir o que sabíamos fazer de melhor, que são nossos produtos de linha. Hoje entendemos no que somos boas e para atender esse tipo de pedido, estipulamos uma quantidade grande para valer a pena. Também aprendemos o quanto é importante investir em maquinário e não gastar em nada que não seja absolutamente necessário, conseguindo desta forma manter sempre uma reserva para o futuro.

Em 2017 vocês participaram do Programa Aceleração promovido pelo Itaú, certo? Por favor, contem seus aprendizados, as dificuldades que tinham antes e o que mudou na gestão do negócio após a participação?

Giovana: Sim! Em 2017 fui uma das 30 mulheres selecionadas para participar do Programa Aceleração, fomos a primeira turma, uma honra. O programa nos trouxe muitos aprendizados, o que mais impactou a nossa forma de ver o negócio foi te der um plano para seguir, ter feito a gente parar por um momento e pensar o que queremos para a nossa empresa e perseguir isso. Para mim uma das partes mais valiosas do programa ainda foi conhecer, dividir os problemas e conhecimentos com mais 29 mulheres incríveis com empresas dos mais diferentes ramos, e sempre acharmos uma forma de nos ajudar.

Quais as estratégias para superar os concorrentes? 

Cecilia: Nós buscamos superar os concorrentes fazendo o que sabemos fazer de melhor: um produto de qualidade e um atendimento com excelência.

Qual o maior objetivo de vocês?

Cecilia e Giovana: O objetivo de qualquer empresa, inclusive da NUT, é ter lucro, mas sabemos que este é apenas o resultado, a consequência natural de um trabalho sério, competente e que exige de nós muito empenho e dedicação. Acreditamos que iniciativas como a nossa geram um movimento importante na economia, geram possibilidades de emprego, de aprimoramento de produtos a serem oferecidos no mercado e de negócios em todas as áreas envolvidas. Mas, principalmente, nós acreditamos que se nesse processo nós conseguirmos melhorar a vida das pessoas, e, portanto, o meio que as cerca, seja dos nossos funcionários que trabalham num ambiente de respeito, seja de um consumidor que fica feliz ao receber um Mini Pão de Mel junto com seu café, aí estaremos cumprindo o nosso real objetivo.

Qual foi o maior desafio que vocês enfrentaram na vida empreendedora?

Cecilia: Acho que o maior desafio é todo o dia! É ter forças para resolver as questões que aparecem diariamente, tomar decisões importantes muitas vezes num curto espaço de tempo, ficar atento às finanças, as compras, as vendas, a produção, na burocracia exigida para a operação, na instabilidade da nossa economia e tudo isso ao mesmo tempo, e ainda não perder nunca o foco na criatividade, na inovação e principalmente na convicção dos nossos reais valores.

Giovana: Sem dúvida o maior desafio da minha vida empreendedora foi o primeiro passo. Foi deixar de lado a estabilidade, a carreira no mundo corporativo e todo um horizonte de possibilidades para me aventurar nesse turbilhão que é ser empreendedora. Sobre como superei, não sei se é superável, acredito que eu entrei no turbilhão e vivo nele até hoje, deliciosamente.

Qual a maior conquista de vocês até aqui?

Cecilia e Giovana: Não gostamos de atribuir as conquistas a nós. Todas as conquistas da NUT só aconteceram porque todos trabalharam juntos para esse fim, desde o pessoal da limpeza, até o pessoal da produção, o financeiro, vendas, nós mesmas. Acreditamos que a nossa maior conquista é hoje sermos procuradas e reconhecidas no mercado por conta da qualidade dos nossos produtos, do nosso atendimento e da seriedade do nosso trabalho, que é o que prezamos. Todas as outras conquistas são consequência dessa.

Qual é o sonho de vocês? O que ainda falta realizar?

Giovana: Ainda temos muitas coisas para realizar. Acredito que no momento o nosso maior sonho é mudar a nossa fábrica para um local mais apropriado para uma planta de produção, aonde poderíamos implantar diversas medidas para melhorar a produtividade, a qualidade dos produtos e o ambiente de trabalho dos nossos funcionários.

Se pudessem voltar no tempo e refazer uma decisão, corrigir algum momento da sua trajetória empreendedora, o que seria?

Cecilia: Não sei, porque acredito tudo que todas as ações, geraram um resultado que algumas vezes foram considerados negativos em um primeiro momento, mas em longo prazo nos trouxeram experiência e aprendizado e, portanto, se tornaram positivas.

Se pudessem dar apenas uma dica para quem está querendo empreender, qual seria?

Cecilia: Trabalhe muito, visando sempre ser um exemplo vivo de como você gostaria que o mundo fosse.

Quais seus planos para o futuro? 

Giovana: Estamos buscando aumentar a nossa rede de distribuição, conquistar novos clientes e o mercado digital e sempre desenvolver novos produtos.

 

Para saber mais:

Nut Biscoitos

O que faz: Biscoitos finos

Sócios: Paulo Motta Campacci e Giovana Campacci Diniz

Funcionários: 15

Sede: Rua Alvorada 285 – São Paulo

Início das atividades: 1997

Esta matéria pode ser encontrada no Itaú Mulher Empreendedora, uma plataforma feita para mulheres que acreditam nos seus sonhos. Não deixe de conferir (e se inspirar)!

 

 

 

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