“Passei os últimos dez anos tentando ser o Bill Gates. Só agora descobri que é muito legal ser eu mesmo”

Matheus Danemberg - 21 maio 2021
Matheus Danemberg, CEO e fundador da Nave.rs.
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Esse artigo é sobre a breve trajetória de um menino criado por uma mãe solo (com a ajuda dos avós maternos, um “clássico”), em Pelotas, no interior do Rio Grande do Sul.

Uma família humilde e trabalhadora, com uma educação extremamente simples — mas com muita inteligência para crescer.

A base dessa família foi o meu avô e a minha avó, que lutaram para construir dentro de casa um local seguro onde a pobreza não fosse um desafio diário para as próximas gerações.

Ele, pedreiro, e ela, funcionária de escola pública, construíram a melhor estrutura possível para que minha mãe e meu tio não precisassem passar pelo que meus avós passaram.

Foi o trabalho deles que proporcionou um ambiente minimamente estruturado — financeira e emocionalmente — para que eu crescesse e me tornasse quem eu quisesse ser.

Esse privilégio e a minha consciência sobre o esforço deles fizeram com que, desde pequeno, eu assumisse que tinha a missão de “ser alguém na vida”

Até hoje, levo esse pensamento não só como um objetivo, e sim uma obrigação.

Eu tenho a obrigação de dar certo. A obrigação de crescer e dar orgulho à minha família. Porque, no passado, eles fizeram de tudo para que eu pudesse fazer minhas escolhas.

MINHA MÃE SEMPRE ME INCENTIVOU A BUSCAR CONHECIMENTO

Minha mãe é uma pessoa extremamente racional. Nunca escondeu nada sobre a nossa realidade e sempre me educou pelo exemplo.

Ela também teve um papel ativo na minha formação intelectual. Desde que eu era pequeno, me ensinou que, quando eu encontrasse um desafio, poderia resolvê-lo procurando a resposta nos livros.

Sempre que chegava até ela com dúvidas, eu escutava: “Olha no Aurélio”, “Procura neste livro de biologia aqui”, “Já olhou na enciclopédia?”. Quando descobrimos a internet e o Google, a minha vida ficou um pouco mais fácil

Esse incentivo pela” busca de conhecimento” que a minha mãe tanto me dava (e não, ela não é o ET Bilu…) veio por meio do que ela encontrava dentro da realidade dela.

O foco dos meus avós sempre foi criar o ambiente adequado para que tivéssemos comida na mesa, um lugar próprio para morar e, o mais importante: tempo para estudar e ser alguém na vida.

E a minha mãe, com certeza, executou essa tarefa com maestria.

AS 11 LIÇÕES DE BILL GATES ME INSPIRAM ATÉ HOJE

Nessas tentativas de fazer com que eu tivesse foco no desenvolvimento pessoal e profissional, minha mãe realizou o que eu considero o movimento mais importante. E que, inclusive, utilizo até hoje.

Ela colou na porta do meu guarda-roupas as 11 lições de Bill Gates.

Eu ainda carrego essas lições comigo:

1) A vida não é fácil. Acostume-se com isso.

2) O mundo não está preocupado com a sua autoestima. O mundo espera que você faça alguma coisa de útil por ele antes de aceitá-lo.

3) Você não vai ganhar 20 mil dólares por mês assim que sair da faculdade. Você não será vice-presidente de uma grande empresa, com um carrão e um telefone à sua disposição, antes que você tenha conseguido comprar seu próprio carro e ter seu próprio telefone.

4) Se você acha que seu pai ou seu professor são rudes, espere até ter um chefe. Ele não terá pena de você.

5) Vender jornal velho ou trabalhar durante as férias não está abaixo da sua posição social. Seus avós tinham uma palavra diferente para isso. Eles chamavam de oportunidade.

6) Se você fracassar, não ache que a culpa é de seus pais. Não lamente seus erros, aprenda com eles.

7) Antes de você nascer, seus pais não eram tão críticos como agora. Eles só ficaram assim por terem de pagar suas contas, lavar suas roupas e ouvir você dizer que eles são “ridículos”. Então, antes de tentar salvar o planeta para a próxima geração, querendo consertar os erros da geração dos seus pais, tente arrumar o seu próprio quarto.

8) Sua escola pode ter criado trabalhos em grupo para melhorar suas notas e eliminar a distinção entre vencedores e perdedores, mas a vida não é assim. Em algumas escolas você não repete mais de um ano e tem quantas chances precisar até acertar. Isto não se parece absolutamente nada com a vida real. Se pisar na bola está despedido… RUA! Faça certo da primeira vez.

9) A vida não é dividida em semestres. Você não terá sempre férias de verão e é pouco provável que outros empregados o ajudem a cumprir suas tarefas no fim de cada período.

10) Televisão não é vida real. Na vida real, as pessoas têm que deixar o barzinho ou a boate e ir trabalhar.

11) Seja legal com os CDFs – aqueles estudantes que os demais julgam que são uns babacas. Existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar para um deles.

PASSEI A QUERER SER O NOVO BILL GATES (SEM ENTENDER O GRAU DE COMPARAÇÃO…)

Depois que conheci a história do Bill Gates — e de outras empresas de tecnologia que cresceram “do nada” a partir de jovens em suas garagens –, passei a ter certeza que esse seria o meu futuro.

Esse seria o meu jeito de vencer na vida!

Agora, dez anos depois do início da minha trajetória profissional, vejo que perdi completamente o controle desse sonho.

Essa minha ambição pelo crescimento e o grande sonho de ser o Bill Gates brasileiro me afetaram muito, psicologicamente. Depois de uma década, me encontrei em uma situação sufocante, imposta por mim mesmo

Tenho que ser sincero: analisando hoje, essa pressão que coloquei em mim pelo crescimento e por ter jogado a régua de comparação lá no teto fizeram com que eu conquistasse muitas coisas que minha família jamais imaginaria.

Conheci pessoas importantes, fiz negócios com empresas gigantes, tenho experiências profissionais incríveis e hoje tenho amigos e sócios que sei que posso contar para tudo.

Tenho essa consciência apenas agora, depois de muita terapia e reflexões sobre o assunto. O caminho foi duro, com muito choro, decepção e ansiedade. Além daquele que foi o divisor de águas na minha vida até o momento: um burnout que me aterrorizou.

DEPOIS QUE ME PERMITI ERRAR, PASSEI A ACERTAR MAIS

Nesse caminho entre a descoberta das lições do Bill Gates e o burnout (falo mais sobre ele daqui a pouco), muita coisa aconteceu.

Comecei a trabalhar aos 17 anos, passei por algumas empresas como programador. Com 19, me demiti para começar o meu primeiro negócio na área de tecnologia.

Eu acreditava fortemente que aquele negócio seria a minha vida, o que me tornaria o grande empresário de tecnologia.

Cerca de um ano depois, tudo terminou. E voltei para o mercado como programador decidido de que nunca mais iria empreender. Aquilo “não era pra mim”

Mas acabei repetindo o ciclo: trabalhei como programador, comecei um negócio em paralelo, me demiti… E outra vez falhei.

Só que algo tinha mudado em mim. Naquele momento, mais maduro, eu usei os ensinamentos da minha mãe.

Tinha estudado muito sobre negócios. Então, quando errei, tive maturidade suficiente para compreender os meus erros, aprender — e tentar de novo!

A lição número 6 das já conhecidas lições do Bill (sou “íntimo”) estava ali o tempo todo. Eu é que não tinha compreendido ainda.

A NAVE FOI O RESULTADO DE TODOS OS ERROS E ACERTOS PASSADOS A LIMPO

Depois dessa sequência de falhas, foram quase sete anos tentando emplacar algo.

Eu internalizei o ciclo de aprendizagem do Lean Startup, comecei a valorizar o processo de validação de ideias e entender que, no empreendedorismo, quando construímos empresas do zero, aprender com os erros é o principal combustível para o crescimento

Comecei a Nave.rs, uma software house, em agosto de 2017, com uma longa lista de aprendizados que proporcionaram um crescimento muito sólido e, ao mesmo tempo, rápido.

Eu tinha descoberto a minha “fórmula mágica”. O meu novo método era trabalhar duro, aprender com os erros, assumir riscos e focar no crescimento da empresa.

CONSEGUI FAZER A NAVE DECOLAR, MAS MINHA SAÚDE DESABOU

E isso deu muito certo para a empresa. Algo que começou pequeno na minha casa hoje se transformou em 70 pessoas espalhadas pelo Brasil, construindo plataformas digitais e apps cada vez mais eficientes.

Psicologicamente, porém, eu desmoronei.

No dia 31 de agosto de 2020, um sábado, às 22h — depois de mais de 14 horas de trabalho –, eu encontrei um erro em uma das muitas planilhas de planejamento.

Mais tarde, viemos a descobrir que aquele erro nem era tão relevante… Mas eu estava tão frágil psicologicamente que foi o gatilho para o burnout. Uma sensação horrível, ataques de pânico misturados com ansiedade. Eu achei que iria morrer, literalmente

Hoje, seis meses depois, ainda estou me recuperando do susto daquele sábado.

AGORA, BUSCO O EQUILÍBRIO E FUJO DAS COMPARAÇÕES

Depois de muitas conversas com a psicóloga, mãe, avós, namorada, amigos, sócios, conselheiros, clientes e colegas, cheguei em alguns aprendizados.

Boa parte deles soam como clichês. Mesmo assim, venho aplicando com sucesso — e podem ser úteis a você, se a sua história for parecida…:

1) O seu corpo e sua mente têm limites, eles precisam ser respeitados;

2) Se você está passando por algum problema, compartilhe com quem está próximo, peça ajuda;

3) É muito importante fazer benchmarking de empresas maiores, conhecer a história de grandes empreendedores, mas não foque em ser exatamente igual a eles. Viva a sua vida, aproveite e se divirta com a sua própria história.

Hoje estou em busca do equilíbrio psicológico.

Não me entenda mal: sigo querendo dominar o mundo. Inclusive, estamos abrindo outras empresas, realizando reuniões com fundos de investimento, contratando gente, enfrentando desafios maiores…. Só que, agora, respeito os meus limites — e peço ajuda quando preciso

Eu descobri que não preciso ter uma fórmula mágica, e nem mesmo saber qual foi a do Bill Gates. Só preciso construir a minha própria história.

 

Matheus Danemberg, 27, é CEO e fundador da Nave.rs, software house baseada em Pelotas (RS) que ajuda empresas a construírem, a partir de suas necessidades, produtos digitais completos. A Nave.rs já participou da criação de soluções de mais de 50 empresas, de startups e também grandes companhias dos setores bancário e agro. 

 

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