“Por que uma mulher com os peitos de fora na rua incomoda mais do que a desigualdade social ou a violência doméstica?”

Dani Rosolen - 6 mar 2020 Carolina Oms mostra o Penhas, criado pelo Instituto AzMina. O app pode ser baixado gratuitamente tanto em iOS quanto em Android.
Carolina Oms mostra o Penhas, criado pelo Instituto AzMina. O app pode ser baixado gratuitamente tanto em iOS quanto em Android (Foto: Nego Júnior).
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O movimento feminista no Brasil (com esse nome) surgiu no final do século 19, mas antes disso já existiam mulheres lutando por liberdade. No entanto, pouco ou nada aprendemos na escola sobre Dandara dos Palmares, Clara Camarão, Luisa Mahin, Maria Quitéria de Jesus e outras tantas protagonistas da libertação. Com jornalismo, tecnologia e informação, o Instituto AzMina honra essas histórias, promovendo a equidade de gênero e combatendo os diversos tipos de violência que ainda atingem mulheres brasileiras com três frentes: uma revista digital (Revista AzMina); um app de enfrentamento à violência doméstica (PenhaS); além de campanhas, palestras, eventos e consultorias.

O projeto nasceu em 2015 da percepção de que a sociedade tinha uma demanda muito grande por discutir feminismo. Isso já estava sendo feito por depoimentos nas redes socais e em em blogues, mas não de forma jornalística, com reportagens aprofundando o debate.

As sete cofundadoras (Carolina Oms, Carolina Vicentin, Helena Bertho, Larissa Ribeiro, Leticia Bahia, Nana Queiroz e Tamires Rodrigues) lançaram um crowdfunding para desenvolver o site, criar uma pessoa jurídica, contratar advogadas e dar conta de outras tarefas que não teriam como fazer voluntariamente. Carolina, 32, diretora-executiva do Instituto (e também colaboradora do Draft), afirma que desde o início a proposta era de que AzMina se tornasse um trabalho full time e as colaboradoras fossem remuneradas de maneira justa.

“A desigualdade de gênero também é uma questão econômica. Não adiantava discutir esse tema se estivéssemos explorando o trabalho das mulheres. A ideia sempre foi procurar a sustentabilidade financeira, mas isso demorou um pouco mais do que a gente esperava.”

O Instituto AzMina tem um modelo de negócio híbrido: 80% da receita vêm de fundações (financiamento de projetos específicos, como bolsas de reportagens investigativas); 10% da assinatura de leitores (apesar do acesso ao conteúdo ser gratuito, os apoiadores ajudam a manter um jornalismo de qualidade e remunerar o trabalho de apuração, checagem de fatos e produção de reportagens); e o restante vem de prestação de serviços para empresas (campanhas de marketing, palestras, workshops, e que geralmente representam um primeiro contato desse público com a temática).

Veja também: “Por que criei a revista AzMina e por que quero que ela não precise mais existir”, um Lifehackers de Nana Queiroz

Carolina, Helena e Larissa são as únicas fundadoras que permanecem ativas no projeto (há outras duas coleboradoras fixas). Leia a seguir o papo com Carolina, que está entre as finalistas do Troféu Mulher Imprensa 2020, na categoria Jornalista Empreendedora. O app PenhaS também concorre ao prêmio na categoria Melhor Projeto sobre a Temática Feminina. Os resultados saem no dia 9 de março (na torcida!). Ela fala sobre sua visão de um jornalismo feminista, casos de assédio, como combater o machismo e a luta de empreender nessa área.

 

O que é jornalismo feminista?
Tentamos falar sobre todos os assuntos, mas fazendo um recorte de gênero que interesse às mulheres. Podemos escrever sobre a Reforma da Previdência, mas mostrando como isso vai impactar especificamente as mulheres negras, as mães, as mais velhas. Quando a gente diz que não tem medo de dizer que é mídia feminista, é não ter medo de apontar essas desigualdades e opressões que são específicas às mulheres.

Como AzMina se posiciona diante de um governo que ataca a imprensa?
Desde a campanha presidencial, editorialmente, nos posicionamos contra a eleição do Bolsonaro, mas também nos mostramos abertas ao diálogo. E independente dessa posição contra o governo, que é misógino, ao fazer jornalismo ouvimos sempre os dois lados, temos o máximo de objetivo e imparcialidade possível, tentamos embasar nossas reportagens em dados, fazemos todas as apurações com fontes, sem “achismos” ou fake news. Temos transparência com a nossa posição editorial, mesmo assim seguimos os princípios básicos do jornalismo tradicional.

As mulheres podem ser tão machistas quanto os homens?
Uma mulher não pode ser machista, ela consegue apenas reproduzir o machismo, isso não é incomum. Estamos falando de um discurso dominante que influencia todos os ambientes, seja na família, na escola, entre amigos e que permeia toda a nossa criação. Para que a gente pare de reproduzi-lo, desde muito jovem, temos que estar num processo de desconstrução.

Quando a gente diz que uma mulher não pode ser machista é no sentido de que o machismo é a opressão das mulheres. Como alguém que não está nessa posição de poder na sociedade vai ser machista?

Num governo, quando você é uma ministra, você tem o poder político, mas se você não fez essa reflexão, vai continuar reproduzindo esse machismo na sua atuação profissional e política, com a diferença de que ali, fora da esfera pessoal, há ainda mais poder, então você vai estar oprimindo por meio do seu trabalho e das políticas públicas que você está colocando em prática outras mulheres. E a ministra Damares já está prejudicando as políticas que a gente tem em vigor de combate à violência doméstica ao desarticular as casas que recebem essas vítimas, não incentivar que se fale sobre machismo ao receber casos na delegacia de uma mulher que foi vítima de violência, prejudicar a distribuição de misoprostol, inclusive pra procedimentos de aborto espontâneo… Se uma ministra mulher está sendo parte ou reportando esse tipo de política, ela está reproduzindo o machismo. Nesse caso, a gente só tem que reforçar que não basta ser mulher para ter representatividade. É preciso ser feminista.

Como rebater argumentos machistas sem perder a paciência?
De um lado a gente tem que se manter aberta para o diálogo, pois essa é uma das poucas armas em uma democracia, ouvir o outro e tentar mostrar os nosso argumentos e os fatos. Por outro lado, é uma briga muito desigual, pois tentar dialogar e ser empática com quem faz esse tipo de discurso pode ser opressor com a gente mesmo.

Temos que entender que vivemos num mundo machista, que nos coloca num papel ou de guerreira ou de vítima. Se você é feminista, tem a “obrigação” de lutar, de ser aberta, de ser empática. Se você é vítima, sofre violência, sofre machismo. Nesses dois casos, essas posições são muito opressoras. Ou a gente é vítima de algo ou é obrigada a se posicionar. Acho que nesses momentos de crise, temos que primeiro nos preservar e depois, se for possível, dialogar, estudar o tema dentro de redes de apoio e coletivos feministas que possam ajudar na construção de argumentos.

Se você é feminista contra todo um discurso midiático e contra todo um sistema político que é machista, fica muito pesado. Mas se você está dentro de um movimento, de um coletivo, está lendo sobre o tema e fortalecida por outras mulheres e homens que estão desconstruindo essas opressões juntos, aí fica mais fácil

Que pequenas ações podem ser tomadas para incorporar o feminismo no dia a dia ?
Não se calar quando uma mulher está sofrendo algum tipo de violência, seja um assédio moral ou sexual no trabalho ou na rua, oferecer a mão para quem sofre violência doméstica, ter mais sororidade e acolher em vez de competir com as mulheres que estão a sua volta. Fazendo isso ninguém perde.

Você já passou por alguma situação de assédio?
Eu já sofri assédio no início da carreira em um grande jornal. Tinha um ano de formada e me mudei para Brasília, estava em um emprego que era, a princípio, temporário e me sentia bem insegura com a minha posição nesse lugar. Logo que me mudei, amigos falaram para eu tomar cuidado, pois sabiam que o editor era assediador. Na verdade, todo mundo sabia e mesmo assim a diretoria do jornal nunca tomou nenhuma atitude.

Lembro da primeira vez que fui dar um plantão nesse jornal. Eu escolhi a minha roupa (uma saia preta comprida larga e uma blusa de manga), com medo, porque ia ficar sozinha na sala com esse cara. Assim que cheguei, ele disse que eu estava bonita e perguntou se eu tinha me arrumado para ele. Eu não comentei nada, só abaixei a cabeça.

Aí ele foi me mostrar como eu devia fazer com a sala e me pediu para levantar, ir até até a porta e disse: “Calma, eu não vou me trancar aqui com você, embora isso não seja de todo mau. Eu só estou te mostrando como é que tranca a sala, porque aqui já teve assalto”

Foi só isso, mas já foi horrível por saber que várias outras mulheres já passaram por aquela situação e uma delas, inclusive, desistiu de trabalhar no local. Ele não me fez nada fisicamente, mas a gente sabe que o assédio não é só físico. Há diversas maneiras de agir e de afetar o profissional que está lá.

Os outros machismo são mais sutis, o machismo da fonte quando te chama de novinha ou ser preterida por outros homens na hora de ser promovida, o clube de bolinha na hora de escolher as pautas ou quem vai nas viagens de prestígio. Fora do trabalho, eu acho que todas nós já passamos por situações bizarras. No metrô, um homem já se masturbou na minha frente e ninguém fez nada. Eram 9h30 da manhã, na Sé, e nada aconteceu.

O feminismo tem a função de negociar ou incomodar?
Hoje, os homens têm muitos privilégios em relação às mulheres, desde salários mais altos, posições melhores no trabalho até a não divisão das tarefas de casa. Eles acham que isso é uma coisa pequena. Só um homem que não faz nada em casa pode achar que a não divisão de tarefas é uma reivindicação pequena. As mulheres que estão fazendo todo esse trabalho e cuidando das famílias, além de trabalhar fora, sabem o quanto pesa para cada uma delas tudo isso. Então, é óbvio que falar sobre esse tema vai incomodar.

É óbvio que as mulheres reivindicando o direito dos seus corpos, o direito a sua sexualidade, o direito a decidirem como esse corpo se expõe e como ele é visto, por mais que a gente tente falar disso da maneira mais sutil possível, vai incomodar, porque isso está tirando privilégios

Se só discutir sobre isso incomoda, imagina quando, de fato, as coisas começarem a sair do discurso e ir para a realidade! Quando as mulheres começarem a ocupar posição de poder na política, nas empresas, em todos os lugares. Enquanto isso, o que nós feministas estamos fazendo é falar, é dialogar sobre os fatos.

Dizer que os peitos de fora de uma mulher na rua estão incomodando é coisa de machista. Por que tem tanto homem incomodado com isso em vez de se preocupar com a violência, com desigualdade social, com todas as mulheres que sofrem violência entre quatro paredes?

AzMina trata de uma beleza diversa, retratando corpos plurais. Vocês conseguem pautar a mídia nesse aspecto?
De maneira geral, pautamos a mídia tradicional bastante, principalmente levando em consideração nosso tamanho. Mas, os veículos femininos são obrigados a mudar por pressão do próprio público e não por um movimento interno.

A questão do padrão de beleza parece algo banal, mas é também uma maneira de controle dos corpos das mulheres

A partir do momento que você passa a colocar em pauta por que uma mulher faz dieta a ponto de ficar debilitada fisicamente, por que não sai de casa sem estar maquiada ou não se permite fazer coisas porque seu corpo não está assim ou assado, você começa a discutir essa libertação.

Esses feminismos empresarias, esses feminismo da grande imprensa, têm uma limitação ainda nesse sentido porque fazem isso como uma estratégia pontual. Vai ter uma ou duas vezes no ano uma mulher gorda na capa, mas quando abrimos a revista, a publicidade inteira é branca, magra, jovem. As mulheres negras, gordas, lésbicas, não-binárias, mais velhas vão eventualmente ser colocadas ali. Isso não tem que ser colocado como cota de diversidade, porque na verdade a exceção é a mulher branca, jovem, magra e heterossexual que se encaixa perfeitamente dentro desses padrões. Se você coloca a exceção como regra, ainda que uma vez no ano você faça uma capa de revista que celebre a diversidade, isso não é suficiente.

Como é empreender com jornalismo, e dentro de uma temática de gênero?
No jornalismo, a gente está falando de uma indústria em crise no mundo todo e que precisa de novos modelos e de pessoas tentando coisas diferentes.

No recorte de gênero, as mulheres sempre empreenderam por necessidade, contando com um rede de networking não tão boa quanto a dos homens, tendo que trabalhar em casa, sem acesso a financiamento e com mais chances de ver seus empreendimentos morrerem por falta de receita. Então, é importante que a gente faça esse diagnóstico e trabalhe para mudar isso. Um desse passos para mudar é prestigiar, dar voz e alcance a iniciativas que estão dando certo.

AzMina já está fazendo cinco anos, estatisticamente já superou os três anos que costumam durar uma startup. A gente cresceu, já tem uma sala num coworking, cinco pessoas em tempo integral, nossa receita de 2020 está garantida. Tudo isso é realmente motivo de orgulho. É preciso celebrar nossa história tanto para que outras mulheres conheçam os modelos que dão certo quanto para que elas se inspirem em criar seus próprios formatos.

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