Preparar o time para o trabalho remoto será crucial para a produtividade da sua empresa. A Officeless ensina o caminho

Dani Rosolen - 13 dez 2021
Rafael Torales, CEO e cofundador da Officeless.
Dani Rosolen - 13 dez 2021
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Sua empresa adota o home office ou o trabalho remoto? Se engana quem acha que os dois são a mesma coisa.

“Muitas vezes utilizamos esses termos como sinônimos, mas o home office é uma das possibilidades do trabalho remoto, que não se resume ao local onde a pessoa está, mas à forma de pensar da equipe”

Quem diz isso é Rafael Torales, cofundador da Officeless, plataforma digital que oferece treinamento para líderes adotarem o trabalho remoto (ou híbrido) em suas organizações.

Desde 2017, Rafael toca o negócio junto dos amigos Renato Carvalho e Flavio Ludgero. A empresa começou como um movimento que busca incentivar a prática do trabalho remoto, mas a adesão a esse modelo foi crescendo ao longo dos anos — até que veio a pandemia e acelerou a “mudança de chave” nas organizações.

Hoje, mais do que divulgar o trabalho remoto, a Officeless ajuda empresas a adotarem a mentalidade remote first (a gente explica o termo mais adiante) e colabora para que as pessoas consigam unir sonhos profissionais e pessoais, sem que o trabalho seja um empecilho para que elas vivam em outro país, por exemplo, ou morem na praia, longe do escritório da firma.

Em quatro anos, cerca de 6 500 líderes já realizaram o treinamento da Officeless e grandes corporações e startups já contrataram esse serviço, entre elas Ambev, Catho, ContaAzul, Loft, Lojas Renner, Sebrae, Sicredi e Vale, além de entidades jurídicas como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal de Contas da União (TCU).

DE UM TRABALHO NO MINISTÉRIO PARA O ESQUEMA REMOTO NA AUSTRÁLIA

Rafael é formado em publicidade e design. Renato é da área de TI, e Flavio, da administração. Os três se conheceram em 2003, quanto trabalhavam no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

O trio esteve junto no ministério até 2008, quando Rafael e Renato decidiram que era hora de cair na estrada. “Decidimos largar tudo e viajar o mundo”, diz Rafael. “Fomos morar na Austrália, mas sem programar o que iríamos fazer.”

Na verdade, Renato ainda estava fazendo as malas quando recebeu uma proposta de uma empresa americana, a Surgeworks, para uma vaga remota.

“Naquela época, falava-se pouquíssimo  sobre esse esquema de trabalho, então havia milhões de dúvidas”, diz Rafael. “Mas o Renato aceitou e, depois de uns meses, me chamou também, pois a equipe estava precisando de designers.”

Foi assim que os dois, morando na Austrália, tiveram a primeira experiência com o trabalho remoto.

 “Começamos a ver que dava para trabalhar à distância em projetos criativos, mesmo sem muitas das ferramentas que usamos hoje [e nem sequer existiam], como WhatsApp e Google Meet”

A dupla cogitou até entrar na sociedade da empresa norte-americana. Deixaram, porém, a ideia de lado e, de volta ao Brasil, abriram seu próprio negócio: a Startaê, um estúdio de design para empresas de tecnologia. Flavio se juntou aos dois e embarcou como fundador na nova empreitada.

A STARTAÊ VIROU REFERÊNCIA SOBRE TRABALHO REMOTO

Segundo Rafael, a empresa começou a atuar no esquema remoto porque já era algo que os sócios valorizavam. Mas alguns fatores do mercado também influenciaram a adoção do modelo.

“Sempre quisemos trabalhar com startups, mas éramos de Brasília — e se a gente fosse depender do mercado local, não alcançaríamos esse público. Com o modelo remoto, conseguimos atender clientes do Rio, Minas, São Paulo e até do Vale do Silício, além de contratar pessoas de qualquer lugar do Brasil.”

A Startaê, afirma o empreendedor, sempre investiu fortemente na cultura interna para que os colaboradores tivessem flexibilidade e se sentissem pertencentes à empresa, mesmo de longe.

Os sócios foram ganhando  experiência, se tornando referência no assunto, e começaram a compartilhar esse modus operandi. Foi assim que surgiu o projeto Officeless, em 2017.

“A gente oferecia workshops remotos mostrando como era a nossa cultura, a relação com a equipe e com os clientes, como passar credibilidade e profissionalismo à distância etc.”, afirma Rafael.

Ele lembra que o pessoal saía bem empolgado dos workshops:

“A galera que passava pelas aulas ficava enlouquecida, pensando que, se mais empresas adotassem esse modelo, aconteceria uma grande revolução… Seria uma nova forma de pensar, que impactaria a sociedade, as relações de trabalho e as cidades”

A ficha caiu e o trio decidiu investir para transformar o movimento Officeless em um negócio, levando a proposta do trabalho remoto a mais organizações.

A OFFICELESS CONSEGUIU ESCALAR COM CURSOS GRAVADOS

Em 2017, a renda da Officeless ainda era curta, mas os workshops foram um jeito de validar o conceito. Assim, em 2018, os sócios decidiram escalar para aumentar o impacto e o faturamento.

A ideia era gravar um curso online, mais robusto do que o workshop. Para isso, contrataram uma produtora. “Foi um trabalho de cerca de três meses só para captar o conteúdo, depois vários meses em edição e pós-produção.”

Os três fundadores da Officeless, Rafael Torales, Renato Carvalho e Flávio Ludgero, junto de Renato Contaifer, Head de Conteúdo.

No final de 2018, veio a bomba. Depois de todo esse tempo e esforço, a produtora teve um problema: o HD caiu no chão e eles perderam tudo.

A intempérie não abalou o time. O trio preferiu, então, inverter a lógica.

“Em 2019, primeiro fechamos uma turma online. Depois, começamos a gravação, entregando um módulo por semana. O curso acabou ficando até mais legal.”

E dessa forma, o negócio começou a dar retorno financeiro. Naquele ano, o faturamento foi de 430 mil reais. Mesmo assim, ainda era preciso gastar saliva fazendo um trabalho de convencimento das empresas sobre o valor do modelo.

TRABALHO REMOTO PANDÊMICO NÃO É O MESMO QUE TRABALHO REMOTO

Naquela época, afirma Rafael, a maioria das organizações achava que o trabalho remoto era uma proposta muito legal, mas havia sempre um “porém”. Muitas faziam a ressalva de que o modelo era incompatível com o tipo de trabalho que elas executavam.

“Aí veio, a pandemia para mostrar que era possível e as empresas começaram a se abrir para o novo, depois de vivenciar essa experiência na marra”, diz.

A Covid acelerou o processo. Mas é preciso fazer uma distinção:

“A maior parte das empresas do Brasil e do mundo pôde dizer que tinha equipes remotas na pandemia. Mas há muita diferença entre ter uma equipe remota e uma que trabalha à distância com essa cultura”

Segundo o empreendedor, o que grande parte das equipes vivenciou foi um trabalho remoto pandêmico, cheio de limitações — sem, portanto, as flexibilidades que o remoto propicia.

Por outro lado, com o aumento de “pedidos de ajuda” durante a pandemia, o negócio cresceu. Em 2020, o faturamento chegou a 1,6 milhão de reais e fez os sócios descontinuarem o Startaê para se dedicarem exclusivamente à Officeless, trazendo parte da equipe antiga para o projeto. Hoje, 15 pessoas fazem parte do time. E, claro, todas trabalham à distância.

O foco exclusivo na Officeless valeu a pena. Em 2021, a perspectiva é fechar o ano com quase 8 milhões de reais de receita. Os planos são ambiciosos: “Até final de 2023, queremos crescer dez vezes”, diz.

COMO IMPLANTAR UMA CULTURA REMOTE FIRST

Entretanto, de nada adianta as empresas adotarem em massa o trabalho remoto ou o modelo híbrido sem uma transformação profunda e genuína da sua cultura. Segundo Rafael:

“Mesmo que haja uma única pessoa remota na empresa, todos têm que se adaptar e repensar a comunicação, quais ferramentas usar etc. Caso contrário, você terá duas culturas — e, lógico, quem estiver fora do escritório nunca vai se sentir pertencente”

Para driblar esse dilema, diz Rafael, as empresas precisam adotar a mentalidade remote first. Na prática, significa transferir toda a infraestrutura da organização para o ambiente digital (permitindo que quem está distante se inteire das atividades realizadas ali), mudar a forma de gestão e os indicadores de produtividade e adotar uma comunicação assíncrona.

Nesse formato, explica Rafael, o chefe não precisa convocar o time para uma reunião, basta usar uma ferramenta para compartilhar sua proposta ou gravar um vídeo:

“O colaborador não precisa ficar o tempo inteiro em frente à tela, podendo escolher trabalhar no horário em que se sente mais produtivo”

Empresas num nível mais avançado de adoção do remote first, afirma Rafael, conseguem perfomar tão bem à distância (ou ainda melhor) do que presencialmente. Mas para que isso funcione, os colaboradores também precisam mudar a mentalidade, criando uma rotina para ativar o “modo trabalho”, independente do local onde estiverem.

“Quando vamos para o escritório existem alguns gatilhos, como acordar com o despertador, tomar café, se deslocar, chegar no escritório, abrir o computador, voltar pra casa e se desconectar. Mas quando não existe isso, o que temos visto é as pessoas acordarem e irem dormir conectadas — resultando nessa explosão de casos de burnout.”

A EMPRESA ABRE SEIS TURMAS POR ANO E OFERECE OUTRO CURSO CUSTOMIZÁVEL E EXCLUSIVO PARA LIDERANÇAS

Hoje, a Officeless oferece dois tipos de treinamentos. Um aberto, “Liderança Officeless”, para líderes de qualquer empresa interessados em participar. O modelo do curso (2 298 reais) é híbrido, com aulas gravadas e encontros ao vivo no online. São abertas cerca de seis turmas por ano.

O segundo tipo de treinamento, exclusivo, é voltado a empresas que querem contratar e customizar o curso para seus líderes. Neste caso, a Officeless exige uma turma mínima de 50 pessoas e oferece descontos progressivos na taxa de inscrição que podem chegar a 50% de acordo com o número de participantes.

Ainda no atendimento a empresas, a startup oferece a venda de seus cursos para universidades corporativa, com licença anual de 200 mil reais.

DA CATHO AO TCU, CONHEÇA AS ORGANIZAÇÕES QUE QUEREM SER “OFFICELESS”

Rafael lembra que, quando se pensa em varejo, parece difícil imaginar o trabalho remoto sendo aplicado. De fato. Mesmo assim, o Grupo Renner é um dos clientes da Officeless.

“Eles fizeram uma transformação gigante, adotando essa cultura de remote first para os colaboradores do back office. Inclusive, o Grupo Renner já está até num estágio mais avançado desta mentalidade, investindo numa comunicação assíncrona, o que permite às pessoas trabalharem em fusos e horários diferentes”

Outra companhia que — mesmo antes da pandemia — contratou o serviço da plataforma foi a Catho. Para adotar o esquema remoto, a empresa queria investir em grandes salas de vídeo conferência, mas foi dissuadida com a assessoria da Officeless.

“A gente foi mostrando que esse tipo de ambiente acaba criando separações entre quem está na sala e o pessoal que trabalha à distância e fica tentando acompanhar o que acontece no local”, diz Rafael.

A sugestão dos especialistas em trabalho remoto foi: em vez de investir em salas de conferência, a Catho deveria adotar cabines menores, onde cada um poderia participar da reunião de seu computador.

“Com essas e outras mudanças, eles contaram que os escritórios estavam ficando cada vez mais vazios… Mas a empresa estava bem com isso, pois os colaboradores passaram a produzir de onde se sentiam mais confortáveis”

O portfólio da Officeless inclui outros cases. Entre os clientes, chamam atenção o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal de Contas da União.

“O TCU já era mais de vanguarda e adotava o modelo home office antes da pandemia, mais ainda com vária travas, como a pratica de diferenciar quem trabalha à distância, impondo que o funcionário produzisse 20% a mais do que no presencial. Mas atendendo eles, conseguimos quebrar essa barreira.”

MESMO COM VACINA NO BRAÇO, AINDA FAZ SENTIDO VOLTAR PARA O ESCRITÓRIO?

Com o avanço da vacinação, Rafael diz que agora que, de fato, as pessoas poderiam aproveitar melhor as flexibilidades do trabalho remoto, com a possibilidade de executar as atividades de diferentes locais – não só de casa –, muitas organizações estão optando por voltar ao presencial ou ao híbrido (deixando algumas pessoas em casa, mas querendo que, no final das contas, todos voltem para a sede).

“A gente vê as pessoas voltando hoje para os escritórios para ficar o dia inteiro em reuniões do Zoom ou mandando e-mail para quem está do lado… Será que elas precisavam percorrer todo um trajeto para estar ali, sendo que hoje a tecnologia permite que o trabalho aconteça de qualquer lugar?”

Lá fora, essa exigência das empresas para que os funcionários voltem aos escritórios parece estar gerando uma onda de pedidos de demissão, num movimento batizado de Great Resignation (ou Grande Demissão).

Antes, éramos condicionados a ser produtivos em “horário comercial”, das 8h às 18h, afirma Rafael; agora, o trabalho remoto permite o autoconhecimento e o autodesenvolvimento para que cada um entenda de que forma consegue trabalhar melhor. Então, por que não aproveitar essa possibilidade?

PARA O FUTURO, O PLANO É OFERECER EQUIPAMENTOS E COWORKING PARA INCENTIVAR AINDA MAIS O TRABALHO REMOTO

Enquanto algumas empresas dão um passo para trás, a Officeless foca nas que já pensam em adotar uma comunicação assíncrona e vêm o trabalho remoto como uma chance de melhorar sua estrutura e sua produtividade.

Hoje, a empresa já reúne uma comunidade com mais de 3 500 líderes que semanalmente recebem atualizações sobre dicas para melhorar o trabalho remoto, relatos de experiências, indicações de ferramentas etc. A Officeless também conta com materiais de apoio, abertos mesmo para quem ainda não faz parte do grupo.

Um próximo passo, segundo Rafael, é oferecer na plataforma mais produtos e serviços que possam ajudar esses líderes e empresas no trabalho remoto — como equipamentos, estrutura de coworking etc.

“Nosso objetivo é tentar cada vez mais conectar nessa plataforma parceiros e marcas para fazer o trabalho remoto acontecer e ajudar as pessoas a realizem seus sonhos.”

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DRAFT CARD

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  • Projeto: Officeless
  • O que faz: Oferece cursos para ajudar líderes a adotarem o esquema remoto ou híbrido em suas equipes
  • Sócio(s): Flavio Ludgero, Rafael Torales e Renato Carvalho
  • Funcionários: 15
  • Início das atividades: 2017
  • Faturamento: R$ 8 milhões (2021)
  • Contato: [email protected]
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