Qual era o seu sonho durante a faculdade? Conheça o jovem que criou uma rede de empreendedorismo universitário

Fernando Guerreiro Cunha - 22 jul 2022
Fernando Guerreiro Cunha, cofundador da rede de ligas de empreendedorismo Vortex.
Fernando Guerreiro Cunha - 22 jul 2022
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Desde criança, eu tenho fome de conexões. Adorava “organizar festas” — só com os meus brinquedos, de aniversário surpresa e até feijoadas beneficentes do Interact Club da minha cidade, Votuporanga (SP).

Para mim, sempre foi muito claro a potência das conexões para desenvolver novas perspectivas, empatia e viver outras realidades. E percebia como as “festas” possibilitavam isso. Quanto mais diversas, mais diferentes eram essas conexões, mais amplitude e potencial passavam a ter

Essa percepção me trouxe muitos tipos de informação, conhecimentos, experiências, vivências e, principalmente, uma visão mais sistêmica do mundo ao meu redor.

Quando estava no começo do colegial, entendi que o meu papel era impactar a vida das pessoas. Vi como meio de fazer isso ingressar na faculdade de Medicina.

Porém, com o passar do tempo, percebi que o impacto em apenas uma área, a da saúde, não me encantava de forma suficiente — apesar de todo cuidado e beleza da profissão de médico.

ABANDONEI A IDEIA DE PRESTAR MEDICINA E ME INSCREVI EM VESTIBULARES DE ECONOMIA

Tomei consciência que não fazia sentido cursar algo que, na minha visão, me limitaria logo de cara e que levaria vários anos para começar a impactar a vida das pessoas.

Nesse momento, decidi prestar alguns vestibulares para o curso de Economia. Passei na UFSCar de Sorocaba, em 2019, e muitas pessoas ao meu redor comemoraram. Mas eu mesmo sabia que as comemorações ainda estariam por vir.  

E adivinha: quando cheguei na faculdade, me deparei com outros tipos de pensamentos, só que também limitados, muito tradicionais…

Tentei me envolver com algumas iniciativas que já existiam ali, mas quando as pessoas percebiam a minha vontade de mudar, de criar algo novo, esquivavam-se.

PASSEI A PESQUISAR SOBRE O UNIVERSO DA INOVAÇÃO E DAS STARTUPS — ASSUNTO POUCO COMENTADO NAS AULAS DA FACULDADE

Comecei a pesquisar e conversar com outras pessoas sobre possíveis caminhos para desenvolver essa mudança que eu tanto almejava no dia a dia da vida universitária.

E aí, cheguei na área de tecnologia e em algumas palavras: “startups”, “negócios de impacto social” e “inovação”. Assuntos raramente falados na minha sala de aula de Economia. Entendi que ali estava o meu ponto de mudança.

Com essa sede de ver outras realidades e cenários diferentes, visitei sete universidades para entender quais eram as possibilidades, o que elas faziam e como abordavam esses assuntos e o que se adaptava melhor no meu campus

Percebi que me sentia mais familiarizado nestes lugares do que na minha própria universidade. Nesse momento, me reuni com outros jovens da minha turma e decidimos criar uma liga de empreendedorismo.   

COMO AJUDAR JOVENS A SE ENVOLVEREM COM O ECOSSISTEMA EMPREENDEDOR AINDA NA UNIVERSIDADE

As ligas de empreendedorismo são organizações estudantis extracurriculares que têm como objetivo fomentar o empreendedorismo, a inovação, e formar os empreendedores enquanto eles ainda estão na universidade.

A primeira delas foi fundada no Brasil em 1998. Atualmente, existem mais de 97 ligas de empreendedorismo espalhadas em 100 universidades.

Ainda grande parte do país empreende por necessidade e é um dos propósitos das ligas envolver tecnologia, escalabilidade e impacto social nas empresas que surgem a partir delas.

As ligas de empreendedorismo, o Movimento Empresa Júnior e a Enactus atuam como catalisadores da educação e transformação brasileira através do empreendedorismo

Fernando (no centro) e membros da liga de empreendedorismo da FGV (foto: Helena Foragi).

Enquanto as empresas juniores auxiliam empreendedores através de consultorias, as Enactus realizam projetos sociais de impacto a fim de que esses cresçam e sejam autossustentáveis. Já as ligas de empreendedorismo auxiliam na criação de empreendedores e startups.

Delas saíram vários empreendedores que mudam não só seu cenário, como a vida de muitas pessoas, fundado startups com soluções de impacto.

Entre esses fundadores, cito Carolina da Costa, da gal, rede agregadora de salões de beleza que leva tecnologia e técnicas para cabeleireiros de bairro.

Também destaco Alex Azar Apter e João Pedro Simone, da WORC, plataforma que auxilia restaurantes a encontrar colaboradores.

NOSSO OBJETIVO É INSPIRAR ESSES FUTUROS EMPREENDEDORES E OFERECER A ELES CONEXÕES RELEVANTES

Com a liga na minha faculdade, já me sentia em um lugar satisfatório, mas as conexões ainda mantinham-se restritas. Era muito difícil a interação com pessoas de outros locais.

Dessa forma, conversando com membros de outras ligas, vimos a necessidade de criar uma estrutura federativa. Assim, em maio de 2020, nasceu a rede de ligas de empreendedorismo Vortex

Nosso principal objetivo é fortalecer e criar oportunidades para as ligas, fazendo com que as universidades brasileiras atinjam todo o seu potencial para a criação dos futuros empreendedores

Desde nossa fundação, já ajudamos 18 ligas a serem criadas em 18 universidades, impactando 30 mil jovens.

Eu sempre entendi que a Vortex precisava ser um lugar diverso. Queria pessoas que representassem o Brasil todo, jovens que fossem capazes de inspirar e também de gerar resultados de impacto.

Se as ligas são um lugar de inspiração, a rede de ligas também tem o papel de inspirar e conduzir esses grupos para que atinjam seu maior potencial.

Conseguimos que membros de dez estados participassem da administração da rede — existem ligas em 18 estados do país.

CONSELHOS DE QUEM JÁ FOI LÁ E FEZ SÃO ESSENCIAIS NA CONSTRUÇÃO DA JORNADA EMPREENDEDORA

Além disso, uma grande chave para o aprendizado, tanto meu quanto dos empreendedores e das ligas, são as mentorias com empreendedores e pessoas experientes do mercado.

O estudante tem o conhecimento, mas não tem experiências suficientes para saber como aquilo pode ou não funcionar na prática. O conhecimento aliado à experiência possibilita que novos caminhos sejam enxergados pelo jovem empreendedor

Tive a oportunidade, por exemplo, de trabalhar com o Renato Freitas, fundador da 99, ouvindo seus conselhos para muitas startups e outros jovens e entendendo o quão importante aqueles conhecimentos eram.

O que a rede de ligas de empreendedorismo tem de mais potente é justamente expandir a conexão e gerar acesso para todas as ligas a mentores, empreendedores inspiradores e pessoas que representem seus membros.

QUEREMOS QUE OS ESTUDANTES SE VEJAM COMO EMPREENDEDORES POTENTES E GERADORES DE IMPACTO

No período em que estava escrevendo esse texto, fui à exposição da escritora Carolina Maria de Jesus, no IMS, em São Paulo. Na ocasião, fui guiado por uma educadora negra e, ao final, perguntei como é exercer esta função em uma exposição tão necessária e potente.

Ela respondeu que antes da exposição não conhecia a escritora e que ficou até com raiva de ter sido privada de uma inspiração que a representava. E é nesse sentido que a Vortex gera oportunidades.

Queremos que as pessoas se vejam como empreendedoras potentes, que entendam-se como geradores de impacto e tenham estruturas promovidas pelas suas universidades, pela Vortex e pelas ligas para que isso seja possível

Estamos buscando e trazendo grandes empreendedores de todos os cantos, raças e histórias para apoiarem nossa proposta, as ligas e o movimento empreendedor universitário, para que assim o futuro do Brasil seja mais diverso, inclusivo e tecnológico. Vem com a gente!

 

Fernando Guerreiro Cunha, 21, é estudante de Economia da UFSCAR e cofundador da Vortex.

 

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