“Quando caí do cavalo e perdi os movimentos, a voz do meu pai – ‘Pedro, as pessoas não gostam de gente triste’ – me voltou à cabeça”

Pedro Janot - 3 dez 2021
Pedro Janot, executivo, mentor e escritor.
Pedro Janot - 3 dez 2021
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Quando eu tinha 10 anos de idade e perdi minha mãe de uma forma trágica, meu pai olhou para mim enquanto eu chorava e disse: “Pedro, as pessoas não gostam de gente triste”. 

Aquela frase — tão dura para um menino que acabara de se despedir da mãe — marcou e, de certa forma, guiou minha vida.

Cinquenta anos depois, em 2011, quando caí subitamente do cavalo e perdi meus movimentos, tornando-me um tetraplégico, a voz de meu pai voltou à minha cabeça.

De fato, nunca quis assumir o papel de pessoa triste. Logo que descobri que não poderia andar, e tampouco me movimentar, passou pela minha cabeça desistir

Tinha medo de causar sofrimento à minha esposa e meus filhos. E medo de encarar sem autonomia física o que viria pela frente. A questão é que um apaixonado pela vida não sai de cena assim.

Então, com a mente mais ativa do que nunca, montei meu squad e segui minha aventura de viver.

COMO UMA EMPRESA NASCENTE, EU TINHA UM PROBLEMA E PRECISAVA BUSCAR A SOLUÇÃO 

Digo aventura, pois além de amar a vida sou aficionado por esportes. Motociclismo, corrida, bike e vela — modalidade na qual fui bicampeão brasileiro aos 14 anos e que me ensinou a ser resiliente.

Ensinou o menino Pedro, que aprendeu com o pai que precisava sorrir, a encarar os desafios e abraçar as oportunidades. A sorrir para as pessoas e não ter medo do futuro.

Foi assim que naveguei a favor dos ventos que sopraram para mim. Trabalhei no setor de compras da Mesbla e descobri as maravilhas do varejo.

Passei pelas Lojas Americanas, ajudei a transformar a Richards em uma marca sexy e conhecida, trouxe a Zara para o Brasil quando a marca não existia em terras verde-amarelas e atuei no Grupo Pão de Açúcar.

Assumi o desafio de fazer a Azul Linhas Aéreas decolar. Com orgulho, fui o primeiro CEO da companhia e só deixei o cargo quando, mesmo sorrindo e destemido, não foi possível seguir

O vento soprou forte demais e derrubou o experiente velejador. A partir daí, a missão assumida foi fazer decolar uma nova startup: minha cura após o acidente de cavalo.

Pense que, da mesma forma que em uma empresa nascente, eu tinha um problema real e precisava criar uma solução efetiva.

No meu caso, montei um time de enfermeiros, fisioterapeutas, médicos e fiz tudo o que precisava ser feito para me recuperar.

PRECISEI PIVOTAR MINHA ESTRATÉGIA EM RELAÇÃO À CURA PARA ME TORNAR CEO DA MINHA PRÓPRIA VIDA

Na época, acreditava que seria possível voltar a andar. Senti muitas dores físicas, usei muitos remédios, fiquei frustrado dezenas de vezes, mas a vida do empreendedor é feita de tentativas, erros e acertos, não é mesmo?

Depois de três longos anos dando tudo de mim no trajeto que decidi percorrer, pivotei. Mudei a estratégia.

Percebi que o melhor a fazer era trabalhar para recuperar os movimentos dos braços e das mãos. Todo time reviu seus papéis, mudamos a meta e batalhamos para solucionar o novo desafio

Hoje, consigo mexer a mão direita. Utilizo uma caneta que me permite manusear o celular, além disso, a tecnologia avançou tanto (ainda bem) que, com comando de voz, tenho autonomia para ligar e desligar equipamentos, fazer buscas no Google, ouvir música…

Nessa minha nova função, de CEO da minha vida, vieram os livros Maestro de voo: Pedro Janot e Azul: uma vida de desafios e A vida é tudo o que você faz com ela, a criação do Grupo Solum, as palestras, as redes sociais, os conteúdos.

Vieram também, recentemente, a pandemia, a rotina online e um universo de novas possibilidades que eu não poderia deixar passar. Tanto que no ano que vem, lançarei um novo livro.

Se não posso mais velejar, agora ando sobre rodas, sorrindo para as oportunidades que a vida segue a me apresentar.

APRENDI A LIDERAR DE FORMA HUMANIZADA, COM A MELHOR TECNOLOGIA QUE EXISTE:  “OLHO NO OLHO” 

Entre fisioterapias e consultas, tenho uma agenda de executivo ativa, lotada de reuniões com as equipes de todas as frentes com as quais atuo.

A cabeça segue a mil, planejando, pensando, lendo, buscando informação e atualização. 

Faço mentorias para novos empreendedores — como o Gustavo Manfredini, da Capricórnio Têxtil –, compartilho tudo que sei e aprendi como CEO de grandes empresas e da minha própria vida.

Destaco sempre, em todas as minhas conversas, que a humanização é a grande macrotendência.

Em um mundo onde a tecnologia resolve todos – quase todos – os nossos problemas, ser humano, olhar no olho, identificar competências, aproveitar o que cada indivíduo tem de melhor é fundamental para garantir resultados nas empresas

Pessoas tristes, aquelas que meu pai disse que ninguém gosta, não produzem.

Então, meus amigos, o líder tem a tarefa de olhar no olho e lutar não só pelos melhores resultados da companhia, mas também pelo bem-estar do seu time.

É ou não é uma aventura viver e liderar?

 

Pedro Janot, 62, é CEO desde os 27. Já liderou grandes marcas como Richards, Zara e Azul Linhas Aéreas. Em 2011, sofreu um acidente que o deixou tetraplégico. Atualmente, é escritor, mentor de empresas, palestrante e sócio e conselheiro do Grupo Solum.

 

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