“Quando nos permitimos falar sobre nossas dores, nos identificamos uns com os outros de forma genuína”

Juliana Lavigne - 18 out 2019
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por Juliana Lavigne

Podemos dizer que essa história começou no início de 2017, em uma ecovila no Sul da Bahia, a Inkiri Piracanga, onde nos conhecemos e moramos durante aquele ano. Seria uma introdução interessante e, no mínimo, intrigante para quem nunca ouviu falar em ecovila ou nunca experimentou estilos de vida alternativos. Parece o início de uma jornada um tanto empolgante, certo?

Na verdade, essa história começou muito antes de nos conhecermos e o motivo que nos levou a estarmos lá não foi nenhum sentimento aventureiro romantizado, mas algo que todos nós sentimos, no entanto, nem sempre compreendemos: a tal da “crise”.

Sim, eu sei. Há quem considere qualquer problema ou tristeza uma crise, mas não é bem assim. Essa palavra, assim como tantas outras, perdeu a força do seu real significado

Se buscarmos sua etimologia, vamos ver que sua origem está relacionada a um momento de decisão. É quando chegamos ao fim de uma etapa em nossas vidas e precisamos subir para um novo patamar, com novas experiências e aprendizados

É nesse momento que nossas estruturas se abalam e tudo parece desmoronar. É a vida pedindo por mudanças e, mesmo que você não as queira e tente evitá-las, não há resistência que se sustente por muito tempo. O momento de decisão sempre virá ao seu encontro. Essa é a crise a que me refiro.

Eu morava no Rio de Janeiro e trabalhava em uma produtora cultural em um cargo administrativo. Sabia que seria um trabalho temporário, mas não tinha nenhuma perspectiva de onde eu queria estar e do que gostaria de fazer adiante. Letícia morava em São Paulo e trabalhava como designer em uma consultoria de inovação. Estava se sentindo frustrada com a profissão e totalmente desmotivada com o que fazia.

Na época, não ouvíamos muito sobre autoconhecimento, propósito e espiritualidade — pelo menos não no meio em que estávamos. Sabíamos apenas como nos sentíamos: com uma profunda angústia. Um desconforto que nos fez questionar todas as premissas que fundamentavam nossas vidas. Uma sensação de não estar no lugar certo, nem fazendo o que deveríamos fazer, mas, ao mesmo tempo, não tínhamos respostas para essas perguntas. Chegamos a um ponto em que a inquietação virou uma frustração.

Observávamos o mundo e suas dinâmicas sociais sem compreendê-las e, ao olhar a nossa volta, parecia que ninguém se sentia da mesma forma. É uma sensação solitária, de não pertencimento. Tudo parece desprovido de sentido. Você não entende o porquê de se sentir assim e até se culpa por isso. “O que tem de errado comigo?” A dúvida permanece. É uma completa descrença em nós mesmos e na vida.

Cada uma chegou à Bahia com sua história na bagagem para fazer um programa de dois meses na ecovila e viver uma nova experiência. Nossa amizade começou na primeira conversa em um mergulho no rio Piracanga.

Mal sabíamos nós, que, a partir desse dia, também estaríamos a mergulhar em águas profundas de nós mesmas, em uma jornada de autoconhecimento e grande transformação interior

Durante essa trajetória, conhecemos os moradores de lá e, para nossa surpresa, eles também já tinham se sentido como nós, com os mesmos conflitos e questionamentos. Ouvimos histórias como a do Jorginho, que também se sentia perdido e foi viajar para se encontrar; a Dani, que superou uma depressão e recomeçou sua vida com uma nova profissão; o Betão, que largou a carreira em grandes multinacionais para morar em uma comunidade em meio à natureza; a Carola, que decidiu não optar pelo sistema tradicional de ensino e não fez faculdade; o Alê, que largou a sua faculdade e se uniu às tribos indígenas; e a Ana Lu, que logo após se formar, desistiu da profissão para ir em busca do que ela gostava quando era criança.

Ouvir cada uma dessas histórias e conhecer suas trajetórias e seus aprendizados nos fez refletir sobre nossas próprias vidas. É lindo observar que quando abrimos nosso coração e nos permitimos falar com sinceridade sobre nossas dores e vulnerabilidades, nos identificamos instantaneamente uns com os outros de uma forma genuína. Essa conexão é fundamental, capaz de despertar um sentimento profundo de empatia, respeito e amor. Por isso, sentimos que não poderíamos guardar toda essa experiência. Precisávamos compartilhá-las com o mundo.

Todas as portas se abriram para levarmos a ideia adiante. Conseguimos um emprego na ecovila, alugamos uma casa — e o que seria apenas uma experiência de dois meses se tornou uma jornada de um ano. No entanto, quando decidimos morar lá, não tínhamos nada planejado: apenas duas câmeras, um microfone de lapela, um tripé comprado no camelô e muita – mas muita – vontade de realizar esse plano.

Durante o processo, o projeto foi tomando várias formas até encontrarmos o eixo. Nossas habilidades se complementaram e tudo fluiu de forma orgânica e natural. Com o tempo os moradores da ecovila se tornaram queridos amigos e nos sentíamos a vontade para convidá-los a participar.

Tínhamos um roteiro de perguntas, mas cada história tomava um rumo diferente, que abria espaço para novas perguntas e o papo se estendia como uma boa conversa entre amigos. Depois da entrevista, filmávamos um pouquinho o dia a dia de cada um e, de passo a passo, a ideia foi se materializando.

Foi assim que nasceu o Projeto Inspirame: uma websérie sobre pessoas que se sentiam insatisfeitas com suas vidas e tiveram a coragem de confrontar a si mesmas e a forma como viviam para trilhar um novo caminho conectado com seus valores e seus corações.

Nosso propósito é semear um conteúdo autêntico, que promova auto reflexão e amplie as perspectivas daqueles que também estão se questionando sobre suas escolhas e o que os faz verdadeiramente felizes

Após este intenso ciclo de filmagens, voltamos para casa motivadas com a missão de concluir o projeto e com a clareza do que realmente move nossos corações. Porém, o maior desafio ainda estava por vir e havia uma outra grande etapa a superar: a sustentação.

Idealizamos que, após uma crise, tudo irá fluir naturalmente, mas a realidade é outra. Ao “pular para o outro lado”, tudo o que existe é um caminho desconhecido. Nos deparamos novamente com nossos medos, inseguranças, ansiedades e dúvidas… Afinal, não é por estarmos fazendo o que gostamos que não existem desafios. Nossa força de vontade é testada todos os dias.

Em muitos momentos pensamos em desistir, mas quando nos sentíamos cansadas e com vontade de jogar tudo para o alto, as mesmas histórias que filmamos para inspirar outras pessoas acabaram se tornando a nossa própria inspiração

Ouvir cada uma delas confirmava nosso caminho e sustentava tudo o que acreditamos, nos relembrando do porquê de termos criado o Projeto Inspirame. Quando fazemos algo com um propósito maior e, temos apoio de quem nos ama, as motivações sempre serão maiores que as dificuldades. Além disso, materializar nossa ideia no mundo e alcançar o coração de outras pessoas que se identificam com essas histórias é gratificante e uma alegria imensurável.

Nosso maior aprendizado com essa experiência é que não existe caminho certo nem errado, apenas o que escolhemos viver. O que é bom para um não significa que seja bom para o outro, e vice-e-versa. Somos seres diferentes, com necessidades diferentes. Não faz diferença se estamos no meio do mato ou em uma cidade grande, trabalhando em uma empresa ou sendo empreendedor, se formando em uma faculdade ou não… O que realmente importa é a intenção por trás de nossas escolhas.

Não precisamos seguir um caminho só porque todos seguem e dizem que é o melhor ou que será o mais bem-sucedido. Parece óbvio, mas não é.

Estamos tão imersos nas dinâmicas sociais, e tão afastados de quem somos, que na maioria das vezes não conseguimos enxergar as possibilidades que estão diante de nós. Enxergamos apenas aquelas que nos foram impostas

Por isso, quando nos perguntam: “O que aconteceu com cada um deles? Deu certo?”. Depende do que é o “certo” para você. A única coisa que podemos afirmar é que eles continuam seguindo suas vidas, vivendo suas dores e alegrias assim como todos nós.

A grande mudança é interior. Independentemente de onde cada um esteja, todos levam a coragem de seguir seu coração e fazer suas próprias escolhas. Acreditamos que se mais pessoas fizessem o mesmo, com certeza seriam mais felizes. A conclusão de toda essa jornada, você pode conferir no nosso canal do Youtube. E, quem sabe, alguma dessas histórias também possa ser uma inspiração para sua vida.

 

Juliana Lavigne, 29 anos, é formada em Comunicação Social com especialização em Cinema. Tem experiência em elaboração de projetos culturais, produção e edição de vídeos e criação de conteúdo para web. É diretora, roteirista e redatora do Inspirame.

Letícia Barçanelli, 28 anos, é formada em Design Gráfico, com especialização em Service Design & Innovation. Possui experiência com estratégia de marcas e direção de arte em projetos de design e de audiovisual. É diretora de arte e produtora do Inspirame.

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