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“Eu achava que estava salvando um cachorro. Hoje entendo que era ele que estava me salvando”

Cleber Santos - 28 jul 2026 Cleber Santos, fundador da ComportPet (foto: Fernanda Cazarini).
Cleber Santos, fundador da ComportPet (foto: Fernanda Cazarini).
Cleber Santos - 28 jul 2026
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Eu tinha 14 anos quando saí de casa. Cresci em um ambiente difícil e deixei a Bahia acreditando que encontraria uma vida melhor em São Paulo.

Na minha cabeça, bastava chegar à cidade grande, trabalhar e construir um futuro diferente. A realidade foi outra.

Durante mais de dois anos, vivi nas ruas, entre a Praça da Sé e outros pontos da cidade, fazendo bicos, carregando caminhões, ajudando em mudanças e aceitando qualquer trabalho que rendesse dinheiro para comprar uma refeição no fim do dia

Quem nunca passou por uma situação assim talvez imagine que o mais difícil seja a fome. Ela dói, sem dúvida. Mas existe outra coisa que machuca ainda mais: a sensação de ser invisível.

As pessoas passam por você como se você não existisse. Poucos olham nos seus olhos, poucos perguntam seu nome. Aos poucos, você mesmo começa a acreditar que vale menos do que os outros.

AO COMPARTILHAR A MINHA VIDA COM UM CACHORRO DE RUA, DESCOBRI UM ANTÍDOTO CONTRA O DESÂNIMO

Foi nesse período que encontrei o Grafit. Ele era um cachorro de rua e, de alguma forma, nós nos reconhecemos.

Nunca soube dizer se fui eu que o escolhi ou se foi ele que me escolheu. O que sei é que, quando percebi, já dividíamos a mesma marmita, as noites ao relento e a esperança de que o dia seguinte pudesse ser um pouco melhor

Eu cuidava dele como podia. Se conseguia comida, dividia. Se encontrava um lugar mais protegido para dormir, fazia questão de que ele estivesse ao meu lado.

Naquele momento, eu achava que estava salvando um cachorro. Hoje entendo que era ele que estava salvando a mim.

Enquanto muita gente passava por nós sem sequer nos enxergar, nós tínhamos um ao outro. O Grafit me dava uma responsabilidade, um motivo para levantar todos os dias e continuar tentando

Quando você sabe que existe alguém dependendo de você, até o desânimo encontra menos espaço.

O CUIDADO COM O GRAFIT CHAMOU ATENÇÃO DE UM EMPRESÁRIO DO SETOR PET, QUE ME DEU MINHA PRIMEIRA OPORTUNIDADE

Foi justamente o jeito como eu tratava aquele cachorro que chamou a atenção de um empresário do setor pet.

Em vez de enxergar apenas um adolescente em situação de rua, ele enxergou alguém que demonstrava cuidado, respeito e responsabilidade por um animal. Aquilo bastou para que ele me desse uma oportunidade.

Primeiro, me convidou para cuidar da obra de um pet shop durante a noite. Em troca, eu teria um lugar para dormir.

Pode parecer pouco para quem lê hoje, mas aquilo significava recuperar algo que eu já nem lembrava mais como era: dormir em segurança. Naquela noite, eu e o Grafit não precisávamos nos preocupar se alguém nos expulsaria da calçada ou se acordaríamos assustados no meio da madrugada

Quando a obra terminou, continuei trabalhando no pet shop. Fazia um pouco de tudo. Carregava sacos de ração, organizava mercadorias, limpava o ambiente e observava atentamente cada profissional.

Eu não tinha dinheiro para fazer cursos, então transformei o trabalho na minha escola. Aprendi banho e tosa olhando, perguntando, repetindo os movimentos e aproveitando cada oportunidade para aprender alguma coisa nova.

Foi ali que descobri uma verdade que nunca mais esqueci: talento pode abrir uma porta, mas é o conhecimento que mantém essa porta aberta

Mais tarde veio o Exército, um período que mudou profundamente a minha forma de enxergar o trabalho e a vida. Foi lá que encontrei disciplina, organização e a certeza de que dedicação faz diferença em qualquer profissão.

Sempre que surgia a oportunidade de participar de cursos ligados ao comportamento e ao adestramento de cães, eu me inscrevia. Quanto mais aprendia, mais entendia que gostar de animais era apenas o começo.

Cuidar deles exigia estudo, técnica, observação e atualização constante.

ENTENDI QUE A PAIXÃO, SOZINHA, NÃO SUSTENTA UMA EMPRESA

Essa percepção passou a orientar todas as escolhas que fiz dali em diante.

Quando decidi empreender, não queria abrir apenas mais um negócio voltado para cães. Queria construir um lugar onde os animais fossem tratados com respeito e onde as pessoas entendessem que comportamento também faz parte do bem-estar. Mas eu também sabia que paixão sozinha não sustenta empresa nenhuma.

Foi nessa fase que a Dan entrou na minha vida.

Ela tinha uma trajetória completamente diferente da minha. Já havia trabalhado por muitos anos com joias, depois abriu uma empresa de paisagismo e decoração e não conhecia o mercado pet como eu conhecia.

Antes de embarcar naquele sonho, ela fez algo que sempre admirei: resolveu estudar. Começou a frequentar cursos, feiras, palestras e eventos do setor para entender se aquele mercado realmente fazia sentido

Enquanto eu estava mergulhado na operação, ela começou a olhar para aquilo que eu nunca tinha conseguido organizar sozinho. Colocou as finanças em ordem, criou controles, estruturou processos e trouxe uma visão de gestão que transformou completamente o rumo da empresa.

Chegou um momento em que ela decidiu fechar o próprio negócio para se dedicar integralmente à ComportPet. Hoje, tenho certeza de que esse foi um dos momentos mais importantes da nossa história.

Costumam dizer que fui eu quem fundou a empresa. Eu prefiro pensar que a ComportPet só começou a se tornar uma empresa de verdade quando deixou de ser um projeto meu para se tornar um projeto nosso.

HOSPEDAR CÃES EM NOSSO APARTAMENTO FOI O PONTO DE PARTIDA PARA UMA MUDANÇA COMPLETA NA ROTINA

Os primeiros clientes chegaram por indicação. Um falava para o outro, que indicava para um terceiro, e assim fomos crescendo.

Começamos atendendo cães na casa dos tutores. Depois eles passaram a ficar hospedados no nosso apartamento.

Nossa rotina mudou completamente. A sala virou espaço para os cães, a agenda girava em torno dos horários deles e cada novo cliente representava mais do que uma venda: era a confirmação de que as pessoas confiavam em nós para cuidar de um membro da família

Nada aconteceu de forma rápida. Vieram erros, acertos, noites mal dormidas, dificuldades financeiras e muitas decisões difíceis. Também vieram pessoas que acreditaram no nosso trabalho, colaboradores que caminharam ao nosso lado e clientes que continuam conosco até hoje.

Aos poucos, aquele sonho foi ganhando forma, crescendo de maneira consistente e se transformando na ComportPet.

ANOS DEPOIS, CONTINUO ACREDITANDO QUE ACOLHER UM ANIMAL É UMA FORMA DE TRANSFORMAR VIDAS

Às vezes paro para pensar na ironia mais bonita que a vida poderia escrever.

Um dia, eu procurava um lugar seguro para dormir ao lado de um cachorro. Hoje, dedico a minha vida a construir espaços onde milhares de cães recebem exatamente aquilo que eu desejava oferecer ao Grafit: cuidado, segurança, respeito e bem-estar.

As pessoas costumam dizer que eu transformei a vida de muitos cães. Eu prefiro acreditar que foi um cachorro que transformou a minha vida primeiro

Quando me perguntam o que significa sucesso, não penso em faturamento, prêmios ou expansão. Penso naquele garoto dividindo a marmita na calçada. Penso no homem que decidiu enxergar além de um morador de rua e me deu uma oportunidade;

Penso na Dan, que acreditou em um sonho antes mesmo de ele parecer viável. E penso no Grafit, que nunca soube o tamanho da mudança que provocou na minha vida.

Grandes transformações quase nunca começam de forma grandiosa. Às vezes, elas começam quando alguém acredita em você antes mesmo de você acreditar em si — ou quando um cachorro aparece no momento em que você mais precisava de companhia 

A minha história começou exatamente assim, ao lado do Grafit. E é por isso que, tantos anos depois, continuo acreditando que cuidar de um animal é uma forma de transformar vidas. Inclusive a nossa.

 

Cleber Santos é fundador da ComportPet.

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