“O roteirista precisa romper com a realidade para despertar a criatividade”

Márcia Juliatto - 17 ago 2016
Dagomir Marquezi, na Academia Draft, falou sobre o trabalho do roteirista, sua estrutura de desenvolvimento, formação e oportunidades de mercado. Saiba como foi.
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“É uma lenda dizer que o roteirista nasce criando e que as ideias borbulham na sua cabeça.” A frase é do escritor, roteirista e jornalista Dagomir Marquezi, que ministrou o curso “Aula prática de roteiro”, na Academia Draft na última semana.

Segundo ele, há técnicas para se escrever um roteiro e quem quer atuar na área precisa soltar a imaginação. “A criatividade é uma ruptura. As grandes obras que a gente conhece foram provocadas pela ruptura de alguma coisa”, diz.

Dagomir, o Dagô, segue, e diz que o primeiro passo para quem sente dificuldade para ter ideias é adaptar à obra de outra pessoa. “A adaptação é uma grande arte e não há vergonha nenhuma em se fazer isso.”

Em seguida, ele lista os quatro elementos básicos para se escrever uma história: personagem (pode ser um Fusca, mas tem de ter), localização tempo/espaço (período e onde a história será desenvolvida), motivação (algo precisa despertar o interesse do personagem) e conflitos (dificuldades que prendam o leitor/telespectador).

O desfecho da história também é fundamental para o sucesso do roteiro: “O leitor ou telespectador quer saber, por exemplo, se o herói se deu bem e o que aconteceu com o vilão”.

A CRIATIVIDADE BROTA DE QUALQUER LUGAR

Para o roteirista, um caminho para se despertar a criatividade é usar situações do cotidiano. “Todo mundo recebe spam, crie uma história em cima disso. Pense em um texto com 140 toques, como se fosse escrever para o Twitter. Imagine como seria um filme com uma trilha sonora que você criou aleatoriamente… Tudo isso certamente abrirá novos caminhos.”

Dagô prossegue e conta que o roteirista está produzindo o tempo todo:

“Tudo pode ser transformado em um roteiro. Basta você questionar ‘e se isso fosse assim e não daquele jeito?'”

Ele, então, enumera os elementos estruturantes de qualquer narrativa e, portanto, fundamentais num bom roteiro. Lembra, por exemplo, que não importa a ordem que uma história seja contada, ela precisa ter começo, meio e fim. As pessoas precisam desses três pontos, mesmo que de forma pouco usual. Ele conta que no filme Amnésia (escrito e dirigido por Christopher Nolan e lançado em 2000), a história não segue a ordem de começo-meio-fim, mas os três elementos estão lá. “Isso não quer dizer que o autor não escreveu dessa forma. Ele pode ter escrito e a ordem das coisas foi modificada no roteiro”, diz.

Dagô conta que George Walton Lucas Junior, diretor, roteirista e produtor executivo de Star Wars e vários outros filmes, defende que um roteiro tem três atos: no primeiro há a introdução do personagem, no segundo inclui-se o problema e, no terceiro, ele é solucionado.

Conceitos técnicos são seguidos de exemplos práticos. “Geralmente, uma página de um roteiro equivale a um minuto de um filme. Claro que isso é super elástico, mas é uma base que todo roteirista trabalha”, diz.

O SEGREDO DO SUCESSO DAS SÉRIES

“Uma série nada mais é do que um filme gigante dividido em partes. Mas ela precisa ser fortalecida a cada temporada para prender o público”, crava ele.

Ela precisa ter personagens centrais muito fortes que garantam sua continuidade. “É preciso pensar muito nos arcos, as macro histórias que duram, às vezes, várias temporadas. Além disso, deve-se pensar nas motivações permanentes e calcular as paradas, os intervalos, além de fazer um gancho irresistível ao final de cada temporada.”

Quadrinhos, áudio e teatro também exigem conhecimento e aplicação de técnicas de roteiro. Cada um à sua maneira. O que se segue é bem didático, mas também elucidativo, pois Dagô traz as peculiaridades de cada narrativa roteirizada. Os quadrinhos, normalmente, estão em tiras de jornais e revistas ou em gibis. Os elementos de criação envolvem personagens, cenário, balões (onde são colocados os diálogos), as legendas e as onomatopeias.

“O mais interessante dos quadrinhos é a total liberdade que a gente tem para criar. Dá para usar desenho e texto e o roteirista precisa pensar nas imagens da história, porque ela é muito visual”, diz.

Quanto ao áudio, Dagô diz que o Brasil já foi muito conhecido por suas radionovelas. Segundo ele, para se criar um roteiro de áudio é preciso fechar os olhos e imaginar as imagens e os elementos que você usará de sons para, depois, dar vida a ele. Os podcasts são um exemplo disso.

“Hoje, é possível usar várias mídias para criar, sem a necessidade de um estúdio. Vivemos uma nova época e você tem duas possibilidades: reclamar que nada mais é como antes ou pegar e fazer”

Ele segue falando das mídias. Diz que, apesar de algumas pessoas discordarem, teatro é uma mídia, sim. “Há um esnobismo no teatro para que ele tenha uma linguagem cabeça, mas não concordo. Ele é mais uma mídia que quer passar uma mensagem.”

A FORMAÇÃO DO ROTEIRISTA SE DÁ NA PRÁTICA COTIDIANA

Como alguém se forma roteirista? Para Dagô, mais do que cursos, o roteirista deve se dedicar diariamente à prática, estudando roteiros, fazendo uma leitura comparada, ou seja, assistindo ao filme e lendo o roteiro junto para “dissecar o filme”, ou seja: anotar em formato de texto o que acontece, minuto a minuto. “Assim, você vai perceber que estará recriando a forma como o filme foi montado.”

Apesar da sua paixão pela profissão, ele reconhece que é uma área que não oferece um emprego fixo, com salário. “É um trabalho de oportunidade. Se você não conseguir entrar no casting de roteiristas da Rede Globo, a alternativa é buscar opções em editais que selecionam trabalhos esporádicos.”

Para finalizar, Dagô dá uma dica: “Tenha sempre vários projetos em andamentos porque esses editais sempre têm um prazo muito curto para inscrever o trabalho”. Ou seja, crie e siga muitos roteiros.

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