Sabe aquela vontade de fugir do mundo por uns dias e se esconder na natureza? O Altar transforma esse desejo em realidade

Maisa Infante - 16 ago 2022
Casa Flutuante, no meio da represa Jaguari, em Joanópolis, a duas horas de São Paulo.
Maisa Infante - 16 ago 2022
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Sair da cidade e esconder-se em um refúgio embrenhado na natureza. Esse é um sonho acalentado por muita gente — e que ganhou força com a pandemia, quando a adoção do home office flexibilizou as relações de trabalho.

Daí o timing feliz do Altar, uma empresa de hospedagem que oferece casas de luxo em meio a paisagens naturais. Os sócios Rodrigo Martins, Pedro Lira, Renata Bagnolesi e Facundo Guerra lançaram o negócio no comecinho de 2020, semanas antes da Covid chegar ao Brasil.

Embora em locais isolados, as casas pré-fabricadas têm alto padrão de qualidade, tanto de construção como de decoração. Marcas de luxo, como Zissou, Trousseau e Guardian são parcerias da empresa. Até a Starlink, a internet do bilionário Elon Musk, foi instalada em uma delas.

A primeira casa lançada, em 2020, foi a Casa Flutuante, no meio da represa Jaguari, em Joanópolis, a duas horas de São Paulo. O isolamento que veio com o coronavírus foi a fagulha que fez disparar o interesse pela hospedagem — a fila de espera chegou a nove meses. Pedro afirma:

“A grande vocação dessas casas é estar em lugares imersos na natureza, onde a alvenaria não poderia chegar, e oferecer um espaço de reconexão com conforto e sustentabilidade”

Hoje, dois anos e meio após o primeiro lançamento, o Altar tem quatro casas disponíveis para locação, com diárias que variam de 700 a 1 700 reais. 

Além da casa flutuante de Joanópolis, há o Altar Prainha, no mesmo local, e mais duas casas dentro da reserva Legado das Águas, no Vale do Ribeira: outra casa flutuante e o Altar Mini, um trailer de madeira. A próxima, já em construção, será uma casa na árvore. 

Para além da experiência oferecida ao cliente, esse modelo de negócios traz para o setor de hotelaria a previsibilidade de preço e tempo de construção.

Vista interna de um dos refúgios da empresa.

O modelo mais convencional – em terra – custa, em média, 500 mil reais, já instalada. As flutuantes são quase 50% mais caras, chegando a custar 800 mil reais. A casa sobre rodas sai por 300 mil reais. Já a casa na árvore custará 350 mil reais, já implantada no local.

A produção, que demora em média 90 dias, é toda feita no Brasil e busca ser o mais sustentável possível. As casas de madeira, por exemplo, usam madeira engenheirada, tecnologia que reduz desperdício e poluição, e pode ser usada inclusive nas partes estruturais. 

Outra vantagem, do ponto de vista do negócio, é que as casas pré-fabricadas podem ser transportadas de um local para o outro. Isso permite a descentralização da hospedagem: se um destino por algum motivo não emplacar, é possível testar aquela mesma estrutura em outro local. 

A seguir, Rodrigo fala sobre a jornada do Altar, da concepção às rodadas de investimento – o objetivo é chegar a 70 casas em quatro anos.


Como surgiu a ideia do Altar?
Há três anos, comecei a pesquisar o universo das casas inteligentes e pré-fabricadas, que funciona bem em vários lugares do mundo, mas não aqui no Brasil. E a conclusão foi de que o custo mais alto do que as casas de alvenaria é o grande empecilho. 

Fiquei pensando que a vocação desse tipo de estrutura seria estar em lugares onde a alvenaria não poderia chegar. Aí chamei o Facundo Guerra e ele trouxe o insight de juntar essas tecnologia a lugares imersos na natureza, onde não daria para construir nada, seja por questões ambientais ou de acesso, e oferecer para as pessoas esse espaço de reconexão.  

Como chegaram à ideia da Casa Flutuante, que foi o primeiro projeto do Altar?
Quando entendemos que as casas inteligentes e pré-fabricadas poderiam ser um lugar de reconexão das pessoas em meio à natureza, começamos a pesquisar que produto seria esse e onde poderíamos colocá-lo. Por intermédio da Renata [Bagnolesi, sua sócia], chegamos a Joanópolis, onde ela e o marido são donos de uma fazenda que tem uma represa. 

Até então, a gente tinha a ideia de fazer uma casa na árvore, mas quando o marido da Renata disse que sempre teve o sonho de fazer uma casa flutuante, pensamos que seria perfeito porque iria nos levar ao limite do sustentável e do que uma casa inteligente pode ser 

Fizemos uma parceria de construção com a SysHaus, que já que tinha esse desenho de casa flutuante, e todos os desafio vieram: achar o biodigestor adequado para entregar uma água mais limpa do que a captada, placa solar e até documentação. 

Fomos falar com a Marinha e o processo foi demorado, porque era algo novo. Hoje, a casa é aprovada como uma embarcação sem propulsão.

Essa casa começou a ser alugada dois meses antes da pandemia. Como a pandemia impactou um negócio tão inicial?
A gente tinha um produto que atendia o momento que as pessoas estavam, de ficar em um local isolado e ter um pouco de saúde mental. 

A pandemia acabou potencializando muito mais do que imaginávamos. Foi uma das dez casas do Airbnb no mundo com mais likes e as reservas aconteciam com nove meses de antecedência, uma fila de espera gigantesca

Como essas casas são pensadas? O que vocês levam em conta na hora de desenvolver o projeto?
Quando vai para um lugar desse, a pessoa quer ser surpreendida não só pela experiência, mas pelo design também. Um dos sócios, o Pedro, é arquiteto. Então, estamos começando a criar as nossas próprias casas, para sermos donos dos desenhos. 

Além da casa na árvore, que já é nossa, temos outros três modelos que estão prontos para serem desenvolvidos. Uma delas, que é o meu xodó, chama-se Farol, uma casa pequena com dois níveis, com um design diferente de tudo que eu já vi. Ela entrega um pouco do que as pessoas esperam, que é a surpresa. 

O que as casas do Altar entregam em relação à sustentabilidade?
Os produtos hoje nascem com o conceito de serem absolutamente sustentáveis. A própria construção pré-fabricada já é uma solução mais limpa, principalmente quando dá pra usar o CLT [Cross-Laminated Timber, que permite a construção off-site]. Além disso, as casas possuem biodigestor, placa solar e separação de lixo. 

Outro aspecto da sustentabilidade é a ativação da comunidade local. Em Joanópolis, tínhamos o desafio de achar gente para fazer a limpeza e a recepção. Encontramos duas pessoas lá da região que nunca tinham trabalhado com hotel, treinamos e hoje elas estão preparadíssimas para qualquer tipo de hospitalidade 

Também em Joanópolis encontramos uma pessoa que tem uma plantação de aloe vera e faz xampus e condicionadores biodegradáveis maravilhosos. Ele virou nosso fornecedor para todas as casas. 

Pra mim, a história de desvendar naquela microrregião o que há de mais legal e depois levar pra outros altares é um caminho muito legal de ativar a comunidade, fazer com que a comunidade olhe pro Altar de um jeito simpático, como alguém que quer gerar negócio para eles. 

Como funciona o modelo de negócios do Altar?
Construímos a casa e fazemos uma parceria com o dono do terreno. Pagamos um percentual da receita para ele e, assim, não precisamos ficar comprando áreas. Até porque nossa casa é modular, então podemos colocar e tirar quando quisermos. 

Essa possibilidade nos dá a chance que um hotel tradicional não tem de testar destinos. Se a ocupação for baixa, você pega essa casa e vai para outra localidade 

É uma lógica diferente da hotelaria tradicional, onde o empreendedor constrói 50 quartos e, se der errado, não dá pra mudar de lugar. 

Então, o investimento de construção é todo do Altar? O proprietário tem alguma contrapartida?
Hoje o modelo é a gente fazer o investimento na casa. Essa foi uma decisão difícil, porque muitos proprietários nos procuram querendo colocar dinheiro na casa.

Inclusive, hoje tem muito mais terrenos querendo colocar um Altar do que temos condição de atender. Mas achamos que não deveríamos fazer isso logo no início porque poderíamos perder algum controle da qualidade do serviço. 

Alguns proprietários nos propuseram negociações quase no modelo da franquia, onde a gente ofereceria o know how e ficaria com royalties. Talvez, no futuro, quando tiver um volume maior, essa seja uma maneira de expandir 

Hoje, o que ele precisa oferecer é, quando for o caso, estrutura de esgoto no terreno. Nós oferecemos aos proprietários entre 10% e 15% da receita líquida. Esse range muda conforme o que ele pode disponibilizar de equipe para a gestão. 

Se ele tem alguém que possa fazer a limpeza e a recepção dos hóspedes, por exemplo, nós treinamos essa turma e o percentual dele é um pouco maior. Se ele não tem, a gente providencia e o percentual é um pouco menor. 

Como é feito o aluguel das casas? Por qual plataforma?
Pelo Airbnb, Booking e Holmy, além do site próprio. Queremos investir cada vez mais no [canal] direto, porque aí temos mais controle da hospedagem, além de não ter a taxa de 15% do Airbnb. Podemos até oferecer parte disso como desconto. 

Qual o investimento inicial feito no negócio?
Até hoje, os quatro sócios já aportaram entre 5 e 6 milhões de reais de recursos próprios, considerando também o reinvestimento do que foi gerado nesses dois anos. 

Estamos usando o caixa para crescer. Com o próprio recurso da primeira casa flutuante fizemos a segunda, ainda em Joanópolis, que é o Altar Prainha. 

Na sequência veio um momento fundamental, que foi o Legado das Águas, porque lá tivemos que profissionalizar várias coisas, já que o nível de exigência e licenças que eles tiveram foi grande 

Fizemos lá a segunda flutuante e lançamos, há um mês, o Altar Mini, que é o formato de um trailer, com um ticket um pouco mais baixo de hospedagem. Agora estamos construindo a quinta casa, que é uma casa na árvore.

 Nesses dois anos e meio, pudemos testar diferentes modelos de ocupação e público. Então, hoje, a gente acha que consegue estar muito preparado para a fase de expansão.

Como será feita essa expansão?
Poderíamos continuar crescendo de maneira orgânica, usando a receita das próprias casas para construir novas hospedagens. Mas achamos importante colocar o pé no acelerador para realmente expandir e ir para outros lugares. 

Abrimos, há um mês, a possibilidade de entrada de novos sócios. O momento é muito ruim por causa dos juros altos, mas o legal é que já temos pelo menos três investidores que entenderam o modelo

Ainda não fechamos a rodada, mas a ideia é que isso aconteça até o final de agosto. 

Pretendem crescer quanto e em quanto tempo?
Pensamos em 15 milhões de reais de investimento total em tranches de 5 milhões. Queremos fechar os primeiros 5 milhões de reais ainda neste mês. Vamos usar 80% disso em Capex para as casas. 

Se fecharmos os 5 milhões agora, a ideia é que até o final deste ano a gente tenha oito novas casas implantadas, crescendo de cinco para 13. Nesse ritmo de crescimento, a conta é que em 2027 o Altar tenha 70 casas. 

E vocês já mapearam os lugares para implantar essas novas casas?
Inicialmente, estamos pensando em proximidade de até duas horas e meia das principais capitais. Entendemos que o Altar é uma opção de refúgio para pessoas que querem trabalhar alguns dias em um lugar diferente ou passar o final de semana. 

Nos próximos anos, esse tem que ser o nosso foco. Esses lugares estão mapeados, esperando a gente chegar com as casas. 

Também acreditamos que uma maneira de expandir é ser uma opção de hospedagem em Parques Nacionais do Brasil. Você vai para parques fora, como Yosemite [na Califórnia], e tem opções que vão desde o camping até locais super confortáveis 

Aqui no Brasil, os parques mais lindos, como Itatiaia (RJ) e Veadeiros (GO), têm pouquíssimas opções… Esse é o meu sonho: ser a opção nos parques. Mas a gente precisa, primeiro, terminar essa captação para saber onde vamos colocar recurso. 

Já estão negociando com os parques? É uma negociação diferente por envolver governo?
Tem uma mudança que já começou a acontecer nos parques que é a concessão para a iniciativa privada. Então, a conversa passa a ser com o concessionário, que precisa seguir todas as regras que foram estipuladas na licitação, mas que enxerga a hospedagem como uma linha importante de receita no futuro.

O que percebemos é que como isso é muito novo, a maioria dos concessionários ainda está olhando bastante para a bilheteria. Mas pra gente é uma baita oportunidade de ser o provedor de hospedagem para essa turma. O Pedro Lira, arquiteto, é o sócio que lidera isso, até porque ele já faz muitos projetos para concessões dos parques nacionais. 

Por que a empresa se chama Altar?
Isso foi uma sacada do Facundo. São espaços que existem para você olhar aquilo que há acima de você, a natureza. E o Altar é um pouco isso, um espaço de contemplação. São pequenos espaços no meio do lugar pra você contemplar o que há além de você. 




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  • Projeto: Altar
  • O que faz: Rede de refúgios de luxo em meio à natureza
  • Sócio(s): Rodrigo Martins, Pedro Lira, Renata Bagnolesi e Facundo Guerra
  • Início das atividades: 2020
  • Contato: oaltar.com.br/
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