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O que você faria com sachês de ketchup usados, embalagens de salgadinhos, miojo, suco de caixinha ou até mesmo um teclado velho? Kayka Couto, 36, confecciona bolsas e pochetes com esses e outros materiais inusitados e que seriam destinados ao lixo.
À frente da Kuhra, marca autoral de slow fashion e upcycling, a catarinense está sempre garimpando matérias-primas curiosas para criar novas peças. Desde que iniciou os trabalhos, ela já lançou seis coleções, com inspirações que vão de um clipe de Elza Soares ao figurino da série de TV infantil Castelo Rá-Tim-Bum, dos anos 1990.
Muitas das criações da Kuhra viralizaram no perfil da marca no Instagram e no TikTok, onde Kayka compartilha seu processo de produção.
A criatividade aflorou na vida de Kayka num período de crise profissional, no final de 2018. Natural de São Joaquim (SC) e formada em contabilidade, ela trabalhava no setor financeiro em uma agência de turismo na cidade vizinha, Lages, mas há tempos sentia que aquele não era o seu lugar.
“Estava esgotada porque odiava fazer aquilo. Me sentia a um triz de um burnout”
Kayka sempre gostou de arte e moda, mas achava que esse não era um caminho para si. Diante do estresse que vinha passando, no entanto, resolveu buscar em um curso de costura uma forma de relaxar.
“Desde a primeira linha reta que costurei, senti que queria fazer alguma coisa com aquilo.” Foi ali que ela encontrou a “cura” para suas angústias profissionais. E esse viria a ser o motivo para batizar sua marca de Kuhra.
Depois do curso básico, Kayka foi atrás de aprender sozinha como fazer bolsas. Sua primeira criação foi uma pochete.
“Não queria fazer algo igual a todo mundo e confeccionei uma pochete de pelinho, postei nas redes e me assustei com a reação das pessoas da minha cidade, porque no mesmo dia já tinha encomendas”
Kayka conta que usou a empolgação para abraçar a ideia. “Como já estava quase sendo demitida, aproveitei o momento, usei a rescisão para comprar uma máquina e materiais e, assim, comecei a Kuhra.”
A mudança profissional foi acompanhada pelo fim de um casamento e a troca de cidade – ela saiu de Lages para morar em Joinville, também em Santa Catarina.
“O início da marca foi meio atropelado. Como tinha trabalhado como CLT a vida toda, não sabia me organizar. Acho que só hoje estou entendendo melhor o que é empreender de verdade.”
Quando Kayka começou a Kuhra, seu foco eram os tecidos sintéticos. “Como sempre gostei de bolsas estruturadas, essas mais durinhas, achava que o ideal seria usar esse tipo de material. Um erro técnico, mas que foi bom porque aprendi com o pior material possível.”
Na época, Kayka já fazia uma certa mistura. “Eu pegava um sintético preto e colocava um zíper colorido. Era isso que chamava atenção nas minhas peças, esses detalhes simples, mas que me diferenciavam.”
Essas misturas se tornaram mais ousadas na pandemia. Kayka ficou quase sem encomendas e, portanto, sem dinheiro para investir em matéria-prima. Começou então a garimpar insumos em outros locais, como lojas de tecido de estofaria ou no próprio armário, desfazendo suas calças jeans para criar.
“Essa mudança foi meio orgânica, mais por necessidade do que por sustentabilidade. Percebi que a minha criatividade aflorava muito mais no upcycle e que qualquer material servia”
E quando Kayka diz que qualquer material servia, ela não está exagerando.
Para Kayka, seu processo de criação tem a ver com sua história e com a experimentação. “Fui costurando minhas referências e inconscientemente colocando nas bolsas.”
Sua primeira coleção foi criada usando tecidos sintéticos e inspirada no álbum e na música “Mulher do Fim do Mundo”, interpretada por Elza Soares, com uma estética toda roxa reluzente.
“Foi uma coleção muito bonita que apresentei em um desfile em uma semana de cultura e moda promovida por um amigo. Pouquíssimas pessoas viram, mas esse evento e essa estreia foram muito importantes para mim”
Depois, ela lançou uma coleção usando o tecido de um guarda-sol para produzir dez peças e criou outra inspirada no programa Castelo Rá-Tim-Bum, mais especificamente no figurino de Nino, o personagem interpretado por Cassio Scapin. “Eu tinha ganhado uma caixa de calças jeans clarinhas e, na mesma época, consegui uma parceria com a marca Corantes Guarany. Passei dois meses tingindo todo esse material.”

Um dos modelos de bolsas da coleção “Meu Primeiro Gradiente”.
O curioso é que os seguidores começaram a associar as cores a outro clássico da mesma época, o gravador portátil infantil que ficou conhecido como “Meu Primeiro Gradiente”.
Sobre a inspiração para produzir bolsas com peças de teclado, Kayka relembra sua adolescência: “Sou da época da internet discada. Acordava de madrugada para usar o computador. Um dia, minha mãe me deixou de castigo e tirou o teclado da máquina e descobri que dava para continuar mexendo só com o mouse. Mas eu gostava mesmo daquele barulhinho do teclado, me sentia uma hacker digitando.”

Bolsa com peças de teclado.
A criação nasceu dessas memórias, mas também de suas incursões em lixos eletrônicos.
“Percebi que esses lugares tinham muitos materiais interessantes. Eu ia para comprar uma coisa e acabava vendo um cabo colorido que poderia se encaixar numa alça, num detalhe, e levava também. Na minha cabeça tudo vai se encaixar perfeitamente numa bolsa”
Essa é uma criação recente de Kayka, assim como as peças feitas com sachês de ketchup, mostarda e maionese.
“A inspiração para essas bolsas com sachê vieram depois que visitei a exposição do Andy Warhol, na FAAP, em São Paulo. Vi as latas de sopa de tomate uma do lado da outra e achei muito bonito esse padrão repetido para fazer uma estampa”
O sucesso da criação (veja aqui o processo) rendeu inclusive a primeira publicidade da empreendedora nas redes sociais, no final do ano passado, com a Heinz (ela criou uma jaqueta e uma bolsa para a marca usando jeans).

Pochetes produzidas com embalagem de salgadinho e sachês de ketchup.
Kayka também viralizou ao criar uma bolsa com a embalagem do salgadinho Cheetos. “A inspiração veio da estética de cores de uma jaqueta promocional da marca que vi para vender. Depois, fui para São Paulo, na Liberdade, e vi um monte de embalagens de biscoitos e outras guloseimas com ideogramas e fiz essa conexão. Também me inspirei nas criações de Jeremy Scott, da Moschino, que em 2014 usou a estampas do McDonald’s em roupas da grife.”
Ela diz que para criar peças mais autorais, sem a exposição de marcas, está desenvolvendo uma técnica que usa apenas a parte prateada dessas embalagens para desenhar letras e outros detalhes, num trabalho semelhante a uma colagem.
A empreendedora tem algumas peças para pronta entrega. Além disso, clientes podem fazer pedidos específicos e customizados (saiba aqui como encomendar).
A pochete com sachês, embalagens de salgadinhos ou letrinhas recortadas custa 219 reais, já a bolsa de teclado, 419 reais. Para transformar uma peça própria (por exemplo, uma camiseta) em bolsa, ela cobra 390 reais.

Peças criadas recortando letras e desenhando com pedaços de embalagens.
Kayka já chegou a participar de feiras de artesanato, mas hoje as vendas se concentram pelo WhatsApp. Seu tempo de produção é de cerca de 30 dias. Atualmente, diz, as clientes já entendem que seu processo é baseado no slow fashion — e, portanto, mais demorado. Mas Kayka já passou por sustos pela falta de paciência alheia:
“Já tive cancelamento de venda, de a pessoa pedir o dinheiro de volta, sendo que eu já tinha gasto para comprar material”
Outro desafio é a gestão de tempo. A empreendedora precisa se desdobrar para cuidar de tudo: da parte criativa e execução, do garimpo dos materiais, da produção de vídeos, das vendas, do envio… Ela conta que em 2025 quase adoeceu, mas conseguiu priorizar sua saúde física e mental, com apoio da terapia.
Nos últimos tempos, Kayka vem enxergando uma maior valorização do trabalho autoral e manual. Esse olhar seria uma espécie de efeito colateral da ascensão da inteligência artificial generativa:
“As pessoas estão ficando um pouco saturadas de IA, de uma estética padronizada e pronta, e estão buscando o analógico, o artesanal, aquilo que é mais real… Acho que finalmente o trabalho manual poderá ser valorizado por conta desse contexto”
Sobre o futuro, seus planos para 2026 incluem sair um pouco da solidão do ateliê para dar oficinas de criação — nas quais ela poderia ensinar, por exemplo, como fazer uso de embalagens e de colagens para produzir uma pochete.
“A ideia principal é sair da minha toca e levar a Kuhra às ruas para que seja menos um projeto para mim mesma. Acredito que a marca tem muito a oferecer ao mundo.”
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Daniel Lameira vinha de um burnout pensando em largar o mercado editorial. Até que um papo com Adriano Fromer levou os dois a fundarem a Seiva, uma escola e editora para inspirar pessoas a se reconectarem com elas mesmas pela via da arte.
