Toda padaria precisa de balcão? A Padoca do Bem usa WhatsApp e Instagram para cativar seus clientes com pães e doces veganos

Dani Rosolen - 7 abr 2020
Thais Iervolino (à esq.) e Vanessa Faria, sócias da Padoca do Bem.
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Quando não se falava em coronavírus, tomar café da manhã na padaria era um ritual sagrado para muitos paulistanos. Um ritual que podia se esticar sem pressa nos fins de semana, quando muitos desses estabelecimentos forneciam também o almoço, na forma do frango assado na “televisão de cachorro” e vendido para viagem.

Na Padoca do Bem… Bem, mesmo antes da pandemia já não era assim.

A padaria é especializada em pães e doces low carb, veganos, sem lactose e sem glúten, à pronta entrega. Uma tabuleta graciosa indica o imóvel, com entrada lateral pela Rua Tuim, em Moema, na Zona Sul da cidade. Mas mesmo antes da quarentena, passar na Padoca no fim de semana era dar com a cara na porta. Como conta Thais Iervolino, a Tuca, uma das sócias:

“A gente cansa de receber mensagens de cliente reclamando. Tentamos responder com a maior delicadeza possível que não somos uma padaria tradicional e também precisamos renovar as energias para estar aqui na segunda-feira. Ou se torna um negócio como outro qualquer, que já existe”

A Padoca até abria sim um sábado por mês, para servir um brunch (75 reais). Isso antes do coronavírus. De qualquer forma, a ideia nunca foi ter consumo no local — as sócias fizeram as contas e viram que não seria rentável. 

“No domingo à noite, a gente divulga o cardápio no Instagram e na segunda via WhatsApp”, diz Vanessa Faria. “Aí vamos anotando os pedidos que recebemos na segunda para serem produzidos na terça. A partir de quarta, as pessoas podem vir retirar. Ou podem contar com a nossa entrega ecológica, feita de bike e que atende São Paulo inteira.”

EX-EXECUTIVA, VANESSA RESOLVEU EMPREENDER APÓS A LICENÇA-MATERNIDADE

A Padoca começou na cozinha de Vanessa, graduada em administração, lá no fim de 2014, e com o nome de Cozinha do Bem. Quando a ideia de empreender pipocou em sua cabeça, ela tinha acabado de deixar para trás a vida de executiva em empresas como Consul e Brastemp, após a licença-maternidade de sua primeira filha.

A Padoca do Bem começou com Vanessa e Rose. Depois, Thais (ao centro) se juntou ao time.

Decidiu que era hora de se arriscar numa atividade que lhe desse mais propósito. Fez uma série de cursos de gastronomia saudável e funcional, e se encontrou colocando (literalmente) a mão na massa. Massa de pão, claro.

Ainda assim, receber a primeira encomenda da Cozinha do Bem foi um “susto”: “Minha mãe vendeu para uma amiga três pães e entrei em desespero. Pensei que não ia dar conta”.

Ela deu conta, sim. Daí em diante, a clientela foi surgindo organicamente. Mas chegou uma hora em que Vanessa se cansou de trabalhar de casa, mesmo equipada com os utensílios necessários.

“Nesse meio tempo eu já tinha conhecido a Tuca, feito cursos com ela. Várias vezes tentei convencê-la a nos juntarmos, mas ela sempre estava muito ocupada e chegou até a me apresentar amigas para fazer conexões.”

PRESTES A SE MUDAR PARA TORONTO, ELA CONVENCEU AS SÓCIAS A ENTRAREM NO NEGÓCIO

Em novembro de 2018, o marido de Vanessa aceitou uma proposta de trabalho no Canadá. Mesmo prestes a deixar o Brasil, ela decidiu convidar Tuca mais uma vez a embarcar na Cozinha do Bem. 

Tuca, nessa fase, tinha acabado de deixar o Club Life to Go, um empreendimento de comidas saudáveis. A chef desenvolvia as receitas e sua mãe, Rose, cuidava da parte administrativa. Tuca lembra:

“Cheguei num ponto em que a empresa tomou uma proporção que eu não queria. Tinha que criar o que ia vender, o que os franqueados me pediam… Cada um tinha uma demanda diferente e não havia liberdade criativa”

Inicialmente, Tuca aproximou Rose e Vanessa para ver o que saía dali. Ofereceu até um espaço para que as duas pilotassem juntas o negócio: uma garagem em Moema que ela havia locado para guardar seus equipamentos culinários.

Vanessa e Rose se entenderam bem, mas sempre estavam atrás de Tuca em busca de um conselho. Até que convenceram a chef a embarcar no empreendimento. 

ELAS TIVERAM CINCO MESES PARA SE ORGANIZAR E CRIAR UMA DINÂMICA DE TRABALHO

As três investiram 130 mil reais na reforma do espaço e de móveis. Trocaram o nome para Padoca do Bem e, além dos pães e doces, passaram a oferecer workshops e consultorias na área de gastronomia. 

Cinco meses depois, Vanessa enfim se mudou para Toronto com o marido: 

“Foi o tempo suficiente para a gente conseguir se organizar e criar uma dinâmica de trabalho, encontrar o papel de cada uma. As coisas foram se encaixando naturalmente”

O pão de forma low carb é o carro-chefe da Padoca do Bem.

No Canadá, ela segue cuidando da pesquisa de fornecedores, gerenciando a precificação, as fichas de produção das receitas (além de realizar testes em sua cozinha). Também é ela que cria e distribui as apostilas online dos curso da Padoca, realiza orçamento de eventos e gerencia as redes sociais da Padoca.

Enquanto isso, em São Paulo, Tuca e Rose administram de perto o negócio. A chef, claro, incumbida do preparo dos quitutes.

Hoje, cerca de 40% da produção atende às encomendas e 60% fica disponível para a venda no local. Segundo Tuca:

“A gente sempre faz uma quantidade a mais para poder vender aqui, mas já aconteceu de entrar uma demanda enorme de pedidos e não termos nada para vender na loja”. “Por isso, optamos por manter um freezer e o cliente tem a opção de levar congelados.”

SEM MEDO DE “PASSAR A RECEITA ADIANTE”, ELAS DÃO WORKSHOPS E CONSULTORIAS

O trio oferece consultorias (desenvolvimento de cardápios, receitas, treinamentos de equipe, estruturação de novos negócios) e workshops (370 reais) nos quais os alunos podem ter acesso a diferentes receitas de panificação e confeitaria da Padoca do Bem.

“Os cursos duram três horas. Ensinamos uma média de cinco receitas num formato aula-show, em que as pessoas só assistem e anotam. Ao final, elas podem fazer uma degustação”, diz Tuca. 

Os participantes aprendem o preparo de quitutes vendidos na Padoca, como o pão low carb (38 reais, cerca de 400 gramas), um dos queridinhos da casa. Mas elas não têm medo de entregar as receitas “de mão beijada” para a concorrência? Tuca explica: 

“A forma como a gente faz, como a gente vende, trabalha e cativa nossos clientes, tudo isso é muito único. Ninguém consegue ser igual a ninguém”

As apostilas com as receitas, aliás, também estão à venda (290 reais), por WhatsApp e Instagram. Com esse intuito de repassar conhecimento, Tuca e Vanessa montaram um workshop chamado “Empreendendo com propósito”, de dois dias, em que compartilham a própria trajetória e modelo de negócio. 

“As pessoas entenderam que podem pegar nosso jeito de conduzir o negócio, mas com as características, as qualidades e a capacidade que lhes são únicas”, diz a chef.

POR CONTA DO CORONAVÍRUS, A PREVISÃO É DE UMA QUEDA DE ATÉ 25% NAS VENDAS

As fundadoras dizem que nem pensam em colocar seu cardápio em aplicativos de delivery ou num marketplace, com um “atendimento desumanizado”. Acreditam que as mensagens trocadas diretamente por WhatsApp e Instagram continuam sendo uma forma mais personalizada de estar em contato com seu público.

Em 2019, a Padoca do Bem vendeu, mensalmente, uma média de 50 mil reais em produtos e 15 mil em cursos e apostilas. Com o coronavírus, porém, os cálculos para 2020 terão de ser refeitos. A previsão é de uma queda de 20% a 25% nas vendas; os cursos, aliás, foram suspensos temporariamente. Segundo Vanessa:

“Obviamente vamos sofrer impactos negativos, mas temos uma vantagem: nosso negócio foi desenhado para atender por encomenda e delivery. Assim, foi relativamente fácil ‘virar a chave’, pois os clientes já entendiam este formato de atendimento via WhatsApp”

No momento, a Padoca está trabalhando de portas fechadas, com um cardápio enxuto e produção reduzida, apenas sob encomenda e fazendo os pedidos chegarem aos clientes pelo serviço de entrega com as bikes de terças, quintas e sextas-feiras. 

ELAS ACREDITAM QUE OS CURSOS SÃO O MELHOR CAMINHO PARA EXPANDIR

Vanessa gosta de brincar que o modelo de negócio da empresa vai contra todas as regras ensinadas na faculdade de administração. Não é bem assim, mas quase. 

“A gente observa o mercado e filtra os feedbacks”, afirma. “Mas não é porque o consumidor pediu algo ou porque a concorrência está fazendo bolo de pote que eu vou fazer o mesmo.”

Para manter o propósito original, diz, elas fincaram o pé na decisão de não atender nos fins de semana e escolher bem as encomendas que pegam. 

“A grana não é o principal fator do negócio. A gente não quer crescer, fazer franquia e virar uma indústria. Nosso lema é crescer passinho por passinho”

Olhando para frente (após a crise do coronavírus passar no Brasil), as sócias creem que os cursos seguirão como o melhor caminho para expandir o negócio. Vanessa, aliás, chegou a realizar duas edições canadenses dos workshops. “Queremos alcançar o maior número de pessoas, através do conhecimento.”

 

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  • Projeto: Padoca do Bem
  • O que faz: pães e doces low carb, veganos, sem glúten e lactose
  • Sócio(s): Vanessa Faria, Thais e Rose Iervolino
  • Funcionários: 2
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2014, como Cozinha do Bem
  • Investimento inicial: R$ 130 mil
  • Faturamento: R$ 65 mil (média mensal em 2019)
  • Contato: [email protected] ou WhatsApp pelo (11) 99477-8856
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