Todo ano, a tragédia das chuvas se repete… Conheça o empreendedor que usa tecnologia para monitorar encostas e salvar vidas

Marília Marasciulo - 22 ago 2022
Pedro Curcio Jr., fundador da iNeeds.
Marília Marasciulo - 22 ago 2022
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O que não se mede, não se gerencia. A ideia clássica do mundo dos negócios resume a proposta da iNeeds: desenvolver soluções tecnológicas para medir e monitorar de tudo — desde a rota de uma frota de transporte até a estabilidade de encostas em locais com risco de deslizamento de terra. 

Fundada em 2019 pelo paulistano Pedro Curcio Junior, a startup tem soluções para os mercados de smart cities e mobilidade, e atende tanto o mercado privado quanto o público. “Nosso propósito é criar tecnologias para salvar a vida das pessoas, para uso da sociedade”, diz Pedro, 43.

Em mobilidade, o portfólio da iNeeds inclui uma plataforma de controle de frotas e roteiros de logística, o Bike Tracker (um rastreador portátil e sem fonte de energia para bicicletas) e um sistema de escolta eletrônica. 

No segmento de smart cities, a startup vende o bueiro inteligente (que controla o nível da água) e sensores de monitoramento de ruído, poluição e encostas, entre outros produtos. Além disso, implementa projetos personalizados de telemetria, desenvolvendo tanto software quanto hardware.

A STARTUP SURGIU COMO SPIN-OFF DE UMA EMPRESA DE LOGÍSTICA DE ÚLTIMA MILHA

A gestação da iNeeds levou cinco anos. Foi o tempo que Pedro precisou para desenvolver, internamente e com recursos próprios, o sistema de telemetria para atender a Speed Transfer, empresa de logística de última milha, hoje voltada para transporte hospitalar, que fundou em 2005.

Quando o sistema ficou pronto, ele viu a oportunidade de tornar a solução uma startup spin-off e focar também no ramo de cidades inteligentes.

“No transporte hospitalar, carrego muita vida e morte. Pode acontecer de o paciente morrer enquanto estamos transportando um exame de hemodiálise, por exemplo. Então eu precisava fazer um sistema de telemetria para provar que, se morrer, não foi culpa minha… Daí surgiu a ideia da iNeeds”

Pai precoce aos 16 anos, Pedro pulou a faculdade para trabalhar em dois empregos. Começou a carreira em 1997 como assistente de compras de uma rede de hotéis durante o dia e com compensação bancária de cheque durante a noite. Evoluiu nessa primeira profissão, tornando-se comprador pleno para a área de bebidas. 

“Eu tinha personalidade forte, gostava de trabalhar do meu jeito. Fui percebendo que ganhava pouco e que algumas coisas que aconteciam na organização eram complicadas… Bati ideias na minha cabeça e pensei em empreender.”

Foi então que ele se juntou a um amigo de infância, o psicólogo Bruno Graeser, 30, para criar a Speed Transfer. Os dois começaram atendendo hotéis, área em que Pedro tinha expertise, mas perceberam o potencial do mercado hospitalar em 2006, ao fechar um contrato com o Hospital Oswaldo Cruz.

AO TENTAR RESOLVER DEMANDAS DA LOGÍSTICA HOSPITALAR, ELE CRIOU SEU PRÓPRIO ECOSSISTEMA DE EMPRESAS

Enquanto tocava a Speed Transfer, Pedro concluiu o curso de publicidade, em 2007. Depois, formou-se conselheiro de startups e especialista em logística.

Crescendo com uma frota própria — e a responsabilidade sobre a vida dos pacientes em suas mãos –, o empreendedor viu que era preciso investir em tecnologia. 

Em 2014, junto com Bruno e outra amiga de infância, a cientista da computação Esther Nascimento, 47, ele começou a desenvolver o seu próprio sistema de telemetria para mobilidade, o iNeeds.

“A telemetria começou no pensamento de gerenciar a frota. Eu precisava de um sistema que criasse as rotas, as demandas, apresentasse as informações de para onde o transporte vai, quanto vai gastar de combustível e fazer o checkpoint das entregas”

Ao mesmo tempo, novas dores o levaram a desenvolver, internamente, outra solução para resolver problemas comuns no setor de transportes: roubo de carga, de carros e de bicicletas. Em 2015, Pedro lançou uma corretora de seguros própria, a Multi Solution, com um novo sócio, o economista Rodrigo Macarenco, 40. 

A nova empresa também se beneficiou do sistema da iNeeds, que possibilitou o controle remoto da frota e a viabilização de novos produtos, como o Bike Tracker, um rastreador portátil sem fonte de energia para bicicletas.

Com isso, diz Pedro, seu ecossistema de empresas ficou completo: “A Multi Solution traz as dores, a Speed Transfer vive essas dores e a iNeeds resolve”.

INSPIRADO PELAS POSSIBILIDADES DO TRANSPORTE COM DRONES, PEDRO DECIDIU VENDER A INEEDS COMO SOLUÇÃO PARA O MERCADO

Em constante desenvolvimento e atendendo somente às necessidades internas da Speed Transfer e da Multi Solution, a iNeeds conheceu seu potencial de mercado em 2018.

Antenado em tecnologia, Pedro já entendia naquela época que as entregas do futuro seriam feitas por drones. Até que, um dia, foi impactado por um display anunciando o Drone Show, o maior evento de drones do Brasil.

“Comprei ingresso e fui conhecer. Sou transportador médico, já pensou em um drone transportando um coração? Seria um super negócio”

Na feira, conheceu o engenheiro de software Samuel Salomão, desenvolvedor e fundador da SMX, empresa voltada justamente para o transporte por drones. “Era uma super ideia, fantástica, mas ele estava lá em Franca, sem apelo comercial, quase morrendo. Aí juntou a fome com a vontade de comer e fizemos aquilo bombar em São Paulo.”

O trabalho com Samuel deu origem à Speedbird Aero — segundo Pedro, é a primeira empresa de transporte por drones da América Latina homologada por autoridades do setor aéreo. A dupla tinha projetos para gigantes como iFood e Ambev, até que surgiu uma oportunidade no setor hospitalar no final de 2018. 

Um cliente em João Pessoa chamou a Speedbird para transportar medicamentos por drone – mas era necessário monitorar a temperatura da caixa. “Fizemos uma API do iNeeds e colocamos no drone. Daí veio a ideia de vender a iNeeds para a rua”, explica.

A STARTUP HOJE USA TECNOLOGIA PARA MONITORAR ENCOSTAS E AJUDOU A EVITAR MORTES NA SERRA FLUMINENSE

Posicionada no mercado como uma solução de telemetria, aos poucos a iNeeds foi desbravando o setor de smart cities.

Alguns dos sensores da iNeeds para o segmento de smart cities.

Ao participar de eventos de inovação, a startup conquistou seu primeiro cliente o segmento, o Grupo Splice. A holding paulista de engenharia e infraestrutura urbana encomendou o desenvolvimento de uma tampa de bueiro inteligente que monitorasse o nível da água para prevenir vazamentos.

Em janeiro de 2022, durante a Rio Innovation, a Defesa Civil de Petrópolis conheceu a iNeeds e se interessou em aplicar telemetria para monitorar encostas. Após os levantamentos de requisitos, a assinatura do contrato para o serviço foi marcada para 15 de fevereiro — por coincidência, o dia em que a cidade foi devastada por chuvas que vitimaram mais de 200 pessoas. 

“A gente respeitou o luto, decidiu aguardar [para remarcar a assinatura do contrato]. Até que em 5 de março o secretário da Defesa Civil ligou pedindo uma ajuda urgente. Corremos e, em tempo recorde, desenvolvemos o sistema e os sensores”

A tarefa era instalar o sistema de telemetria em encostas e rochas que tinham risco de cair. “Instalamos tudo no dia 17 de março”, diz Pedro.

Dessa vez, segundo o empreendedor, a tecnologia conseguiu salvar vidas: três dias depois, em 20 de março, veio uma segunda grande chuva – e o equipamento da iNeeds lançou o alerta. Rapidamente, a Defesa Civil municipal isolou a área e evacuou os moradores. 

AGORA, A INEEDS BUSCA INVESTIMENTO PARA CONTRARAR MAIS DESENVOLVEDORES E ESCALAR SEU IMPACTO

Aquela operação-relâmpago na serra fluminense rendeu visibilidade à startup, conta o empreendedor:

“A iNeeds teve uma grande exposição da mídia, porque realmente salvamos vidas. E outras cidades vieram nos procurar”

Ele acredita que o exemplo mostra que trabalhar com foco em cidades inteligentes vai ser “a próxima grande sacada da década”. O desafio da iNeeds agora é escalar as ofertas para governos, buscando incentivar políticas públicas voltadas para as smart cities.

Para isso, a startup busca investidores em um seed round nas duas verticais: 3 milhões de reais por 12% da empresa na parte de smart cities e 3,5 milhões de reais para 15% de participação na área de mobilidade e segurança

“Hoje a gente vai aonde tem projeto”, diz Pedro. “Mas temos ‘braço curto’, por isso estou abrindo uma rodada de investimentos para contratar desenvolvedores executivos e poder escalar.”

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  • Projeto: iNeeds
  • O que faz: Monitoramento de encostas e soluções de mobilidade
  • Sócio(s): Pedro Curcio Junior    
  • Funcionários: 8
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2018
  • Investimento inicial: R$ 500 mil
  • Faturamento: R$ 240 mil/ano
  • Contato: [email protected]
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