Vai um spray de cannabis medicinal aí? Como a Humora quer ajudar você a lidar com a insônia, a baixa libido e as dores musculares

Dani Rosolen - 5 fev 2024
Ana Júlia Kiss, fundadora e CEO da Humora (Foto: Luciano Alves).
Dani Rosolen - 5 fev 2024
COMPARTILHE

Você já foi a um médico que te questionou como está seu humor? Se você anda rindo, se divertindo? Provavelmente não, mas isso não deveria ser tão incomum em uma anamnese. A palavra humor vem do latim e significa “líquido” ou “úmido”. Na Grécia Antiga, ela estava relacionada a qualquer um dos quatro fluidos corporais (humores) — sangue, fleuma, bílis amarela e negra –, que deveriam estar em equilíbrio para regular a saúde física e emocional humana.

Cuidar do humor, mas no sentido de proporcionar bem-estar, é o que promete a Humora por meio do canabidiol (CBD) em microdoses. Fundada em 2022 por Ana Júlia Kiss, a empresa facilita o acesso a produtos à base de cannabis para o uso em questões cotidianas, como TPM, baixa imunidade e libido, insônia, esgotamento e dores (veja mais detalhes aqui).

“A Humora quer fugir do uso estrito para doenças crônicas e do estereótipo de que quem usa cannabis é maconheiro, trazendo o CBD para o dia a dia, para alimentar o sistema endocanabinoide que existe no nosso corpo”

Para fundar a Humora, Ana Júlia,  38, investiu cerca de 1 milhão de reais. Hoje, a empresa se divide em duas organizações.

A Humora estadunidense, baseada na Califórnia, cuida da produção desses produtos contendo CBD isolado e outros fitoterápicos, em uma formulação à base de água, e apresentados em forma de spray sublingual.

Enquanto isso, a Humora Brasil facilita a conexão entre pacientes e médicos que possam receitar esses produtos, além de instruir o público sobre como conseguir a liberação da Anvisa para a importação.

EX-EXECUTIVA DA INDÚSTRIA QUÍMICA, ELA DECIDIU VENDER SUA EMPRESA EM BUSCA DE NOVOS DESAFIOS

Antes de empreender a Humora, Ana Júlia esteve à frente da empresa de sua família, a Adecol, companhia da indústria química que fabrica adesivos industriais para diversos fins.

“Fui a vida inteira preparada para seguir os negócios dos meus pais. Era um empresa brasileira, familiar, o que na prática significa muita luta e mão na massa.”

Ela assumiu como CEO da Adecol em 2014, aos 28 anos, quando o pai se aposentou; sob seu comando, a empresa viu o faturamento chegar aos 55 milhões de dólares em 2017.

Foi mais ou menos nessa época que Ana Júlia começou a perceber que precisava de uma mudança.

“Estava vivendo a crise dos 30 e, ao mesmo tempo, vivíamos uma crise econômica no Brasil. Comecei então a sentir que precisava passar por um novo ciclo de aprendizado”

Para honrar o que o pai e os 230 funcionários da empresa haviam construído até ali, ela escolheu um “bom padrinho para poder se juntar” e vendeu a Adecol para o grupo estadunidense H.B. Fuller, mas continuou responsável pelas negociações e estratégias de compras para a América Latina.

Mais tarde, porém, Ana Júlia voltou a sentir que deveria seguir outro caminho.

“Eu estava estranhando ter um chefe e todas as dinâmicas e políticas de uma multinacional. Havia um comichão de querer honrar o Brasil, de alguma forma, e resolvi sair para empreender algo nacional.”

Ela, no entanto, não tinha ideia de qual seria esse negócio. Sabia apenas que desejava montar uma fábrica.

A PANDEMIA ATRAPALHOU OS PLANOS IMEDIATOS, MAS ABRIU AS PORTAS PARA OUTRO MODELO DE EMPREENDEDORISMO

Ana Júlia saiu da empresa em meados de fevereiro de 2020 e embarcou para os Estados Unidos dia 27 para o SXSW. Logo a seguir, em 6 de março, foi decretado o lockdown por conta da Covid-19.

Com o cancelamento do festival, ela entrou em um sabático e aproveitou que estava viajando em um motor home para fazer uma “quarentena móvel”.

“Percorri 16 mil quilômetros, fui do Texas à Califórnia, da Califórnia para a Flórida. Eu só andava, dirigia, pensava, ouvia, podcast e refletia”

Neste período, ela conta que viveu uma jornada de autoconhecimento, passou a meditar, mudou sua alimentação e perdeu 20 quilos. Gostou tanto do nomadismo digital que comprou seu próprio motor home (no dia da conversa com o Draft, ela estava baseada em Guararema, no interior de São Paulo).

Neste período, ela começou também a sentir sede de novos aprendizados e decidiu mergulhar no universo de investimentos em startups, tornando-se investidora-anjo de algumas empresas.

A partir daí, conheceu novos modelos de negócios e, um ano e meio de sabático depois, voltou a querer empreender.

ELA SE SURPREENDEU AO NOTAR A MELHORA NA SAÚDE DO EX-NAMORADO, QUE USAVA CBD PARA TRATAR UMA DOENÇA AUTOIMUNE

Ana Júlia cogitou investir em um negócio de cannabis, mas quando começou a pesquisar o mercado se surpreendeu — negativamente.

“Vi que não havia mulheres neste setor. Fiquei desapontada por ser uma indústria nova, mas já estar contaminada com os vícios do passado, como concentração de poder e com o patriarcado.”

A empreendedora já fazia o uso recreativo e de cannabis medicinal para tratar a ansiedade.

“Hoje eu tenho consciência de que só não sofri um burnout gerindo números tão altos na minha carreira de executiva na indústria química porque tive contato com a maconha e com a cannabis medicinal”

Seu primeiro contato com o CBD, na verdade, aconteceu através do namorado da época, que usava o canabidiol para controlar os sintomas da doença de Crohn.

“Ao ver a melhora dele, passei a questionar como uma planta que vem da natureza envolve tanto tabu, algo que é dado pela terra apresenta tanta dificuldade de acesso, e daí veio a resposta que eu precisava: decidi entrar de vez neste mercado.”

COM A HUMORA, ELA QUER DISTANCIAR A CANNABIS DO UNIVERSO DAS DOENÇAS CRÔNICAS E DO ESTEREÓTIPO DE “MACONHEIROS”

Ao pesquisar o mercado, ela viu que nos Estados Unidos e em alguns lugares da Europa, a cannabis já era tratada como suplementação. 

“Todo mundo tem um sistema endocanabinoide dentro do corpo e produz moléculas mímicas ao CBD [que imitam o CB], mas como tudo, a gente não consegue se suplementar. Então, precisa fazer uso de fitocanabinoides para compor a necessidade diária que deveríamos ter.”

Esse insight a levou a pensar em um plano de negócios focado em bem-estar em vez de tratar doenças crônicas. Ela também percebeu que nesses mercados maduros, o óleo já era algo ultrapassado.

“É mais fácil de extrair os canabinoides através de óleo. Seu uso veio por uma questão de acesso, foi a maneira mais fácil que encontraram para atender pacientes crônicos — mas hoje temos tecnologias melhores que nos permitem formular em água”

E foi o que ela fez: criou um produto diluído em água e, usando nanotecnologia, decidiu também quebrar o canabidiol em partículas menores, o que facilita sua absorção pela mucosa e acelera o efeito (segundo a empreendedora, ele pode ser sentido em dez minutos enquanto o óleo demora uns 50).

Além disso, associou na formulação outros componentes fitoterápicos que potencializam o resultado pretendido. O Sonos, com foco na insônia, por exemplo, leva melatonina e valeriana, além do CBD – e atualmente é o mais vendido da marca, num portfólio de cinco produtos.

Para embalar sua entrega, em vez de frascos com conta gotas, ela escolheu o formato de spray sublingual.

“Quando eu era paciente do óleo, sempre ficava um pouco perdida na hora pingar seis gotas debaixo da língua. Passava da quarta, eu já não sabia se estava faltando gota, se estava sobrando. Então, criamos esse formato user-friendly: um sprayzinho minúsculo, do tamanho de um batom, com sabor menta”

A plantação da cannabis e a extração do CBD usado pela Humora ocorrem no Oregon, no noroeste dos Estados Unidos. Já a formulação e envasamento é realizada em Nevada.

COMO COMPRAR OS PRODUTOS DA HUMORA

Assim como qualquer item à base de cannabis, os produtos da Humora precisam de prescrição médica e autorização da Anvisa para a importação.

Para facilitar toda essa jornada, a Humora do Brasil conecta gratuitamente os pacientes a médicos parceiros de diversas especialidades. As consultas (online ou presenciais) são marcadas e pagas aos próprios profissionais e os valores variam.

Um paciente que não passe por essa etapa, mas tenha receita, também pode comprar os produtos da Humora, que identifica quanto de CBD entrega por cada dois jatos de spray para que o médico consiga definir a melhor dosagem para cada paciente.

O próximo passo é obter a liberação da Anvisa; a Humora também auxilia o paciente nesse processo, de forma gratuita.

“A gente gosta muito desse ato empoderador e civil, porque quando se fala que precisa pedir autorização e preencher o formulário da Anvisa, dá uma sensação ruim, as pessoas ficam com medo da burocracia. Mas não é assim, o acesso ao sistema funciona pela senha gov.br e se fizer tudo direitinho, em três minutos sai a liberação”

Depois disso, a Humora dos Estados Unidos envia o produto. O voo leva três dias, mas aqui no Brasil a caixa entra em auditoria da Anvisa, o que pode consumir mais duas semanas. Depois de liberado, o pedido é enviado.

Não há cobrança de importação, justamente por se tratar de um medicamento, e o paciente só paga pelo produto. O spray com 8 mililitros (120 mg de CBD) custa 300 reais e o balm, 225 (a empreendedora estuda tirar este formato de linha, pois não funciona de forma tão rápida quanto o spray). 

NO COMEÇO, OS PLANOS DELA FORAM VISTOS COM DESCONFIANÇA

Ana Júlia conta que quando decidiu empreender no setor canábico enfrentou algumas barreiras.

“No começo eu via minha família falando, meio com vergonha, ‘nossa, a minha filha saiu de uma multinacional e agora ela é maconheira’. Esse discurso mudou. Eles têm orgulho de saber que eu lido com uma medicina do futuro e agora todo mundo usa e ainda faço pagar”

A empreendedora conta que ter bons advogados também foi algo essencial na jornada da Humora. “A Anvisa é um órgão super correto, mas bem rígido. Eu brinco que a cada três dias muda alguma lei, aí a gente tem que se adaptar. Fora isso, tem a questão das redes sociais, porque no Instagram a gente sofre shadowban, então não pode usar a palavra cannabis se quiser ter alcance.”

Apesar de ainda não ter completado o primeiro ano de operação (as vendas começaram em julho passado), a Humora quase bateu os 300 mil reais de faturamento projetados para o ano passado e pretende chegar a 500 mil reais mensais em 2024.

Ana Júlia já traça planos para levar a startup para mais pessoas. Além de produzir nos EUA, ela quer vender para a população de lá e aposta na irreverência (ou melhor, no humor) da marca para conquistar esses consumidores.

“Nos Estados Unidos, a gente vê muitos produto com THC, mais associados ao lado recreativo; o nosso é zero THC. Além disso, os produtos focados em bem-estar de lá vêm sempre em embalagens com cores mais neutras, tipo branco e azul; já as nossas são coloridas e divertidas.”

180 Total Views 1 Views Today

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Humora
  • O que faz: Facilita o acesso ao CBD em microdosagens
  • Sócio(s): Ana Júlia Kiss
  • Funcionários: 12
  • Sede: Califórnia e Brasil
  • Início das atividades: 2023
  • Investimento inicial: R$ 1 millhão
  • Faturamento: R$ 500 mil mensais (previsão para 2024)
  • Contato: [email protected]
COMPARTILHE

Confira Também: