Vejo futuro de mais sinergia entre empresas, de valores compartilhados, mesmo que sejam concorrentes, diz Carlos Pignatari, da Ambev

Renato Essenfelder - 7 jun 2022
Carlo Pignatari, head de Impacto Social da Ambev. (Foto: Divulgação)
Renato Essenfelder - 7 jun 2022
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Nascido na pequena Votuporanga, no interior de São Paulo, Carlos Pignatari, 30, hoje head de Impacto Social da Ambev, desde cedo se interessou pelo universo ESG. Graças a experiências de voluntariado na adolescência, teve contato com campanhas de educação ambiental e ações sociais diretas em comunidades carentes.

Quando entrou para a universidade, em 2009, para estudar Administração Pública, já tinha interesse específico em política ambiental. A princípio, planejava seguir a vida acadêmica, mas a carreira mudou de rumo quando uma pesquisadora da Ambev visitou alunos da FGV para falar sobre o programa de trainees da companhia – e convidar Pignatari a participar do processo.

Há quase dez anos na empresa, Pignatari assumiu há três a área de Impacto Social. Nela, destaca o programa de voluntariado VOA, que auxilia ONGs já maduras a melhorar processos internos e aperfeiçoar a gestão de modo geral. O programa atendeu já mais de 300 organizações, incluindo nomes importantes, como a Gerando Falcões, e virou uma forma de a Ambev oferecer à sociedade algo que reconhecidamente domina: know-how em gestão empresarial.

Esse princípio, segundo Pignatari, tem a ver com a nova tendência em ESG, o valor compartilhado. Acabou-se o tempo de empresas fazendo discursos bonitos sobre defesa da Amazônia, diz ele, sem ter nada a ver com a floresta, com operações situadas a milhares de quilômetros dali. É hora de as empresas olharem profundamente para si próprias e se perguntarem o que podem oferecer à sociedade, de modo genuíno.

Na Ambev, diz, além de ensinar gestão e oferecer uma governança que atrai investidores, fazem sentido ações como a distribuição de álcool em gel durante a pandemia e, principalmente, programas focados na proteção da grande matéria-prima da empresa: a água. Além disso, lembra, a preocupação com o lixo plástico está no centro da agenda, com uma meta de neutralizar 100% da poluição plástica já em 2025. Confira a seguir a entrevista com o head de Impacto Social da Ambev.

NETZERO: Você é formado em Administração Pública pela FGV. Você sempre quis trabalhar com sustentabilidade?

PIGNATARI: Sempre fui bem focado nisso. Minha formação teve ênfase em política ambiental e eu já imaginava que ia trabalhar na área de sustentabilidade de uma empresa. Esse era o meu objetivo.

De onde veio esse interesse?

Fiz parte de programas de “Interact” [grupo de jovens que realiza campanhas de auxílio à população carente e de defesa do meio ambiente, incluindo doações, visitas a creches e hospitais etc.] do Rotary Club, desde criança. A gente promovia ações ambientais e sociais, fazia doações a brinquedotecas, coisas assim. De alguma maneira, portanto, eu já estava conectado desde cedo a essas questões. Na faculdade isso acabou se desenvolvendo.

E trabalhar na Ambev já era parte das suas ambições?

Quando eu estava na faculdade tinha certeza que ia fazer mestrado e não me escrevi para os processos seletivos das empresas. Mas a Ambev tinha na época uma espécie de “hunting”, um programa em que uma pesquisadora ia à universidade para falar do programa de estágio e ver o que os jovens esperavam dessas experiências. Então eu fui convidado a participar do processo. Falei com a coordenadora da FGV à época e ela me disse que seria uma experiência interessante, então decidi arriscar.

Fiz um programa de trainee mais focado na área de supply de cervejaria, em 2013. Trabalhei como analista de Gente e Gestão durante um ano em uma cervejaria próxima a Curitiba e depois voltei para São Paulo, para o escritório da Ambev.

O que você aprendeu nessa primeira experiência?

Aprendi sobre meio ambiente na prática: sobre reciclagem, gestão de resíduos, gestão hídrica. Somos muito eficientes nesses processos, porque a gente usa muito pouca água, menos de 2 litros de água para fazer 1 litro de cerveja, enquanto outras indústrias chegam a gastar dez litros. Eu também olhava para dentro da cervejaria e ajudava no plano de ação. O RH aqui não fica só olhando folha de pagamento, férias. A maioria das pessoas esquece que o S de ESG também fala de gente, por isso é importante ter o gestor olhando para o desenvolvimento do próprio time.

Como você foi da área de Gente e Gestão para a de Impacto Social?

Alguns anos após voltar para o escritório em São Paulo, três ONGs nos procuraram para aprender gestão, entre elas a Gerando Falcões. Elas não queriam financiamento, mas sim aprender a administrar melhor suas operações. Pensamos: “deve ter mais gente assim”, ONGs mais maduras que precisam melhorar a gestão. A partir dessa experiência, em 2018 começou o VOA, que é o nosso programa de voluntariado, e
então mudei de área, para Impacto Social e relacionamento com a sociedade.

Como funciona hoje o VOA?

Ele é um programa de voluntariado, diferente de uma mentoria, focado em capacitar organizações e negócios sociais para fazerem uma gestão mais eficaz. O trabalho é feito por voluntários da Ambev. E é uma troca de aprendizados: todo mundo reconhece que a Ambev é muito eficiente, sabe reduzir custos, mas no nosso primeiro ano de VOA atendemos uma ONG em Salvador que atendia 13 cidades com oito pessoas, algo incrível. Então é um aprendizado também para os nossos voluntários da Ambev.

Que tipo de conteúdos os voluntários ensinam?

São conteúdos que a gente usa no dia a dia. Não faço conteúdos que eu não uso. Por exemplo: não sei abrir um CNPJ, então não vou ensinar isso. É um programa muito genuíno, que fala muito de vivência. Escolhemos ONGs com mais de dois anos de experiência porque acreditamos que antes disso elas ainda estão entendendo melhor o que fazem, seus indicadores e metas.

Durante a pandemia, começamos a dar muitas aulas online – por isso o conteúdo do VOA está aberto para quem quiser baixar e acessar. Eu, por exemplo, gravei conteúdos de gestão, planejamento estratégico, metas, rotinas. Outros voluntários falam de captação, gente, estruturas corporativas. Quando as aulas eram presenciais, o que as ONGs mais queriam era aprender a fazer gestão de rotinas, como agendar uma reunião, o que se discute ali dentro, como ganhar eficiência.

Esse é um ponto crítico na gestão das ONGs no Brasil?

Sim. Quando você acompanha uma ONG de perto, vê que elas estão literalmente apagando incêndio. Eu já participei de reunião na Rocinha [no Rio] em que no meio do encontro tiveram de parar tudo para apagar um incêndio de verdade. São reuniões que não levam três horas, mas três dias. Saber como montar a pauta e administrar a reunião é muito relevante, é uma necessidade de todas as organizações. Temos conosco ONGs de 60 anos de idade, então não dá para falar que vou profissionalizar algo assim, mas também ONGs com só dois anos de vida, que ainda precisam aprender sua rotina.

Quantas ONGs já foram atendidas pelo VOA?

Desde 2018 já atendemos mais de 400 ONGs e somamos mais de 30 mil horas doadas por nossos funcionários.

O programa atua diretamente na dimensão social do ESG. Em qual dimensão você diria que a Ambev está mais adiantada?

Isso depende de quem vai responder à pergunta. Os investidores, em um evento recente, trouxeram o G como um ponto forte da Ambev, pela questão da transparência, da clareza nos processos, do cuidado com impostos. O pessoal que atua mais diretamente com ESG provavelmente falaria da dimensão E, pois temos vários compromissos ambientais, principalmente com água, ate porque ela é nossa matéria-prima. Estamos com metas ambientais superambiciosas.

O nosso VP de Sustentabilidade fala em acabar com a poluição plástica até 2025 e acabar com a poluição plástica junto a fornecedores até 2040. No dia em que ele lançou esse compromisso, mais de 160 fornecedores quiseram se alinhar a isso.

Você acha que as empresas estão mais maduras em relação à compreensão de seu papel na sociedade?

Acho que teve uma evolução no sentido de cada organização entender melhor o seu papel. No começo todo mundo falava de Amazônia, de meio ambiente, às vezes sem nenhuma conexão, nenhuma operação na Amazônia. Não tinha muito como ajudar, não era algo genuíno.

A pandemia foi momento de cada empresa encontrar sua própria verdade. Agora as empresas estão entendendo o valor compartilhado, como a empresa consegue contribuir para a sociedade como um todo. Eu como Ambev ajudo em água, ajudo em gestão. Durante a pandemia tivemos também a ação com álcool em gel, por exemplo.

Lembro de, no começo da pandemia, em março de 2020, o nosso CEO, Jean Jereissati, dizer em uma reunião que quando ele visitava as nossas fábricas, ouvia dos funcionários que eles tinham certeza que a Ambev ia ajudar o Brasil na pandemia. Essa ideia do álcool veio dos próprios funcionários de supply, da área industrial, que tinham vontade de ajudar de alguma maneira, viram iniciativas desse tipo em outros países e disseram: nós também conseguimos fazer isso, nós queremos fazer isso.

Como você avalia o futuro do ESG?

Sinceramente, acho que a agenda ESG ainda está começando, está engatinhando ainda. Não é todo mundo ainda que a entende, que sabe como avaliar, como conectar ESG com o impacto socioambiental das empresas. As empresas ainda vão entender isso melhor e entregar coisas melhores para a sociedade. Vejo um futuro com mais sinergia entre as empresas, de valores compartilhados – mesmo que elas sejam concorrentes.

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