Verbete Draft: o que é Economia do Cuidado

Isabela Mena - 31 ago 2020
(Foto: Pexels).
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Continuamos a série que explica as principais palavras do vocabulário dos empreendedores da nova economia. São termos e expressões que você precisa saber: seja para conhecer as novas ferramentas que vão impulsionar seus negócios ou para te ajudar a falar a mesma língua de mentores e investidores. O verbete de hoje é…

ECONOMIA DO CUIDADO

O que acham que é: Economia relacionada à profissão de cuidador.

O que realmente é: Economia do Cuidado (do original, em inglês, care economy) é um termo que designa o trabalho, majoritariamente realizado por mulheres, de dedicação à sobrevivência, ao bem-estar e/ou à educação de pessoas, assim como à manutenção do meio em que estão inseridas. Em âmbito doméstico, esse trabalho é invisibilizado e não remunerado. No meio profissional — terceirizado –, é mal pago.

Em linhas gerais, trata-se da imposição social às mulheres da criação dos filhos, do cuidado com parentes idosos e do gerenciamento da casa sem que as tarefas exercidas e o tempo demandado por elas sejam financeiramente recompensados, reconhecidos ou apoiados da porta de casa para fora (ou até para dentro), como por governanças, legisladores e a sociedade em geral.

É por esse motivo e também pelo papel secundário imposto às mulheres no mercado de trabalho — cargos mais importantes, promoções e maiores salários são historicamente destinados aos homens e negados às mulheres — que a Economia do Cuidado é uma pauta cara a organizações e lideranças feministas do mundo todo.

A lógica entre esses dois fatores é simples: quanto mais tempo e energia a mulher despende trabalhando em casa, menos horas e disposição ela tem para se dedicar à carreira. Dentro da dinâmica familiar, muitas vezes “compensa” que seja a pessoa que ganha mais e com maior possibilidade de ascensão, ou seja homem, que saia para trabalhar. Já o Estado se exime do papel de ajudar a transformar essa cultura desigual, reforçando o círculo vicioso.

Mulheres, homens e o cuidado: A relevância do gênero no problema da desigualdade econômica mundial é apontada pelo estudo Time to care — Unpaid and underpaid care work and the global inequality crisis, publicado em janeiro deste ano pela ONG britânica Oxfam.

Em 2019, segundo o report, todos os 2 153 bilionários do mundo tinham, juntos, mais dinheiro do que 4,6 bilhões de pessoas. “Essa grande cisão baseia-se em um sistema econômico falho e sexista que valoriza a riqueza de poucos privilegiados, a maioria homens, mais do que milhões de horas de trabalho essencial — o trabalho de cuidado não remunerado ou sub-remunerado feito principalmente por mulheres e meninas de todo o mundo”, diz o texto de apresentação.

Um outro dado é que, em média, no mundo todo, mulheres gastam 4,5 horas do dia fazendo trabalho não remunerado enquanto homens gastam metade desse tempo.

O texto “Women, Burdened With Unpaid Labor, Bear Brunt of Global Inequality”, publicado em janeiro deste ano no New York Times, com dados da OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), atualizados neste mês, mostram a quantidade de trabalhos remunerados e não remunerados de homens e mulheres em diversos países. O Brasil não consta na lista, chamada Employment: Time spent in paid and unpaid work, by sex.

Na França, por exemplo, as mulheres passam 224 minutos fazendo trabalho não remunerado, enquanto os homens passam 134,9. Em Portugal, são 328,2 minutos das mulheres para 96,3 dos homens. Na Coreia, são 215 minutos das mulheres contra 49 minutos dos homens.

O trabalho chamado cuidado: As tarefas da Economia do Cuidado talvez possam ser melhor compreendidas e corretamente valoradas quando especificadas, desdobradas e cronometradas.

A Think Olga, organização que trabalha com questões de gênero e intersecções, fez isso recentemente, reunindo, numa mesma página, dados (extraídos de fontes como IPEA, IBGE e OMS) a respeito do tema em forma de textos e gráficos.

Seu projeto Laboratório Think Olga de exercícios de futuro, criado no contexto da pandemia, explica, por exemplo, que a amamentação faz parte da Economia do Cuidado. Durante os primeiros seis meses de vida do bebê, a mulher passa cerca de 650 horas amamentando. Em média, cada mamada dura entre 15 e 20 minutos e isso acontece entre oito e 12 vezes por dia.

Transcorridos os primeiros meses, os cuidados com a alimentação da criança aumentam em quantidade de tarefas — já que é preciso comprar e cozinhar os alimentos, além de organizar toda essa dinâmica.

Aqui, entra a chamada Carga Mental, o trabalho constante de atenção, gerenciamento e planejamento das atividades domésticas e/ou profissionais que recai majoritariamente sobre as mulheres. É também um trabalho invisível, sem reconhecimento ou valia, e extremamente desgastante do ponto de vista emocional.

Outros trabalhos de cuidado listados pela Think Olga são: dar banho, faxinar a casa, lavar, estender e guardar roupas, educar e remediar quando alguém está doente. Crianças e idosos precisam também da total atenção do cuidador para que não entrem em perigo.

O cuidado durante a pandemia: São vários os fatores, muitas vezes conjugados, que fazem com que este período sobrecarregue ainda mais as mulheres com trabalhos pelos quais não serão remuneradas.

E assim como o gênero, a classe social tem influência preponderante na Economia do Cuidado. Quanto mais pobre a mulher, maior a sobrecarga.

Por esse motivo, o trabalho varia em quantidade e intensidade. De formal geral, é possível dizer que:

— O aumento do número de pessoas dentro de casa eleva também a quantidade de comida (a ser planejada e preparada), de louça a ser lavada e a frequência da limpeza da casa e das roupas;

— Crianças em casa precisam de acompanhamento para o homeschooling e de atenção constante para que fiquem em segurança;

— Pessoas doentes devem ficar sob cuidado em casa, já que é preciso evitar idas a hospitais caso os sintomas (de Covid-19 ou qualquer outra doença) não sejam graves;

— O home office soma-se em tempo integral aos trabalhos da Economia do Cuidado, fazendo com que as mulheres estejam alertas o tempo inteiro, sem tempo para descanso.

No texto “How Women are Getting Squeezed by the Pandemic”, publicado em maio no New York Times (link no item “Para saber mais”), Nahla Valji, conselheira sênior de gênero da secretaria geral da ONU, diz que as crises amplificam as desigualdades já existentes e que, no mundo todo, as mulheres têm sido mais severamente afetadas pelos impactos socioeconômicos da pandemia.

“Isso acontece porque em todos os países mulheres ganham menos, guardam menos [dinheiro] e são mais propensas a ter empregos precários, com pouca ou nenhuma segurança ou proteção”, afirmou ao jornal.

Valji diz ainda que o que aprendemos com pandemias passadas é que, embora todos sofram a curto prazo, a renda dos homens tende a retornar a certo grau de normalidade muito mais rápido do que a das mulheres, para quem o choque econômico dura mais.

Economia formal x Economia do Cuidado: A Think Olga é direta nesse ponto: “Se hoje você é uma pessoa adulta, é porque alguém já desempenhou horas de trabalho de cuidado [com você]. E a sociedade, os empregadores que contratam pessoas (veja que óbvio), a gestão pública, as universidades, todas as demais esferas se aproveitam desse trabalho que é gratuito ou mal remunerado (quando terceirizado).”

Nas palavras de Valji, da ONU: “Nossa economia formal só é possível porque é subsidiada pelo trabalho não remunerado das mulheres”.

Para saber mais:
1) Leia, no New York Times, Women, Burdened With Unpaid Labor, Bear Brunt of Global Inequality.
2) Leia, no New York Times, How Women Are Getting Squeezed by the Pandemic, entrevista com Nahla Valji, conselheira sênior de gênero da secretaria geral da ONU.
3) Assista no Youtube ao episódio Cuidado, do programa Greg News, da HBO Brasil.

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