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Verbete Draft: o que é Futurismo

Isabela Mena - 9 ago 2017 Futurismo, não é adivinhação. É sobre olhar para frente, sim, mas desde que isso ajude a sociedade a tomar melhores decisões aqui e agora. Leia e entenda como isso pode ser útil também para negócios (imagem: reprodução internet).
Futurismo, não é adivinhação. É sobre olhar para frente, sim, mas desde que isso ajude a sociedade a tomar melhores decisões aqui e agora. Leia e entenda como isso pode ser útil também para negócios (imagem: reprodução internet).
Isabela Mena - 9 ago 2017
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Continuamos a série que explica as principais palavras do vocabulário dos empreendedores da nova economia. São termos e expressões que você precisa saber: seja para conhecer as novas ferramentas que vão impulsionar seus negócios ou para te ajudar a falar a mesma língua de mentores e investidores. O verbete de hoje é…

 

FUTURISMO

O que acham que é: O movimento artístico e literário, também chamado Futurismo, que surgiu em 1909 com o Manifesto Futurista, de Marinetti.

O que realmente é: Futurismo é a disciplina que investiga, explora, traduz e acelera as possibilidades de um futuro pós-emergente, ou seja, de cinco a 10 anos. Sua proposta é observar como as evidências (passadas e presentes) encontradas na ciência, na tecnologia e no empreendedorismo (ou negócios em geral) podem afetar a cultura, os novos comportamentos e as novas estruturas da sociedade. Seu objetivo é aumentar a consciência da sociedade ajudando-a a tomar decisões que geram impacto positivo tanto hoje quanto amanhã.

A definição acima é uma (leve) adaptação do conceito adotado pela Aerolito, laboratório de futurismo e tecnologias exponenciais da Perestroika, cofundada pelo futurista Tiago Mattos, professor da The Hebrew University of Jerusalem e palestrante da Singularity University. Segundo Mattos, como o Futurismo é algo novo enquanto disciplina, seus conceitos ainda estão em formação. E, aqui, a palavra “conceito” não está no plural por caso. “Quando você dá um Google, não encontra com clareza uma definição porque mesmo entre os profissionais não há consenso”, diz, e prossegue: “Tenho procurado ajudar na criação de uma definição universal porque percebo uma mistura do Futurismo com áreas como Pesquisa de Tendência e Coolhunting, por exemplo, e que não são a mesma coisa. De qualquer forma, nossa definição se atualiza com novas descobertas e pode mudar diante de algo consistente que venha de fora”.

Vale trazer aqui um outro ponto que diferencia o Futurismo do Coolhunting: o recorte. No primeiro, como já dito, observa-se ciência, tecnologia e os negócios. No segundo, arte, design, moda, música e cultura (geral e de rua).

Jacques Barcia, futurista e narrative hacker na Futuring.Today e membro da Association of Professional Futurists (APF), segue definição similar à de Mattos e acredita ser também fundamental entender o conceito pela lógica contrária, que considera errada. “Futurismo não é previsão, adivinhação e não tem qualquer compromisso com acertar. O futuro não pode ser previsto, posto que não existe. Mas futuros podem ser criados ou evitados e é isso que faz o futurista ao traçar cenários, oferecer visões e possibilidades que permitem a criação de estratégias.”

Um outro ponto de vista é o de Daniela Klaiman, criadora e professora do curso Future Behavior & Consumer Insights, da ESPM São Paulo. Para ela, Futurismo é uma ciência não exata que estuda e busca prever os fatos e acontecimentos de cinco a 50 anos da data presente. “Por meio do Futurismo pode-se prever o futuro utilizando meios quantitativos e qualitativos, usando principalmente habilidades de intuição e escrita, e criar o futuro, usando técnicas de planejamento e consultoria”, diz.

É relevante dizer que o Futurismo não pode ficar restrito ao meio em que acontece. Levar a sociedade à conversa e permitir que participe faz parte da própria essência da disciplina. Segundo Mattos, futuristas têm como missão, também, a criação de ambientes de aprendizagem. “É parte importante do trabalho traduzir e transformar ideias complexas e rebuscadas em um discurso empático e amigável.”

Quem inventou: O francês Bertrand de Jouvenel é considerado um dos pais da disciplina no âmbito da ciência mas, segundo Barcia a primeira ferramenta de pesquisa de futuros foi criada pelo germano-americano Olaf Helmer e sua equipe na RAND Corporation, uma organização fundada para estudar os caminhos do mundo no pós-guerra. “Quando saiu da RAND, Helmer ajudou a fundar uma das principais organizações de futuros do mundo, o Institute For The Future, em Palo Alto, na Califórnia.”

Quando foi inventado: O Futurismo começou a ser aplicado como atividade científica no começo do século 20. A RAND Corporation foi criada em 1948. O Institute For The Future, em 1968.

Para que serve: De forma geral, para ajudar pessoas, organizações e comunidades a explorarem, imaginarem, compreenderem, sentirem possibilidades sobre o futuro e, consequentemente, viverem melhor.

Barcia afirma que o Futurismo é especialmente relevante no momento atual, cujas características, segundo ele, são o caos, a contradição, a volatilidade, a incerteza e a ambiguidade. “Em um mundo completamente imprevisível, instável e altamente complexo, é fundamental antecipar questões críticas, pensar em consequências em escala complexa e, mais importante, aprender a fazer as perguntas mais relevantes”, diz.

Para Mattos, pensar no futuro, investigando evidências na ciência, na tecnologia e no mundo dos negócios, nos ajuda a viver melhor hoje. Ele fala que transformar conceitos complexos em algo simples faz com que a sociedade converse sobre o assunto. “Dessa forma, nossa consciência aumenta e podemos tomar melhores decisões no presente, gerando ainda mais impacto positivo no mundo.”

Um exemplo da aplicação do Futurismo é levantar questões sobre os carros autônomos, que estão desafiando a cadeia de transportes. Esses carros, ao provocarem menos acidentes, evitam perdas de vidas humanas, gastos dos sistemas de saúde e engarrafamentos. Diante disso, o Futurismo lança perguntas como: Haverá carros no futuro? Governos irão permitir que seres humanos dirijam?

Quem usa: Quaisquer tipos de organização, governos, empresas, ONGs, comunidades, indivíduos etc. Dentre alguns exemplos estão a Shell, os governos do Canadá e de Singapura, a ONU e a Cruz Vermelha. Barcia diz que essas organizações usam o Futurismo para diversos fins, como criar estratégias de longo prazo, gerar inovação e antecipar questões críticas. “A Cruz Vermelha contratou um futurista, recentemente, para antecipar conflitos, desastres e questões humanitárias e se preparar para atender a esses problemas de forma mais eficiente”, afirma.

Klaiman conta que grandes empresas têm mostrado bastante interesse no tema, por estarem buscando incorporar tecnologia em seus produtos e serviços: “Elas fazem isso para buscar crescimento exponencial e fugir da ameaça das startups, que estão causando enormes disrupções nos mercados.”

Qualquer um pode se beneficiar das reflexões propostas pelo Futurismo. No último fim de semana, em São Paulo, aconteceu a primeira edição da Friends of Tomorrow Conference, o maior evento independente de Futurismo no Brasil. Dentre os 12 palestrantes estavam Yvonne Cagle, astronauta da Nasa, Bibop Gresta, chairman da Hyperloop TT (projeto de transporte humano em cápsulas), Amrit Dhir, global operations manager do Google e David Harris, diretor de pesquisa do Institute for the Future, entre outros.

Efeitos colaterais: Um dos riscos do Futurismo é o de criar um discurso fatalista. Uso de tom profético; postura absolutista (causando um certo terrorismo em relação ao futuro em vez de propor alternativas); colocação do Futurismo como única resposta (sem respeito a outras disciplinas); visão focada apenas na técnica, desmerecendo a questão humana.

Mattos diz que esse “terrorismo” de futuristas vem de profissionais inexperientes, que não apresentam ferramentas e correm o risco de deseducar sobre o tema. Já a relação com outras disciplinas ele acredita ser a chave para evitar os efeitos negativos. “É a convergência de todas elas que forma um caldo. É preciso não ter arrogância e respeitá-las.”

Barcia fala que futuros determinados como únicos são negativos, contraproducentes e centrados apenas no bem de uma minoria. Ele diz que futuros impostos por grandes corporações, estados ou grupos de interesse não exatamente refletem os futuros preferíveis da maioria da população e, mesmo quando refletem, podem não ser os melhores do ponto de vista humanitário: “O futuro é uma batalha constante entre narrativas. Algumas dessas narrativas não desejam o melhor para todos”.

Quem é contra: Pessoas saudosistas, que tendem a acreditar que as únicas referências boas estão no passado; pessoas que pensam ser preciso viver apenas o presente e pessoas que têm medo das novas tecnologias. Barcia diz que, em geral, as pessoas são muito relutantes a mudanças. “Algumas organizações, com todos os seus legados, tradições e suposições, são ainda mais resistentes.”

Para saber mais:
1) Navegue no site Futurism.com. Principal referência sobre a disciplina, traz o que há de mais novo acontecendo no mundo em seções como Advanced Transport, AI, Earth & Energy, Enhanced Humans, Future Society e Hard Science, entre outras.
2) Assista ao TEDx Creating an internet of atoms, de Paola Santana, cofundadora da Matternet, sistema de transporte de próxima geração que usa uma rede de drones para atender às necessidades de qualquer pessoa, em qualquer lugar. Santana foi uma das palestrantes da Friends of Tomorrow.
3) Assista ao vídeo Discover the hyperloop, a major breakthrough in transportation technology, no Bibop Gresta, chairman do projeto Hyperloop TT, método que transporta pessoas em cápsulas, em até 1223 km/h, com utilização da levitação. Gresta também foi um dos palestrantes da Friends of Tomorrow.

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