Conheça a Perro Libre, uma cervejaria que se cansou do storytelling e quer mudar, radicalmente

Breno Castro Alves - 5 Maio 2015 Thiago, Lucas e Alberto (da esquerda para a direita) no primeiro dia de produção da Perro Libre.​
Thiago, Lucas e Alberto (da esquerda para a direita) no primeiro dia de produção da Perro Libre.​
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Pesquisador: “Como é uma cerveja para mulheres?”

Entrevistado: “Ah, algo mais leve. Acho que um sabor suave.”

Pesquisador: “Certo… e para índios?”

Entrevistado: “Como assim?”

Pesquisador: “Como é uma cerveja para índios?”

Entrevistado: “Ué, sei lá.”

Pesquisador (anotando alguma coisa no papel): “Hm… e para negros?”

Entrevistado: “O que? Não existe. Igual às outras. Cerveja.”

Pesquisador: “E por que existe cerveja para mulher, então?”

Entrevistado (a esta altura, com cara de tacho): “…”

Pois é. O diálogo acima se repetiu muitas vezes na pesquisa que envolveu a criação da 803, cerveja lançada este ano pela Perro Libre para marcar o Dia Internacional da Mulher, 08/03. Sua garrafa vem embrulhada em papel e, nele, o conceito está exposto: como assim, cerveja para mulher? Não deveria ser só… cerveja? Por baixo do papel a garrafa é lisa, tem apenas o vidro marrom. A 803 é uma cerveja sem rótulo.

803 da Perro Libre

O conceito da 803 fez a empresa rever suas crenças e, principalmente, a maneira de contar sua história.

O processo para chegar a esta proposta foi profundo e segue transformando a Perro, cervejaria de Porto Alegre que completará seu primeiro ano de operação em junho. Eles começaram oferecendo três rótulos: Viva la Revolución (hop pilsen), Hoppin Hood (american pale ale) e Dog Save the Queen (india pale ale). Além dos nomes bem humorados, elas também têm um design bacana, como cabe às cervejas artesanais de hoje em dia. Até aí, a Perro Libre não se diferenciava tanto das demais. Até que veio a 803, a primeira cerveja que nasceu a partir de um reflexão intensa sobre o que a cervejaria queria dizer para o mundo. Mas o desenvolvimento deste produto fez muito mais: colocou em xeque não só as histórias dos três primeiros rótulos, mas a de toda a empresa, que passa agora por uma fase que eles estão chamando de “rePerro”. Thiago Galbeno, um dos sócios, fala do desconforto que originou o processo:

“O storytelling propõe uma relação mais humanizada com as marcas, toda aquela fábula para criar uma história por trás do produto, deixar a coisa mais interessante. Mas, no geral, ele atua no campo do bullshit”

Para Thiago, o que está por trás de uma obrigação mercadológica de ter uma história para contar são fatos superficiais, pensados para ajudar a vender e que não necessariamente trazem uma reflexão sobre o ambiente complexo onde a empresa está envolvida. “Acho que não queremos isso”, diz ele, que tem apenas 22 anos e já é um mestre cervejeiro (um dos mais jovens que se tem notícia). No último ano, Thiago abraçou a empresa com visceralidade, e passa facilmente mais de 10 horas por dia nesta função. Enquanto isso, está no processo complicado de equilibrar uma empresa com o final da faculdade de Administração com enfâse em Empreendedorismo. De vez em quando, tem que sair no meio do dia para aulas, provas, o que consome um tempo que preferia dedicar a fabricar cervejas.

“Quer saber a parte mais gostosa do processo? Colocar o lúpulo na fervura. Sabe quando você coloca o manjericão na massa e sobe aquele cheiro? É a mesma coisa, vem um cheiro cítrico, muito incrível, do lúpulo, cada variedade tem um cheiro diferente. Quem estiver por perto vai sentir o cheiro, é melhor do que abrir uma bergamota”, conta. Atualmente, Thiago é o único dos três sócios que se dedica integralmente à empresa. Porém, a partir do final de julho, ele estará acompanhado por Alberto Galbeno, seu pai e o responsável por disparar a história da cervejaria que está renegando, e reinventando, o storytelling.

Os três primeiros rótulos lançados pela Perro Libre

Os três primeiros rótulos lançados pela Perro Libre são bem humorados e com storytelling “convencional”: tudo isso está mudando.

Há quatro anos, Alberto fez um curso básico para produzir cerveja de panela, em casa, e gostou. Chamou o filho para fazer junto, Thiago retornava de um intercâmbio aos 18 e o pai estava muito mais interessado na boa vida em família do que na improvável formação de uma cervejaria. Acontece que o menino pegou gosto pela coisa, tem que ver, se interessou de verdade, e desde aquele momento Alberto nunca mais fez cerveja sozinho.

NÃO ERA PARA VIRAR NEGÓCIO, MAS VIROU

Saíram fazendo experiências, cerveja de caqui, com pimenta, mistura de estilos. Começaram a pesquisar mais, ler blogs, fuçar a internet atrás de mais cervejas, ainda num momento mais autodidata, que termina quando os dois se matriculam em um curso técnico, em Campinas, mais ou menos um ano depois de fazerem juntos sua primeira receita. Voltaram bem empolgados, compraram equipamentos melhores e a vontade continuou crescendo até que, em 2013, Thiago foi para a Inglaterra fazer um curso de cervejeiro profissional em Sunderland. Doze pessoas de vários lugares do mundo juntas em um dos melhores laboratórios da Europa, fazendo uma cerveja diferente por semana. Isso abriu a cabeça do rapaz, que voltou à Porto Alegre com sede de trabalho.

Neste momento, quando o hobby já ficou lá atrás e o negócio começa a tomar corpo, pai e filho encontram Lucas Sperotto, que se tornaria o terceiro sócio do empreendimento. Lucas já era amigo da família e se aproximou para contribuir com a organização do dia a dia para tocar a empresa e, juntos, durante um ano (do fim de julho de 2013 a junho de 2014) os três amadureceram todo o conceito do que seria a Perro. Em dado momento no meio desse processo resolveram criar sua fábrica. Já estavam com o contrato na mão quando se deram conta que seria uma situação muito pesada, limitadora. Ter uma estrutura industrial exige que se fabrique e venda em grande quantidade para pagar o investimento e os juros, levando a uma produção mais tradicional, mais padronizada pelo mercado.

Entenderam, em tempo hábil, que isso mataria o prazer de criar e experimentar que compartilham. Não assinaram o contrato. No lugar de uma fábrica própria, perceberam que o negócio teria mais agilidade se eles buscassem parcerias que os permitissem utilizar o tempo ocioso das máquinas de outras fábricas de cerveja. E encontraram a Heilige, que fica em Santa Cruz do Sul, RS. Foram os grandes parceiros que toparam fazer a troca, oferecendo a experiência fabril em troca de receber a criatividade das receitas da Perro.

Thiago e Alberto fazem parte de uma família miscigenada, com gente da Espanha, Peru, Bolívia, Uruguai; Lucas tem uma relação muito forte com o Uruguai. Os três compartilham o valor de ser “do mundo”, como dizem, não presos a uma região específica. Confundindo o espanhol com português, algumas pitadas de inglês no meio do caminho, tudo isso acabou compondo a identidade da marca que, hoje, se define como “uma cervejaria sem coleira”.

Malte após a moagem, na Perro Libre.

Malte após a moagem, na Perro Libre.

Foi assim que se tornaram uma cervejaria cigana. Aliás, Perro Libre quer dizer cachorro solto em espanhol, conceito que abraçaram. Bicho solto. E, sem coleira, podendo decidir o que queriam, escolheram o artesanal. Começaram com os três estilos já citados e foram distribuir de porta em porta em Porto Alegre. O processo é bem simples: chegar com as cervejas para os donos de bar experimentarem. Os sócios acharam que seria mais complicado, mas pelo jeito o pessoal gosta. Em menos de um ano de operação, a Perro Libre já é vendida em mais de 50 pontos na capital gaúcha, além de outros pontos na Serra Gaúcha, Goiânia e São Paulo.

No site da empresa, um mapa indica os pontos de venda onde se encontram as Perro Libre na cidade. Há ainda a opção do consumidor entrar para o “Perro Clube” e, assim, receber um lote mensal de garrafas, além de participar de encontros com os cervejeiros da marca e ser convidado para opinar sobre os próximos lançamentos da empresa, com a possibilidade de provar as cervejas antes que entrem em linha de produção. O clube funciona, por enquanto, apenas em Porto Alegre e as mensalidades vão de 75 reais (pack de 6 garrafas por mês) a 190 reais (18 garrafas).

A equipe da Perro é bem enxuta, formada pelos três sócios e mais três profissionais, um para cada área: financeiro, comercial e distribuição, além de contratarem eventualmente o estúdio Abio Design. Thiago fala deste momento, em que a empresa se prepara para uma fase que eles estão chamando de “franqueza radical”:

“As pessoas se preocupam cada vez mais com o que consomem e cabe a nós, produtores, nos preocuparmos com essa cadeia: como surge essa garrafa, da onde veio o malte, isso é transparência e respeito”

Os sócios querem deixar muito claro e acessível toda a cadeia produtiva da cerveja — quanto ela viaja, quanto consume de água, de descartáveis, quanto é imposto, quanto custa cada etapa. Para isso, eles estão remodelando tudo, desde os rótulos e o nome das cervejas até os valores e o manifesto da empresa. É a desconstrução da marca como um todo, para entender o que querem fazer, o que move os sócios e a equipe. Usar as cervejas como narrativa, mas, do que falar?

Thiago considera que chegamos a um ponto onde o storytelling virou commodity e morreu, se perdeu. Acredita que ele é importante para iniciar a reflexão, mas é a partir do storysharing que o impacto passa a fazer um sentido mais amplo, não apenas mercadológico. A 803 foi seu primeiro projeto nessa linha, e os outros três estilos estão sendo repaginados neste processo de rePerro.

“O que realmente valorizamos? Relações transparentes e honestas. Podemos criar contatos mais duradouros e verdadeiros a partir de nossa visão. O que te move de verdade? Se você colocar isso no mundo, as pessoas que se identificam vão te responder. O mundo não precisa de só mais uma cervejaria. Vamos ser nós mesmos, sem coleira, entregando o que acreditamos”, conclui Thiago.

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  • Projeto: Perro Libre
  • O que faz: Cerveja artesantal
  • Sócio(s): Lucas Sperotto‏, Alberto Galbeno‏, Thiago Galbeno
  • Funcionários: 6 (incluindo os sócios)
  • Sede: Porto Alegre
  • Início das atividades: junho de 2014
  • Investimento inicial: R$ 150.000
  • Faturamento: R$ 400.000 (nos primeiros 11 meses de operação)
  • Contato: (51) 3085-7661 e [email protected]
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