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“Meu primeiro emprego abriu portas para uma carreira estável no setor privado. Até que decidi ser voluntária em Moçambique”

Ana Flávia de Sá - 25 mar 2026 Ana Flávia de Sá, superintendente da Fundação Otacílio Coser.
Ana Flávia de Sá, superintendente da Fundação Otacílio Coser.
Ana Flávia de Sá - 25 mar 2026
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Por muito tempo, minha vida parecia seguir um roteiro bastante previsível.

Eu cresci em Bauru, no interior de São Paulo, em uma família que sempre valorizou muito a educação e o conhecimento. Meus pais são funcionários públicos, e a ideia de construir uma carreira sólida sempre esteve muito presente em casa.

Nunca houve pressão direta, mas existia um entendimento claro de que estudar, trabalhar e construir segurança era o caminho natural.

Desde cedo, eu também tinha uma enorme vontade de conquistar minha independência. Fiz de tudo um pouco: trabalhei em loja, participei de auditorias em shoppings, e fui recepcionista em um teatro

Mais do que o dinheiro, o que me movia era a curiosidade, a vontade de aprender, de experimentar o mundo e entender melhor como as coisas funcionavam.

EU GOSTAVA DO TRABALHO E TINHA PERSPECTIVAS DE CRESCIMENTO, MAS SENTIA QUE ALGO ME FALTAVA

Depois de ingressar na faculdade de Comunicação Social na ESPM, em São Paulo, comecei a procurar um estágio em propaganda e marketing, a área que tinha escolhido para estudar.

Foi assim que entrei na Kodak do Brasil, a maior empresa de fotografia do mundo.

Ali começou, de fato, minha trajetória profissional. Entrei como estagiária na área comercial e marketing. Era uma empresa grande, estruturada e cheia de oportunidades de aprendizados 

Após dois anos de estágio, fui contratada e passei a atuar como key account manager, atendendo a rede Kodak Express e grandes distribuidores.

Era um ambiente profissionalmente estimulante. Eu gostava do trabalho, das pessoas e aprendi muito sobre negociação, relacionamento e estratégia comercial. Com o tempo, comecei a construir o que parecia ser uma trajetória profissional promissora e estável.

Cinco anos se passaram e eu tinha segurança e boas perspectivas de crescimento na empresa.

De certa forma, aquilo representava exatamente o que uma carreira deveria ser. Mas, dentro de mim, algo começou a incomodar. Eu gostava do que fazia, mas aos poucos comecei a sentir que algo estava faltando

Meu trabalho era essencialmente comercial. Eu vendia produtos, construía relacionamentos com clientes, entregava resultados e ganhava bônus e incentivos. Tudo isso era importante e fazia parte da lógica do negócio. Mas, no final do dia, o objetivo era o mesmo: gerar lucro para a empresa e seus acionistas.

E, embora eu entendesse perfeitamente a importância disso, incluindo a geração de empregos e a prosperidade de várias famílias, comecei a sentir falta de algo mais. Sentia vontade de contribuir de alguma outra forma para esse mundo, algo que fosse além do resultado comercial.

Na época, eu ainda não sabia nomear exatamente esse sentimento. Eu só sabia que precisava existir, em outro lugar e de outra forma.

AO VER UM ANÚNCIO DE JORNAL CONVOCANDO VOLUNTÁRIOS NA ÁFRICA, TOMEI A DECISÃO DE ME DEMITIR

Um dia, folheando um jornal impresso, vi um pequeno anúncio. Era literalmente um quadradinho perdido na página: “Volunteers Wanted to Africa”.

Tratava-se de um programa internacional de voluntariado. Não sei explicar exatamente o que aconteceu naquele momento, mas alguma coisa dentro de mim despertou. Fui a uma palestra sobre o programa e comecei a entender melhor como funcionava.

A proposta era intensa: um programa de 14 meses de voluntariado internacional. Antes de ir para o voluntariado em si, no país de destino, os participantes passariam seis meses nos Estados Unidos se preparando e captando recursos para financiar o trabalho

Nada era simples. Nada era garantido. Era o famoso “door to door”, batendo de porta em porta. E, ainda assim, aquilo fazia muito sentido para mim.

Pouco tempo depois, tomei a decisão, me organizei, pedi demissão da Kodak e viajei em 30 dias.

EM MOÇAMBIQUE, APLIQUEI MEUS APRENDIZADOS DO MUNDO CORPORATIVO A SERVIÇO DE UM PROJETO SOCIAL

O programa começou com seis meses na Califórnia. Éramos dez participantes de nove nacionalidades diferentes, e desde o início ficou claro que aquele não seria um processo confortável.

Para conseguirmos ir para os nossos respectivos países, precisávamos captar recursos coletivamente e também ser aprovados pelo país onde pretendíamos voluntariar. Na prática, isso significava ir para as ruas de São Francisco e Los Angeles por longos dias e noites, conversar com pessoas, apresentar o projeto e solicitar apoio.

Muitas vezes, dormíamos em cooperativas, igrejas ou espaços comunitários enquanto tentávamos atingir a meta necessária para financiar o trabalho. Paralelamente, estudávamos profundamente a realidade dos países onde poderíamos atuar.

Meu destino final acabou sendo Moçambique. Fui para uma área rural trabalhar inicialmente em um abrigo que atendia crianças e adolescentes 

A ideia era atuar principalmente na educação. Mas, ao chegar lá, comecei a perceber algo que me inquietava profundamente. Havia diversas empresas multinacionais operando na região e gerando muito dinheiro. Ao mesmo tempo, a comunidade enfrentava dificuldades enormes.

Aquela realidade me provocou e me fez questionar como mobilizar mais recursos para aquele trabalho. Foi então que comecei a visitar as empresas locais, algo que não estava exatamente no plano inicial.

De forma intuitiva, passei a usar minha experiência comercial para criar parcerias e captar recursos para o abrigo. Busquei apoio de empresas para doações de produtos, organizei atividades culturais para as crianças e negociei visitas a parques e eventos 

Sem perceber, eu estava colocando a serviço de um projeto social tudo aquilo que havia aprendido no mundo corporativo.

Foi ali que senti, pela primeira vez, que meu trabalho fazia sentido de uma forma muito profunda.

MERGULHAR NO TERCEIRO SETOR SIGNIFICAVA RECOMEÇAR MINHA CARREIRA QUASE DO ZERO. E FOI O QUE FIZ

Quando voltei ao Brasil, estava claro para mim que eu não conseguia mais me imaginar trabalhando fora do terceiro setor.

O problema é que essa decisão significava recomeçar praticamente do zero. Eu não tinha rede de contatos nesse campo, não conhecia profundamente as organizações e o setor era menos estruturado do que é hoje

Comecei novamente como voluntária, na Expedição Vagalume. Depois surgiu minha primeira oportunidade profissional na Plan International, e me mudei para Recife para trabalhar com desenvolvimento comunitário e captação internacional de recursos.

A partir dali, minha trajetória foi se construindo passo a passo. Passei por organizações como Sou da Paz, Childhood Brasil, United Way Brasil e Generation Brasil, sempre atuando em áreas ligadas à captação de recursos, desenvolvimento institucional e construção de parcerias.

Ao longo dessa jornada, reforcei a minha convicção de que o terceiro setor tem um papel estratégico e preponderante na resolução de problemas sociais complexos e multicausais 

Na maioria das vezes, são as organizações da sociedade civil que conseguem chegar onde o poder público ou o setor privado não chegam, porque conhecem os territórios, as comunidades e as realidades locais com profundidade.

Isso ficou muito claro durante a pandemia e, mais recentemente, com as campanhas emergenciais decorrentes dos eventos climáticos.

Mas também aprendi que esse trabalho exige estrutura, profissionalização e reconhecimento. Ainda existe muito desconhecimento sobre o funcionamento e a importância dessas organizações 

Fortalecer o terceiro setor e valorizar seu papel estratégico é um debate que vem avançado graças a importantes iniciativas como o Movimento por uma Cultura de Doação (MCD), que desde 2013 busca mobilizar pessoas, organizações e empresas no propósito de enraizar a doação como parte de nossa cultura.

MEU FIO CONDUTOR FOI A COERÊNCIA ENTRE AQUILO EM QUE ACREDITO E AS ESCOLHAS QUE TOMEI

Hoje sou superintendente da Fundação Otacílio Coser, uma instituição sem fins lucrativos criada há 26 anos no Espírito Santo e dedicada a ampliar o acesso das juventudes desde o ensino básico até o mundo do trabalho.

Atuo diretamente na promoção das juventudes para que, assim como eu, possam sonhar e traçar o próprio caminho, apoiando para que as nossas juventudes tenham condições de decidir sobre suas vidas com autonomia e construir suas próprias histórias.

Olhando para trás, percebo que a minha trajetória foi moldada mais pelas inquietações e questionamentos do que por planos rígidos 

Houve momentos em que senti medo de estar abandonando caminhos mais conhecidos e seguros, mas logo me lembrava de que cada passo dado tinha sentido e propósito, conectado a valores e princípios que sempre foram fundamentais para mim. A coerência entre aquilo em que acredito e minhas escolhas foi o fio condutor dessa jornada.

Se pudesse resumir o maior aprendizado dessa caminhada em uma única ideia, diria que nossa história é composta por capítulos que, à primeira vista, podem parecer desconexos, mas que, quando vistos em conjunto, revelam seu significado.

É preciso persistir até o final para compreender o valor de cada decisão e de cada lição, mesmo diante das dúvidas, dificuldades e momentos de incerteza que surgem pelo caminho

E, igualmente importante, é que nunca estamos realmente sozinhos. Ao nosso redor, sempre há pessoas que compartilham da mesma causa e estão dispostas a trilhar o percurso conosco.

Quando seguimos juntos, a jornada se torna mais leve. E o impacto pode se expandir muito além do que imaginávamos.

 

Ana Flávia de Sá, 50, é superintendente da Fundação Otacílio Coser. Com mais de duas décadas de atuação no terceiro setor, construiu sua trajetória em organizações nacionais e internacionais dedicadas ao desenvolvimento social, com foco em juventude, infância e fortalecimento institucional de organizações da sociedade civil.

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