• LOGO_DRAFTERS_NEGATIVO
  • VBT_LOGO_NEGATIVO
  • Logo

De CEO de multinacional a cantor e doutorando: como planejei ser dono do meu próprio tempo

Ailton Santos Filho - 10 abr 2026 Ailton Santos Filho como Tingo Santi, em seu show-tributo a Roberto Carlos.
Ailton Santos Filho como Tingo Santi, em seu show-tributo a Roberto Carlos.
Ailton Santos Filho - 10 abr 2026
COMPARTILHAR

Fui CEO da Nokia no Brasil, depois de três décadas em posições de liderança em empresas de tecnologia. Publiquei um livro sobre inteligência artificial e sociedade. Hoje, estou em processo de ingresso no doutorado do COPPEAD/UFRJ e, como Tingo Santi, faço shows profissionais dedicados à obra de Roberto Carlos, com orquestra, para plateias relevantes. 

Nada disso foi acidente. Tudo partiu de uma mesma decisão, tomada muito cedo: a de que liberdade sobre o meu próprio tempo seria o ativo mais importante da minha vida. Como isso começou?

Há decisões que não nascem de uma ruptura. Nascem de uma fidelidade silenciosa a uma ideia antiga. A minha começou cedo, no primeiro emprego, em uma multinacional americana, quando uma pergunta feita por uma liderança naquele início de trajetória plantou em mim uma inquietação que nunca mais desapareceu: de quem é, de fato, o nosso tempo?

Não era uma pergunta sobre trabalho. Era uma pergunta sobre vida. Sobre a semana ocupada antes mesmo de começar, sobre os fins de semana já atravessados pela lógica da segunda-feira, sobre a forma como os dias podem deixar de nos pertencer mesmo quando tudo parece estar dando certo. Aquilo ficou em mim. E, desde cedo, liberdade deixou de ser para mim uma palavra abstrata.

Como consequência, passei anos seguindo um plano de vida muito claro: construir uma carreira sólida, conquistar segurança financeira e alcançar, cedo, a liberdade que mais me importava: a autonomia sobre meu próprio tempo. 

PLANEJEI A CONQUISTA DA AUTONOMIA SOBRE O MEU TEMPO SEM ROMANTIZAR NEM CAIR EM CLICHÊS

Ao longo de três décadas em posições de liderança em empresas de tecnologia, havia uma clareza silenciosa organizando tudo ao fundo. 

Eu nunca confundi os instrumentos com o destino: carreira e segurança eram meios de construção; liberdade sobre o meu tempo era o lugar a que eu queria chegar.

Também nunca romantizei essa ideia de forma irresponsável. Tempo sem segurança financeira não é liberdade. É exposição. 

A autonomia que eu buscava precisava estar apoiada em chão firme: moradia, estabilidade, tranquilidade, independência material. Sem isso, liberdade seria apenas um nome bonito para vulnerabilidade

Ao longo do caminho, me chamou a atenção a escassez de referências. Os modelos disponíveis sempre me pareceram insuficientes: de um lado, a lógica de permanecer sempre em atividade parcial; de outro, a aposentadoria como recolhimento e apagamento. E, no meio, o clichê da reinvenção tardia, narrada como crise ou corrida para resgatar um sonho reprimido. 

Eu não me reconheço em nenhum desses modelos. Uma coisa é mudar de rumo em resposta ao esgotamento. Outra, muito diferente, é preparar durante décadas a liberdade de mudar o centro da própria vida.

Planejei encerrar o ciclo executivo antes do roteiro convencional. Inicialmente, queria fazer isso aos 50. Acabei fazendo aos 55. Não executei um impulso. Executei um plano. 

Houve disciplina íntima para construir, ao longo dos anos, as condições que me permitissem comprar o ativo que eu considerava mais importante. 

Quando a hora chegou, eu estava apenas realizando, com serenidade, algo que me acompanhava havia décadas. O auge, para mim, nunca foi um lugar na hierarquia, mas a possibilidade de decidir o que merece as minhas horas

A autonomia não produziu uma vida vazia. Produziu uma vida mais deliberada. Eu não comprei o direito de não fazer nada. Comprei o direito de decidir, com mais responsabilidade, a que dedicar meus anos.

Continuo assumindo compromissos longos, exigentes e trabalhosos. A diferença é que eles passaram a obedecer menos à inércia de um roteiro pronto e mais a uma decisão consciente sobre o que considero digno da minha energia.

INICIEI O INGRESSO NO DOUTORADO PARA DAR VAZÃO AO MEU INTERESSE PELA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Quando comecei a abrir espaço para novas frentes de vida, não deixei para trás o que havia aprendido no mundo corporativo. Levei comigo disciplina, método, visão estratégica, capacidade de execução e compromisso com construção profissional séria. 

A liberdade mudou o destino da minha energia, não o padrão da minha entrega. O que antes eu colocava a serviço de estruturas já estabelecidas passou a servir a projetos escolhidos por mim

Uma dessas frentes é a pesquisa acadêmica. Este ano, iniciei o processo de ingresso no doutorado do COPPEAD/UFRJ, como aluno ouvinte (etapa regular do programa), com foco em inteligência artificial aplicada à gestão e a políticas públicas. 

Esse interesse já havia tomado forma antes, com a publicação do livro A Segunda Maçã: Inteligência Artificial e o Futuro da Sociedade Brasileira, que examina o impacto da IA sobre trabalho, instituições e centralidade humana no Brasil. 

À primeira vista, pode parecer improvável que alguém saia do centro da vida executiva e decida investir anos em investigação e produção intelectual. Eu vejo como parte natural da mesma busca por vitalidade, curiosidade e expansão

A pesquisa exige seriedade, método e permanência, exatamente como outras etapas relevantes da minha trajetória também exigiram.

COMECEI A MINHA CARREIRA MUSICAL ME PERGUNTANDO PARA QUEM EU QUERIA CANTAR E O QUE EU QUERIA OFERECER 

A outra frente é a música. E foi nela que a combinação entre autonomia e capacidade de construção profissional ficou mais visível. 

Comecei cantando ainda criança, nas rodas de seresta que meu pai fazia com amigos no quintal de casa. Não houve um momento de revelação. Foi algo que me acompanhou a vida inteira, até encontrar seu lugar profissional agora. 

Antes de pensar em formato, comecei pela pergunta mais importante: para quem eu queria cantar e o que eu queria oferecer. 

Eu conhecia bem o universo afetivo que me formou: a música pop romântica, os grandes intérpretes, as canções que, para muita gente da minha geração e das gerações anteriores, deixaram de ser apenas música e passaram a funcionar como memória afetiva. Há obras que não envelhecem: transformam-se em abrigo emocional.

Foi aí que nasceu o espetáculo “Tributo ao Rei — Tingo Santi canta Roberto Carlos”: um tributo de alto nível à obra do Rei, sustentado por uma semelhança natural de timbre e por uma leitura interpretativa madura das canções 

O repertório percorre décadas da obra de Roberto Carlos e toca a vida emocional de milhões de brasileiros: de “Detalhes” a “Emoções”, de “Como É Grande o Meu Amor por Você” a “Esse Cara Sou Eu”. 

No palco, trabalho com orquestra e projeção cênica em tela panorâmica, o que permite que cada apresentação ganhe uma dimensão visual e emocional que vai além do que normalmente se espera de um tributo.

A resposta do público confirmou que havia, de fato, uma lacuna. Em menos de dois anos, o projeto alcançou mais de 60 mil seguidores orgânicos no Instagram (@tingosanti) e ultrapassou 20 milhões de streams em plataformas digitais, com destaque para a faixa autoral “É Muita Saudade Pra Pouco Eu” (ouça aqui

Os shows passaram a integrar programações culturais de municípios e eventos corporativos, sempre operando por meio de uma empresa constituída, com documentação e estrutura profissional. 

Tudo construído com a mesma lógica que orientou minha vida corporativa: planejamento, qualidade de execução e consistência.

ENTENDI QUE LIBERDADE É A POSSIBILIDADE DE REORGANIZAR O CENTRO DA EXISTÊNCIA COM MAIS LUCIDEZ

Essa liberdade não significa ausência de responsabilidade. Quando invisto na música, não estou movendo só a minha agenda: envolvo músicos, produtores, contratantes, plateia e parceiros de trabalho. 

Quando me dedico ao doutorado e à pesquisa, assumo responsabilidades que ultrapassam o interesse individual. Talvez por isso eu nunca tenha confundido autonomia com capricho. 

Ter liberdade sobre a própria vida não significa viver trocando de direção ao sabor do humor. Significa poder sustentar, por decisão própria, os caminhos que fazem sentido. 

Talvez a liberdade adulta tenha menos a ver com ausência de vínculos do que com a possibilidade de escolher, com consciência, os vínculos que merecem a nossa vida.

No fim, talvez seja isso que esta fase represente para mim: não uma fuga, nem um prêmio tardio, mas uma forma mais consciente de habitar o tempo. Depois de tantos anos aprendendo a construir resultados, a pergunta mais importante passou a ser outra: o que merece, de fato, a vida que ainda temos pela frente? 

Para mim, liberdade nunca foi ausência de compromisso, nem ruptura com tudo o que veio antes. Foi a possibilidade de reorganizar o centro da existência com mais lucidez, mais presença e mais verdade. 

Amadurecer talvez seja perceber que a vida não precisa caber num único roteiro, e que ser dono do próprio tempo é, antes de tudo, poder dar a ele um sentido que realmente nos pertença.

 

Ailton Santos Filho, 57, é executivo, conselheiro, autor, pesquisador e cantor. Seu nome artístico é Tingo Santi. Hoje empresário de si mesmo, ao longo de mais de 30 anos ocupou posições de liderança em tecnologia, software, telecomunicações e operações globais, incluindo a presidência da Nokia Brasil. É autor do livro “A Segunda Maçã: Inteligência Artificial e o Futuro da Sociedade Brasileira”. É doutorando sobre esse tema na COPPEAD/UFRJ.

 

COMPARTILHAR

Confira Também: