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“Passei anos fotografando e percorrendo o Brasil. Precisei de uma crise para entender o que de maior eu tinha a fazer”

Luis Salvatore - 29 maio 2026 Luis Salvatore, presidente do Instituto Brasil Solidário (crédito: Divulgação IBS).
Luis Salvatore, presidente do Instituto Brasil Solidário (crédito: Divulgação IBS).
Luis Salvatore - 29 maio 2026
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Sou fotógrafo documental, retratista e humanista. Filho do audiovisual, da música e neto de renomado fotógrafo modernista. Fiz Direito, trabalhei em multinacionais e em escritórios grandes de São Paulo e Rio. Mas a câmera, o olhar pelas lentes de uma possível transformação, sempre falou mais alto.

Durante anos percorri o Brasil iniciando, profissionalmente, o caminho que até hoje me guia pelo projeto Trilha Brasil. Documentando o país sem qualquer tipo de manipulação digital, acreditando que o olhar, a sabedoria e a técnica do verdadeiro fotógrafo caminham ao lado do momento da captura da imagem.

Vivenciei ainda no início dessa trajetória um momento único do Brasil, dormindo e convivendo em aldeias indígenas, comunidades ribeirinhas, sertão, Amazônia e interior gaúcho. Eu acreditava que mostrar o Brasil para o brasileiro era suficiente. Não era 

O que fui percebendo nessas viagens, ainda no início, é que havia algo que se repetia em todo lugar, não importava a região, o sotaque ou a paisagem. Havia crianças com uma curiosidade enorme e uma escola pública que não sabia o que fazer com ela. Professores comprometidos, sim, mas com praticamente nada “de qualidade” sob seus pés para uma boa aula. Famílias que sobreviviam apesar do Estado, não por causa dele.

Eu fotografava isso, ia embora — e voltava no ano seguinte para fotografar de novo.

TOMADO POR GRANDES ENTREGAS, DESCUIDEI DA SUSTENTABILIDADE DO INSTITUTO FUNDADO POR MIM

Em 1999, visitei e convivi muito de perto com uma aldeia no Alto Xingu. Não diria que foi um estalo, mas sim o ponto em que tudo que eu havia acumulado em anos anteriores chegou de uma vez.

Voltei de lá sabendo que precisava fazer algo diferente. Depois de quase um ano nessa expedição de ‘viver o brasileiro’ pelo Brasil, fundei, em 2000, o Instituto Brasil Solidário

Nos primeiros anos, aprendemos muito sobre gestão de uma organização social. Começamos do zero, crescemos, entregamos. Muito. Mas, tomados por grandes entregas, não pensamos na sustentabilidade da organização.

O pior veio em 2014. Perdemos o único (e grande) financiador que sustentava o Instituto naquele momento.

Do dia para a noite, não havia verba para praticamente nada. Eu não queria nem ir ao escritório; por isso transformei o espaço num coworking para não ter que fechar as portas. Era uma forma de adiar o que parecia ser inevitável 

Não vou romantizar porque definitivamente foi um período muito ruim. Eu me perguntava se havíamos cometido um erro enorme, se eu tinha sido irresponsável em larga escala comigo, com as equipes, com minha família, com os municípios que dependiam do projeto…

Tinha uma voz lá dentro dizendo que talvez fosse a hora de diversificar. E o que me impediu foi algo que havia começado dois anos antes, quase por acidente do destino, ao buscar doações de livros em escolas particulares.

CRIAMOS UM JOGO DE TABULEIRO QUE GEROU UMA MUDANÇA COMPORTAMENTAL EM ESCOLAS NO CEARÁ

Ainda no meio da crise, em 2014, como ideia criativa de financiar as visitas em campo, começamos a levar adolescentes do projeto para um intercâmbio com jovens de outras realidades e a fazer palestras para os pais deles.

Um dos pais na plateia ficou muito interessado. Era Juca Andrade, vice-presidente do Bank of America.

Esse pai nos procurou. E, dessa conversa, nasceu uma parceria que, no final de 2016, quando tudo estava desmoronando e até optei por sair de São Paulo na busca por redução de custo de vida, foi o que nos manteve em pé 

Foi o Bank of America que chegou com a ideia dos jogos educativos. Ouvi e, honestamente, não sabia ainda se ia funcionar plenamente. Jogo de tabuleiro em escola pública do interior?

Parecia diferente da realidade que eu conhecia de campo, mas sim, fazia sentido numa aplicação de ideias por projetos, e de forma transversal em educar, que sempre foi nossa base de ação nas escolas. E aprendi que às vezes você precisa deixar entrar uma ideia nova em sua casa. De verdade.

No final de 2016, nos mudamos para o Ceará e passamos os meses seguintes desenvolvendo o que viria a ser o Piquenique, um jogo de tabuleiro de educação financeira que trabalhava poupança, consumo consciente e tomada de decisão.

As cartas tinham ilustrações simples, porque o importante era que o aluno lesse e jogasse, não que admirasse o design.

O processo foi complicado, mas extremamente educativo. Como você cria um jogo que funcione numa escola de Beberibe e também em Cascavel? Que faça sentido para uma criança de comunidade indígena e também para um adolescente de periferia urbana? 

Erramos várias versões antes de chegar numa que funcionava. Escutamos, redesenhamos. Quando fizemos o projeto piloto com 400 educadores em três municípios cearenses, fui com o coração na mão. Não tinha certeza de que tudo poderia funcionar e escalar, como proposto.

Mas, em apenas quatro meses, houve uma verdadeira mudança comportamental mensurável nas escolas. Uma revolução pedagógica, sob nossas mãos. E era possível pensar no Brasil. E até na América Latina com aquela solução.

DO PARANÁ AO MARANHÃO, REGISTRAMOS HISTÓRIAS QUE TESTEMUNHAM O VALOR DO NOSSO TRABALHO

Hoje, existem histórias que eu conto e as pessoas acham que estou exagerando. Em Cascavel, no Paraná, uma aluna chamada Maria Vitória aprendeu o jogo na escola e foi ensinar a avó. A avó vendia ovos e galinhas, mas precificava errado, vendia barato demais e não cobria os custos.

A menina, após ter a experiência com o Piquenique, começou a ajudar com os cálculos. A média escolar dela, que era entre 5 e 6, foi para 9 e 10. A diretora da escola me ligou pra contar. Fiquei sem saber o que dizer 

Já em Imperatriz, no Maranhão, a professora Janete fez a formação para aplicar os jogos em sala de aula. Na época, estava endividada. Depois, passou a conseguir honrar os seus compromissos e comprar os remédios do filho autista com o próprio salário. O filho, que não se engajava nas atividades escolares, virou até monitor da aula de educação financeira.

Essas histórias me ensinaram algo que eu achava que já sabia, mas não sabia de verdade: a fotografia registra o Brasil como ele é. A educação muda o Brasil como ele pode ser. São coisas diferentes, mas que se encontram  

Eu precisei de doze anos de câmera na mão para entender que era possível fazer da fotografia um elemento de transformação social. E deu certo.

JÁ IMPACTAMOS MAIS DE 2 MILHÕES DE ESTUDANTES, MAS AINDA TEMOS UM LONGO CAMINHO PELA FRENTE

Atualmente, o IBS está em 822 municípios, nos 26 estados e no Distrito Federal. Já passamos por mais de 2 milhões de estudantes e até lançamos um filme documentário sobre isso. A família de jogos PIC$ chegou a oito países da América Latina. No ano passado completamos 25 anos.

Eu deveria me sentir realizado. E me sinto, mas não da forma tranquila que as pessoas imaginam.

O que me preocupa é escala sem profundidade. É chegar em muitos lugares e não ficar com a qualidade que eu gostaria, que sabemos entregar por completo. É a dificuldade crônica de captação de recursos num país em que educação pública raramente é prioridade real 

O que me preocupa é saber que há 80 milhões de inadimplentes no Brasil e que quase nenhum deles teve uma aula de educação financeira na vida — e que nós chegamos em 2 milhões, o que é muito, mas que ainda deixa 78 milhões de fora.

A transformação educacional não acontece no plano e nem no debate. Acontece na sala de aula quando toca o educador, e no aluno que se transforma. Esse intervalo entre a meta no papel e a aula de amanhã de manhã é onde tudo se decide e onde o Brasil ainda tem um longo caminho.

Continuo fotografando, aliás. E levando estudantes de São Paulo a campo todos os anos. Tenho uma exposição itinerante de povos originários que passou pelo México no ano passado. Nunca separei completamente as duas coisas.

O olhar que treinei em anos de estrada é o mesmo que tento usar no Instituto com nossa equipe: chegar num território, escutar, entender o que aquela comunidade precisa, e construir junto 

O que funciona deve continuar. O que não funciona deve ser aprendido e corrigido. Errar faz parte. Repetir o erro, não.

Ainda estou aprendendo.

 

Luis Eduardo Salvatore é educador social, gestor cultural e diretor executivo do Instituto Brasil Solidário (IBS). Atua há mais de duas décadas no desenvolvimento e implementação de projetos educacionais, culturais e de impacto social em parceria com redes públicas de ensino, organizações da sociedade civil e instituições privadas em todo o Brasil. É idealizador de metodologias educacionais baseadas em jogos pedagógicos, educação financeira, leitura, empreendedorismo e metodologias ativas, com atuação em milhares de escolas e formação de educadores em todos os estados brasileiros. Ao longo de sua trajetória, liderou iniciativas de alcance nacional, financiada por uma Aliança de empresas nacionais e multinacionais, voltadas à formação continuada de professores e ao fortalecimento de políticas públicas educacionais. 

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