TODAS AS CATEGORIAS
De milhares para um milhão de histórias impactadas. Essa é a trajetória que a paulistana Daniela Redondo, 51, ajudou a construir no Instituto Coca-Cola Brasil (ICCB), fundado em 1999. A executiva chegou à multinacional em 2009 para cuidar do modelo de negócio e, em cerca de um ano, migrou para o instituto, assumindo o cargo de diretora-executiva em 2014.
Daniela começou sua carreira como estagiária em grandes empresas, depois foi au pair nos Estados Unidos e ainda teve um franquia de intercâmbio cultural. Essas experiências fizeram com que se engajasse com o universo do impacto e entendesse, na prática, o que significa escalar algo.
Hoje, com o ICCB, ajuda a capacitar jovens de baixa renda, de 16 a 29 anos, para o mercado de trabalho em 4.347 municípios, com uma taxa de inserção produtiva de 64% em até seis meses. Esses resultados têm uma metodologia de escala por trás, conhecida como EGG, e que o instituto apresentará e abrirá para o ecossistema no Impacta Mais, fórum de economia de impacto, realizado entre amanhã (20) e quinta-feira (21) na capital paulista, e do qual é patrocinador.
(Acompanhe a cobertura do Draft, aqui e nas nossas redes, e garanta seu ingresso com 40% de desconto usando nosso cupom DRAFT-40 no site oficial de vendas.)
Na conversa a seguir, Daniela fala sobre os gargalos reais de inserção produtiva para os 31 milhões de jovens brasileiros em situação de baixa renda, o papel da tecnologia do ICCB nessa equação e por que, na sua visão, a inteligência artificial não tem o brilho nos olhos de um jovem no primeiro emprego.
Sou formada em administração e sempre acreditei muito nesse potencial das empresas. Fiz estágio em lugares como a Ford e Banco do Brasil, e vem daí a minha conexão com o setor privado. Depois, decidi fazer um intercâmbio: tinha saído apenas uma vez do país, mas nunca morado fora.
Fui como au pair e percebi como essa vivência no exterior poderia mudar a vida, tanto que, quando voltei, empreendi uma agência de intercâmbio cultural — uma franquia, para ajudar outras pessoas que, como eu na época, não poderiam fazer um intercâmbio, mas que no modelo de au pair conseguiriam pagar pela viagem
Eu tinha essa vontade de promover mudanças de vida, mas não sabia muito bem como, e também esse lado empreendedora, com vontade de buscar soluções e responsabilidade para garantir a folha de pagamento dos funcionários. Tudo isso contribuiu muito com a profissional que sou hoje. E, por fim, o fato de ter passado pelo mundo do franchising, porque fui franqueada e depois convidada para trabalhar com franqueadora em um outro negócio, me deu essa habilidade de escalar.
Acredito que esses três fatores – conexão com propósito, habilidades empreendedoras e entendimento do potencial de escala – ajudaram a fazer essa virada no Instituto Coca-Cola.
A questão da juventude é muito urgente não só pela quantidade, mas também pela inversão da pirâmide sociodemográfica, que põe uma pressão ainda maior no setor produtivo e na parte de previdência.
Dentro da Coca-Cola, quando entrei em 2009, estávamos em um contexto favorável, com uma movimentação social e econômica no país, mais pessoas ascendendo à classe C. E uma das necessidades desse público era ter um diploma ou a carteira de trabalho assinada.
Então, percebemos que os pontos de venda da Coca-Cola – mais de um milhão, que vão de pequenos bares a cinemas e supermercados – poderiam ser os potenciais empregadores desses jovens. E a partir daí a pergunta passou a ser: como a gente conecta a juventude com o mundo do trabalho?
Foi assim que lançamos essa plataforma chamada Coletivo Coca-Cola, com algumas variações de projetos, mas hoje o principal é o Coletivo Jovem, em que capacitamos e conectamos esse público com os parceiros empregadores
O que oferecemos não é uma capacitação técnica, mas de habilidades para o mundo do trabalho, explicando, por exemplo, para esses jovens de baixa renda, que às vezes têm toda a família atuando no mercado informal, quais são as possibilidades de contrato CLT, o que é proteção social, como se faz um currículo mesmo sem experiência, quais as plataformas para buscar emprego, como se comportar em uma entrevista etc.
Essa é a primeira camada, que tira esse jovem da inércia para se movimentar, porque às vezes ele recebe uma formação técnica, mas não sabe muito bem por onde começar. Depois, quando acaba essa capacitação, ele é direcionado para o nosso portal com os empregadores, com quem também mantemos uma conversa para quebrar vieses e falar da potência dessa juventude.
Além disso, fazemos muitas parcerias com o terceiro setor – o que é importante para fortalecer esse ecossistema –, com ONGs que trabalham em outras frentes, como habilidades para o futuro do trabalho, desde a parte de tecnologia, economia verde e criativa até empreendedorismo. E por fim, temos uma parte de fortalecimento do ecossistema, incentivando políticas públicas e movimentos que têm a ver com a inclusão produtiva.
Ao longo dos anos, a tecnologia evoluiu muito e fomos entendendo como usá-la para chegar em mais lugares. Na época em que só tínhamos a atuação com presença física, estávamos em 44 municípios.
Quando mudamos a estratégia — que chamamos de milhares para milhões — e passamos a trabalhar com modelo de exponencialidade, entre 2019 e 2020, percebemos que muita gente tinha smartphone, mas o acesso era limitado por conta dos dados.
Neste cenário, o WhatsApp foi nosso primeiro canal, porque era o mais democrático, já que em muitos planos o uso não consumia dados. Lançamos ali nossa capacitação no formato de nano learning
Na prática, são 12 vídeos curtinhos, que é como os jovens consomem informação hoje em dia. Assim, saímos, no primeiro ano, de 44 municípios para mais de 2 mil.
Depois, fomos ajustando a experiência do usuário oferecendo a plataforma web e, por fim, veio o aplicativo no ano passado, que é muito mais simples de navegar, mas funciona apenas para uma parte da população que tem espaço no celular para baixar e conexão. Por isso, mantemos os três canais, com os mesmos conteúdos, e assim conseguimos chegar a 59% dos municípios brasileiros.
Não dá para falar em apenas um fator, acho que tem um contexto nacional também, com a diminuição da taxa de desemprego, apesar de para os jovens ainda ser mais alta que a média.
E tem o empoderamento para desenvolver autonomia, porque quem faz nossa capacitação e mesmo quem não termina pode procurar um emprego no nosso portal, mas também tem ferramentas suficientes, a partir da formação, para procurar trabalho no entorno, no seu bairro
A parte tecnológica, que facilita essa conexão entre os jovens e empregadores, também acaba automatizando e agilizando algumas partes do processo seletivo.
Fazemos um mapeamento ou o próprio governo procura a gente. No caso do Pacto Nacional pela Inclusão Produtiva das Juventudes, por exemplo, fomos convidados pelo Ministério do Trabalho, UNICEF, Pacto Global e OIT para sermos titular da cadeira e construir junto com eles e outras organizações e pessoas que são nacionalmente influentes nesse ecossistema de inclusão produtiva para jovens.
No caso da parceria com o programa Pé de Meia, da CAIXA, já existe uma política pública e ajudamos a alavancá-la a nível federal, mas também atuamos no nível estadual e municipal. Um bom exemplo nessa esfera é o da COP30, realizada no ano passado no Pará.
Existia a necessidade de preparar Belém para receber um evento daquele porte em termos de habilidades para o mundo do trabalho, mas também tinha a questão do idioma. Então, fomos atrás de um parceiro nosso, a EF, e plugamos na nossa plataforma bolsas para uma trilha de inglês, integrando essa solução em uma plataforma do Governo do Pará, que já era muito bem desenhada.
Distribuímos mais de 5 mil bolsas de inglês não só para jovens, mas para pessoas de forma geral que tivessem interesse em trabalhar na COP ou após esse período — e mais de 7 mil pessoas se capacitaram no Coletivo só ali naquela região.
A gente escalou a ponto de chegarmos, no ano passado, a 861 mil jovens formados. E começamos a ser muito procurados, desde 2024, por pessoas do setor de sustentabilidade ou impacto das empresas por conta da nossa escala, que tem a ver com nossos métodos. Na prática, são canvas ligados a impacto exponencial.
Nosso time desenvolveu essa metodologia junto com uma consultoria chamada MJV Technology & Innovation, que já tinha nos ajudado no processo de escala com ferramentas ágeis. São quatro canvas e também cards com perguntas orientadoras e de diagnóstico.
A gente acredita que, ao aplicar o EGG, as organizações conseguirão ter um método, adaptado à cultura delas, para a escala, independente de sua temática de atuação
Decidimos disponibilizar essa metodologia no nosso site, mas não divulgamos, apenas fizemos um piloto com quatro ou cinco organizações e agora vamos lançar no painel que vou participar no Impacta Mais, colocando o EGG à disposição do ecossistema.
Quando olhamos para o fortalecimento do ecossistema, acho que precisamos considerar investimentos de recursos financeiros também, não só de know-how, para quem está fortalecendo essas conversas. E acho que o Impact Hub, com o Impacta Mais, tem se proposto a isso de forma muito colaborativa e legítima, porque eles realmente estão co-construindo, abertos a discutir.
Decidimos patrocinar no evento uma trilha de inclusão produtiva, em que participamos da curadoria e deixamos o pessoal do Impacta Mais bem à vontade para que sugerisse nomes, justamente para dar visibilidade a outras vozes complementares ou até divergentes, garantindo um debate mais rico.
Nunca duvidamos de que o jovem tem um diferencial onde quer que entre. Temos discutido muito o futuro do trabalho e os fechamentos de posições de entrada por causa da inteligência artificial.
Uma coisa que venho falando é que a IA não tem o brilho nos olhos dos jovens e isso faz muita diferença no ambiente do trabalho, não só para inovação, mas para gerar pipeline para liderança e perspectiva de olhares diferentes. As empresas, quando entram nessa jornada com a gente, ficam muito gratas porque começam a viver isso.
E também tem a questão da força de vontade. Muito se fala que a Geração Z não quer trabalhar como CLT, existe ainda esse estigma. Mas de qual Geração Z estamos falando?
De forma geral, nunca vi faltar força de vontade nesses jovens periféricos. Eles se entregam muito porque, quando ganham o primeiro salário, impactam às vezes quase o dobro da renda familiar
Realmente, muda muito a vida de uma família e, depois, do entorno. Então, não me arrependo por nem um minuto de ter escolhido trabalhar com essa juventude, com essa causa.
Presidente do conselho deliberativo do Instituto Ethos e líder do fundo de projetos de sociobioeconomia da gestora Fama Re.Capital, Andréa Álvares fala sobre sua presença no Impacta Mais e os desafios para que soluções de impacto ganhem escala.
Como canalizar recursos (financeiros, humanos, tecnológicos) para criar um futuro sustentável através de negócios lucrativos? Pablo Handl fala sobre o Impacta Mais, fórum de economia de impacto que ocupa a capital paulista na semana que vem.
