• Camada_1
  • LOGO_DRAFTERS_NEGATIVO
  • VBT_LOGO_NEGATIVO
  • Logo

“The Hope Economy”: um documentário sobre pessoas e projetos que estão criando soluções para os maiores desafios do planeta

Dani Rosolen - 8 jun 2026 Gui Brammer em Seul, na Coreia do Sul, onde começou a captação do documentário “The Hope Economy”.
Gui Brammer em Seul, na Coreia do Sul, onde começou a captação do documentário “The Hope Economy”.
Dani Rosolen - 8 jun 2026
COMPARTILHAR

Gui Brammer é uma figura conhecida no ecossistema de impacto. O engenheiro de materiais passou mais de uma década construindo a Boomera (perfilada no Draft aqui e aqui). A empresa de economia circular nasceu como WiseWaste, em 2012, e ganhou destaque por transformar resíduos em matéria-prima, movimentar cooperativas de catadores e ajudar a desenvolver a ciência da reciclagem no Brasil.

O trabalho rendeu reconhecimentos como o Prêmio Empreendedor Social do jornal Folha de S. Paulo, em 2019, e o título de Inovador Social do Ano pela Fundação Schwab, em 2020. Quando o grupo Ambipar comprou a Boomera, há três anos, Gui deixou a operação, mas seguiu envolvido com o ecossistema. Em 2024, ele se tornou o primeiro brasileiro no conselho executivo no Centro de Natureza e Clima do Fórum Econômico Mundial. E percebeu que, apesar de sua potência, o Brasil ainda ocupava pouco espaço nos debates ambientais.

Esse incômodo e a identificação do fenômeno que ele chamou de “triângulo quebrado” — a distância invisível que isola a inovação de impacto, as grandes corporações e o mercado investidor — impulsionaram a entrada de Gui no audiovisual: ele é o idealizador de The Hope Economy, documentário dirigido por André Barmak (com produção de Gustavo Fonseca e Fernanda Andrade e coprodução de Sylvio Rocha) que estreia na próxima terça-feira (9), com sessão extra na quarta (10), na 15ª Mostra Ecofalante de Cinema, em São Paulo.

The Hope Economy apresenta depoimentos de líderes, cientistas, empreendedores e projetos que estão transformando realidades e criando soluções para os maiores desafios do planeta. Ao todo, foram mais de 70 entrevistas e 100 horas de gravação, realizadas na Coreia do Sul, na China e em mais de 20 localidades brasileiras (contemplando todos os nossos biomas). Esse registro, segundo Gui, ainda deve render podcasts, mini-docs e até um novo negócio com a missão de consertar o tal triângulo quebrado.

A seguir, Gui Brammer conversa com o Draft sobre os bastidores desse projeto. Confira:

O documentário The Hope Economy toma como base a teoria do triângulo quebrado. Qual a premissa desse conceito?

Nada mais é do que a representação de um triângulo, ou seja, três vértices, em que num deles está o empreendedor de impacto, que nasceu para resolver algum problema socioambiental e faz isso com total dedicação. Só que não consegue acessar o mercado, muitas vezes porque o negócio não está pronto, é pequeno, a tecnologia é nova ou porque não tem os protocolos que um grande comprador exige de um fornecedor.

No outro vértice, estão as grandes empresas, que poderiam ser compradoras dessas soluções, anunciam grandes iniciativas socioambientais, mas reclamam que não conseguem comprar mais dessas soluções porque são pequenas.

E no terceiro vértice está o mercado financeiro, com teses bilionárias de investimento e impacto, mas que acaba direcionando dinheiro para aquilo que é mais tradicional. Vão comprar terra, plantar árvores e vender crédito de carbono futuro. E quando olham para um negócio de impacto, que envolve ciência, tecnologia e reciclagem, isso é muito confuso na cabeça deles. Não é o mesmo dialeto. Consequentemente, isso cria distanciamento e risco — e eles são avessos a riscos, portanto a coisa não acontece.

Fui para Seul, comecei gravando lá, e eles entenderam essa questão e começaram a desenhar um ecossistema para fomentar o que estão chamando de supply chain social, ou seja, juntar grandes grupos daquele país para priorizar a compra de negócios de impacto socioambiental. Criou-se, inclusive, um ministério no governo da Coreia do Sul só para negócios de impacto. Então, eles entenderam a importância de grandes corporações olharem para essas empresas com uma visão mais estratégica; e o governo entra como um facilitador dessas conversas.

Essa é a tese do triângulo quebrado, que para ser consertado precisa de intermediários nessa conversa que consigam fazer essas pontes, traduzir essas necessidades de um lado e de outro

O filme traz muito mais perguntas do que respostas. E o protagonismo é sempre do empreendedor de impacto e mostrando a potência que o Brasil tem.

Vocês ouviram cerca de 70 pessoas durante as gravações. Pode compartilhar algumas que o público encontrará no documentário?

Tem histórias maravilhosas. Posso citar a do Dr. Lauro Barata, um professor da Unicamp, hoje com 83 anos, que se aposentou em Campinas (SP) e foi morar em Santarém, no Pará, para ensinar jovens da floresta a virarem cientistas da biotecnologia.

Ele é o único brasileiro contratado pela Chanel, porque conseguiu desenvolver uma tecnologia para extrair uma essência do Pau-rosa sem ter que derrubar a árvore. E ele consegue hoje ensinar seus alunos a usar resíduos orgânicos, resíduos da agricultura, como fonte de matéria-prima

Tem também o pessoal do cacau, em Ilhéus, no interior da Bahia, que fornece esse insumo para grandes empresas de chocolate, num sistema cabruca, uma tecnologia de cultivo brasileira do cacau junto com outras espécies, que consegue uma qualidade de produto absurda, algo que todas as empresas do mundo procuram — e a gente tem aqui.

Mas quando tem algum problema de enchentes na região, por exemplo, muitas das empresas que compram o cacau esquecem dos produtores nesse momento. Então, quando está tudo tranquilo, todo mundo quer; e quando está em dificuldade, eles esquecem… Essa é a paciência que quem está comprando de empresas de impacto precisaria ter no Brasil.

Somos um país continental, com culturas diferentes, projetos brilhante e pessoas que não desistiram e não podem perder a esperança. Por isso, o nome [do documentário] é “Economia da Esperança”, porque se essas pessoas perderem a esperança, com certeza a gente vai ter um planeta muito pior

E, ao mesmo tempo, tem muito dinheiro disponível. Com essas minhas visitas e viagens para o Fórum Econômico e outros lugares, percebi que existe muito dinheiro para negócios de impacto. O que a gente precisa é envelopar melhor os projetos e mostrar ao mercado financeiro a potência tecnológica da biodiversidade brasileira, que nenhum outro país tem.

Você falou de paciência. Criar e lançar um documentário exige muita paciência. Quais foram os principais desafios nessa sua jornada no audiovisual?

Eu sou engenheiro de materiais, tinha fábrica de reciclagem e aí inventei de ir para o audiovisual. Primeiro, porque sou um apaixonado pelo tema e aprendi que, para contar boas histórias, o audiovisual é o melhor formato hoje.

Então, juntei algumas pessoas muito legais – o André Barmak, diretor do filme; o Gustavo Fonseca e a Fernanda Andrade, que produziram junto comigo; e o Silvio Rocha, da Tocha Filmes, que também ajudou a coproduzir. Pegamos umas câmeras e saímos para filmar.

O primeiro desafio que tive, não sendo do setor, foi como organizar um projeto com tão pouco recurso e pouca gente, mas com uma ambição enorme de sair pelo Brasilzão e filmar…

Eu já tinha decidido que investiria parte do que tinha feito com a venda da minha empresa [a Boomera]. Coloquei capital próprio no projeto, junto com o Gustavo e a Fernanda. E não me arrependo em nada, muito pelo contrário. O retorno — talvez não financeiro, mas o retorno de ter vivido o Brasil como a gente viveu — foi genial.

Deu para sentir na pele um pouco do que o pessoal de audiovisual passa para captar recursos. A gente se colocou como captador pela Lei Rouanet e tenho que confessar que me senti um pedinte… Vi o quão complicado é levantar capital para projetos amadores, autorais ou que não tenham a projeção de um artista famoso

A Lei Rouanet existe para ajudar o audiovisual; ao mesmo tempo, está muito direcionada para pessoas já conhecidas. Foi bom ter vivido isso e dar mais valor a artistas e pessoas que vivem disso.

Tivemos dois apoios, da Acelen Renováveis e da AXA Seguros, que acreditaram no projeto. É uma pena que outras não olhem para isso na velocidade necessária. Sendo que para elas não custa nada: é dinheiro de imposto que investiriam na indústria amadora.

A partir do lançamento, quais são os próximos passos e planos para que a mensagem do filme chegue a mais pessoas?

A gente entrou nesse universo de contar história e gostou, então vamos continuar contando. Temos mais de 100 horas gravadas e vamos usar apenas uma hora e meia para o filme. Então, isso vai se desmembrar em podcast, trazendo muita gente para conversar, porque percebemos que tem muito conteúdo ainda a ser trazido.

E vamos também lançar vários mini-docs de projetos específicos, como mobilidade urbana, economia circular, terras degradadas e outros temas que surgiram durante as conversas.

Esses mini-docs vão compor um streaming, uma plataforma de conexão, em que também vamos pegar conteúdos de outras pessoas que já fizeram algo, mas acabaram não tendo dinheiro para editar. Tudo isso será plugado à Fundação Schwab, a fundação do Fórum Econômico que lida com inovação social no planeta. Vamos levar muito conteúdo do Brasil para fora nesse ambiente de negócios de impacto

E por fim, isso também vira um negócio, pois estamos entendendo que alguém precisa ajudar a intervir nessas conversas para consertar esse triângulo quebrado. Então, vamos fazer esse trabalho de tradução entre soluções inovadoras, principalmente em biomateriais, e problemas socioambientais que as grandes empresas querem resolver.

A ideia é virar uma plataforma de conexões, de pontes entre negócios de impacto nessa área e empresas que querem entrar nesse setor.

COMPARTILHAR

Confira Também: