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Sabe quando a gente para num fim de tarde, olha para trás e tenta encontrar o momento exato em que a vida mudou de rumo? Sempre que me pedem para apontar o meu grande momento de virada, aquele “turning point” digno de roteiro de cinema… eu sou obrigado a decepcionar.
Tenho 61 anos. Nasci em Uruguaiana, mas foi com o pó das ruas de Alegrete, no interior do Rio Grande do Sul, que eu ralei os joelhos e aprendi a crescer. Hoje sou casado, pai de um menino incrível. Fui bancário, também educador, e agora me dedico a ser psicoterapeuta junguiano.
Não teve um raio caindo na minha cabeça. As minhas grandes mudanças foram silenciosas
Gosto de lembrar do James Hillman, aquele escritor maravilhoso da psicologia arquetípica, que dizia o seguinte: dentro da semente minúscula do carvalho já existe, adormecida, a grandiosidade da árvore inteira. Olhando para a minha trajetória, sinto exatamente isso.
As mudanças já existiam em potência; elas só estavam ali, escondidas no escuro. Esperando o clima perfeito, a dor exata ou a coragem necessária para rasgar a terra e nascer.
Sou fruto de uma família humilde, de classe média baixa. Meu pai era sargento fuzileiro naval e faleceu em 1976, quando eu tinha apenas 12 anos. Minha mãe, professora municipal, virou a âncora e o leme da casa.
Ela vivia apavorada com a ideia de eu ficar à toa nas ruas: “Cabeça vazia, oficina do diabo”, repetia sempre.
Foi por causa desse medo materno que, logo após a morte do meu pai, ela me mandou fazer um teste para ser ajudante numa papelaria da cidade. Era uma provinha de matemática básica para a minha idade.
O resultado? Fui reprovado.
Na época, fingi que não dei bola. Afinal, a comida continuava na mesa. Mas aquela não-validação doeu fundo. Numa idade em que a gente só quer desesperadamente ser aceito e a insegurança grita nos ouvidos, ser rejeitado até para a vaga na papelaria é um soco no estômago
Nunca esqueci desse episódio. Talvez porque foi o primeiro arranhão na minha autoconfiança – um arranhão que me forçaria, mais tarde, a tentar provar meu valor.
Aos 14 anos e dez meses, a vida me deu outra chance. Fui recrutado para tentar uma vaga de Menor Auxiliar de Serviços Gerais no Banco do Brasil. A entrevista foi com o gerente adjunto, um homem que parecia imenso.
Ele me fuzilou com uma pergunta: “Mas, se não passares, não mudará nada na tua vida, né?”. Tirei coragem não sei de onde e respondi: “Mas se eu passar, mudará”. E mudou.
Para trabalhar, fui estudar à noite, espremido entre adultos cansados do batente. Perdi as tardes com os amigos. Ganhei de brinde o fardo da responsabilidade: bater ponto, seguir hierarquias rígidas, vestir uma cultura organizacional que, na época, eu nem tinha maturidade para compreender
Mas a vida cobra pedágio. Antes de terminar o meu tempo, passei no concurso interno nacional e, aos 18, me tornei de vez funcionário do banco. O sacrifício da juventude financiou o meu chão seguro.
Existe um autor junguiano, Robert A. Johnson, que me marcou profundamente. Ele escreveu que as “vidas não vividas” nos perturbam muito mais do que os nossos segredos mais obscuros reprimidos no inconsciente.
Em 1981, terminei o ensino médio. Naquele tempo, fazer faculdade era privilégio raro. Em Alegrete, as opções eram mínimas. No fundo do meu peito, a bússola apontava para Psicologia ou Educação Física. Mas a realidade fria e a falta de oferta me empurraram para o que era lógico: a Economia, já que eu era bancário.
Minha mãe ficou radiante. Espalhava para a cidade toda que o filho tinha passado no vestibular. Eu, cheio de vergonha e pragmatismo, dizia: “Mãe, para de passar vergonha! Se a pessoa passar na porta da faculdade meio de bobeira, eles já matriculam!”.
Eu brincava para disfarçar. Com os esportes que sempre pratiquei, fui acalmando o fantasma da Educação Física. Mas a Psicologia… ah, essa foi jogada lá no porão, trancada a sete chaves, onde ficou batendo na porta, sussurrando como uma vida não vivida
Na ânsia de provar valor e seguindo conselho de um chefe, fui colecionando títulos que agradassem o mercado. Fiz pós-graduação em Administração em 1991, até que, em 1997, um colega comentou que Brasília seria o lugar para meu currículo brilhar.
Foi o gatilho. Fui falar com o gerente adjunto e joguei tudo para o alto. Pedi para sair de estágio, sob a condição suicida de que não precisassem guardar o meu cargo para uma eventual volta. Eu destruí a ponte que me trazia de volta ao porto seguro. Estava “louco de medo”, com aquele frio na barriga que gela a espinha.
Fui para a capital federal disposto a entregar currículo até em posto de gasolina se o estágio não virasse efetivação… Eu olhava o prédio Sede I do banco pela janela do Hotel Nacional e jurava para mim mesmo que iria trabalhar ali… E deu certo
Fui efetivado em maio de 1998. O Sul ficou para trás. Descobri uma cidade vibrante, sem as estações de extremos climáticos, onde eu podia andar de bermuda e camiseta em julho e mergulhar em livrarias, shoppings e cinemas que me abriram a cabeça. Em 2000, fiz um MBA Controller para reforçar a carreira financeira.
O destino, porém, adora sacudir nossas certezas. Em 2002, o pior dos pesadelos bateu à porta: minha mãe foi diagnosticada com câncer de pulmão e veio morar comigo em Brasília. Foi um choque brutal.
Aquela fantasia infantil de que a mãe da gente é imortal e forte o tempo todo escorreu pelos meus dedos. Cuidar dela me dilacerou. No desespero para salvá-la, minha mente racional de bancário implodiu.
Fui buscar amparo no inexplicável. Estudei tarô, ocultismo, religiões, PNL, fiz curso de Reiki e aplicava nela todas as noites, rezando por uma cura.
Em 16 de outubro de 2003, minha mãe se foi. A escuridão tomou conta. Eu negava a realidade dentro de mim. Chegava em casa e deitava na cama dela para tentar segurar o que já tinha ido embora…
A falta que ela faz nas minhas noites escuras da alma é indescritível. Não existe buraco maior que a ausência do amor incondicional de uma mãe.
A dor abriu fendas enormes na minha armadura corporativa. Entre 2004 e 2005, comecei a atuar como educador pelo banco, num curso de formação inédito chamado “Oficina Pão e Beleza”.
Lidávamos com colegas e também com pessoas da comunidade. Lembro-me de um aluno, colega de banco e cadeirante, que chorou no último dia de aula dizendo que se sentia culpado por fazer pouco pelos outros.
Aquele depoimento me acertou no meio da testa. Um homem que luta diariamente num mundo que não foi arquitetado para ele se comove por compaixão aos outros, enquanto eu, com a vida sem restrições, não estava fazendo minha parte?
A mudança estava cravando sua âncora de vez em mim.
Foi em 2006 que a vida não vivida arrombou a porta do porão. Me matriculei numa pós-graduação em Psicologia Analítica, que acontecia aos sábados perto de casa. Logo na primeira aula, uma aluna do fundo da turma perguntou ao professor Alberto se o Inconsciente Coletivo se assemelhava ao mundo das ideias de Platão.
O sangue sumiu do meu corpo. Quase tive um ataque de pânico. “O que eu tô fazendo aqui?”, pensei. “Eu não sei direito o que é Inconsciente Coletivo, não entendo de Platão, a sala só tem psicólogos e eu sou o cara do banco!”.
Me senti no lugar mais errado do universo. A insegurança me mordeu tão forte que minha única saída foi estudar feito um louco. Devorei livros pelas madrugadas para tentar me igualar a eles e ganhar algum chão seguro.
Comecei os atendimentos em setembro de 2008 como voluntário em uma Comunidade Terapêutica, e o pavor de errar era constante. No mundo em que labutei por mais de vinte anos, 1 mais 1 é igual a 2. Na alma humana, o desconhecido não obedece contas exatas
É engraçado, olhando em retrospectiva, lembrar da minha resistência: mesmo aposentado do banco em 2014, eu continuei indo para o meu consultório de terno e gravata. Batia o meu ponto imaginário das 14h às 21h, mesmo que não tivesse absolutamente ninguém para atender.
Aquele terno era meu cobertor de segurança, a “persona” do bancário que deu certo me abraçando com medo de perder potência e de deixar a nova versão nascer.
Só um tempo depois, o terno foi definitivamente aposentado, o ponto eletrônico da minha mente desligou, os horários ficaram flexíveis. E eu assumi, enfim, a jornada do consultório de peito aberto.
A transição de carreira, porém, não foi o meu maior desafio. Em 2019, o Henrique chegou até nós. Um bebê com apenas dois meses e vinte dias de vida.
Ali, eu me vi de frente para todo o meu não-saber. Não tem protocolo nem script.
O tempo que meu filho tem de vida é exatamente o tempo que eu tenho de pai. Hoje, passados sete anos dessa chegada assustadora, sigo vivendo, dia a dia, a mudança que mais me preencheu de envolvimento e afeto
Atualmente, minha relação com a clínica psicoterápica é muito mais leve e menos exigente. Afinal, já são mais de 20 anos de contato com a teoria e 11 de dedicação exclusiva.
O fantasma da síndrome do impostor ainda ronda? Sim. E que fique por aí, para me impedir de cair na armadilha da soberba… Aprendi a somar os saberes racionais dos meus 34 anos de banco às experiências da trajetória, como a organização de horário e de finanças, a favor da terapia.
A vida não vivida tomou tanto espaço que até me aventurei como escritor. Publiquei o livro Vir-a-Ser para Ser-Vir-a: Uma breve reflexão sobre a finalidade do viver, usando a psicologia como grande pano de fundo.
Claro que sofri e a insegurança reapareceu. Achei que ninguém leria ou iria ao lançamento… Foi a velha sombra agindo para evitar que eu me acomodasse em erros primários.
Hoje, sinto um conforto imenso e uma desconfiança boa de que estou exatamente onde deveria estar. Parece que uma consciência muito maior que a nossa planejou esse roteiro invisível…
Os tropeços e acertos, os medos superados e a dor da perda pavimentaram a estrada que me trouxe até aqui. É reconfortante perceber que, lá no fundo, a semente do carvalho já sabia o seu destino. E o caminho, com certeza, não foi desperdiçado.
Geraldo Araujo é psicoterapeuta junguiano, educador e autor estreante do livro Vir-a-Ser para Ser-Vir-a: Uma Breve Reflexão sobre a Finalidade do Viver. Sua formação inclui pós-graduações em Psicologia Junguiana e em Dependências, Abusos e Compulsões. É radicado em Brasília desde 1998.
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Como alinhar a rotina de hábitos e a bússola interna que indica o percurso que só você pode seguir? Jornalista de formação, Santosha compartilha os insights que a levaram a criar o método Plasticidade – pivotando a própria vida no caminho.
