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“A vida que eu planejei não era a vida que a minha alma precisava”

Paty Palhares - 17 jul 2026 Paty Palhares, fundadora e CEO da HIT Terapias Holísticas (crédito: divulgação).
Paty Palhares, fundadora e CEO da HIT Terapias Holísticas (crédito: divulgação).
Paty Palhares - 17 jul 2026
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Quando eu era criança, tinha certeza de duas coisas: queria trabalhar com comunicação e queria impactar pessoas. E por muito tempo, achei que essas duas coisas significavam exatamente a mesma.

Foi assim que construí minha carreira. Estudei Rádio e TV, me especializei, trabalhei em grandes emissoras — incluindo um período fora do país, na Globo NY. Vivi a correria das redações, participei de coberturas importantes e alcancei objetivos que, para muita gente, representavam o auge.

E eu também acreditava nisso.

Depois de anos em emissora, abri a minha própria produtora, a M9 Produções, que cresceu e virou uma agência. Tinha clientes dos sonhos, projetos grandes, uma rotina febril de eventos, viagens e entregas.

Se você me encontrasse naquela época e perguntasse se eu estava bem, eu responderia “sim” sem pensar duas vezes. Porque, no roteiro que eu havia aprendido, estar ocupada e ser reconhecida era “estar bem”

Mas existe uma pergunta que raramente fazemos quando estamos conquistando nossos objetivos: quanto estamos pagando para chegar lá?

Eu não me fiz essa pergunta. E o meu corpo acabou respondendo por mim.

EU CORRIA PARA ATENDER ÀS EXPECTATIVAS DOS OUTROS, MAS POR DENTRO ME SENTIA DESMORONANDO

Eu tinha 27 anos quando vivi uma das fases mais difíceis da minha vida. O estresse acumulado, a falta de autocuidado, a rotina acelerada e a desconexão completa com meus próprios limites começaram a cobrar um alto preço.

Sentia que estava sempre correndo. Correndo para entregar mais, produzir mais, corresponder às expectativas dos outros e às minhas próprias. Do lado de fora, tudo parecia estar funcionando. Por dentro, eu estava desmoronando.

Foi uma crise de saúde que me obrigou a parar. Tive vários avisos antes e não olhei para nenhum deles.

Eu era jovem, queria dar conta de tudo, e simplesmente seguia. Até que não deu mais. Desenvolvi uma doença autoimune e precisei de cuidados que me tiraram completamente do ritmo. E parar, para alguém tão acostumada a viver acelerada, foi assustador

Lembro do medo. Medo de perder espaço, de ficar para trás, medo de descobrir quem eu era sem a correria profissional a que estava acostumada. Não foi um momento bonito de virada com trilha sonora.

Foi confuso, solitário e, principalmente, foi a primeira vez em muitos anos em que eu não conseguia simplesmente trabalhar mais para resolver o problema.

E houve um receio ainda maior e que doeu mais fundo: eu tinha ouvido que talvez fosse difícil, um dia, conseguir ser mãe. Para alguém que sempre sonhou com a maternidade, aquilo foi devastador…

No entanto, a vida me reservou a sua resposta mais generosa — hoje sou mãe e é o sonho mais realizado que carrego.

COMECEI A QUESTIONAR OS MEUS HÁBITOS E TAMBÉM A MINHA CARREIRA

Cuidar de mim não foi um luxo ou uma folga, e sim o que me devolveu a saúde, e com ela, a chance de viver aquilo que eu mais queria.

Percebi que saúde não é apenas a ausência de doença. Saúde é energia para viver. É conseguir trabalhar sem adoecer.

Saúde é ter presença para estar com quem amamos. É conseguir ouvir o próprio corpo antes que ele grite. É propósito e espiritualidade

A transformação foi tão profunda que comecei a questionar não apenas meus hábitos, mas também minha carreira

Fiz cursos atrás de curso, mergulhei em formações terapêuticas, e fui entendendo que talvez ali estivesse espaço para uma nova vida profissional.

Eu tinha construído uma trajetória sólida na comunicação. Gostava do que fazia. Mas sentia que havia algo maior me chamando.

Essa decisão foi duríssima. O momento mais difícil da minha carreira foi ter coragem de fechar a M9. Eu tinha projetos grandes nas mãos, uma vida confortável, um lugar conquistado a muito custo.

Olhar para tudo aquilo e dizer “isso não faz mais sentido” foi aterrorizante. Eu me perguntava o tempo todo se estava sendo corajosa ou irresponsável

E ainda havia as pessoas da minha equipe, que não conseguiria seguir em paz sem cuidar do futuro deles. Fiz questão de que ninguém ficasse desamparado na transição. Hoje, é uma das coisas de que mais me orgulho.

A EPIFANIA QUE ME LEVOU A EMPREENDER SURGIU DE UMA MEDITAÇÃO NA PRAIA

Mudei para o litoral com um plano de “me dar um ano” para entender quem eu era. E foi exatamente nesse período de pausa que a HIT Terapias Holísticas nasceu. Não de uma planilha, mas de uma meditação.

Eu estava na praia, em silêncio, quando veio a ideia de levar as terapias holísticas para mais perto das pessoas. Peguei um papel e escrevi tudo.

Meu primo, hoje meu sócio e CPO, viu aquele papel e disse na hora: “Isso aqui é um aplicativo”. Em 2021, em plena pandemia e sem nenhum capital externo, a HIT foi ao ar.

Ouvi muitas vezes que aquele mercado era pequeno demais, alternativo demais, difícil demais. Tive madrugadas de insegurança, momentos em que a conta não fechava, dias em que pensei se não estaria cometendo um erro enorme

Mas existe uma coisa curiosa sobre o propósito: quando você encontra algo que realmente faz sentido, ele continua te chamando mesmo quando o medo aparece.

APRENDI OUTROS JEITOS DE MEDIR O SUCESSO E ENTENDI QUE O CRESCIMENTO VEM QUANDO AS COISAS SAEM DO ROTEIRO

Hoje, a HIT é a maior plataforma de terapias holísticas do Brasil com 100 mil usuários, e seguimos crescendo.

Mas aprendi a medir o sucesso de outro jeito — pela qualidade da vida que consigo construir, pela minha saúde mental, pela presença como mãe, pelas relações que cultivo e pela coerência entre aquilo em que acredito e aquilo que faço.

Afinal, eu vendo autocuidado e espiritualidade. Se eu não viver isso, de que adianta?

Hoje tenho regras das quais não abro mão. Sexta à tarde é meu momento de terapia: toda a minha equipe sabe e ninguém marca nada por cima. Tenho minha meditação, minha rotina de movimento, a escrita como a ferramenta que mais me ajuda a entender o que estou sentindo.

Recentemente, decidi fazer uma formação de yoga, bem no meio do crescimento acelerado da empresa. Ouvi gente me perguntando: “Você vai mesmo se dar mais uma tarefa?”.

Respondi que a formação em yoga não era mais uma “tarefa”, era justamente o que iria me trazer de volta ao chão quando a velocidade tentasse me atropelar de novo

Empreender, aliás, virou outra grande escola. Descobri que o crescimento raramente acontece quando tudo dá certo, e sim quando as coisas saem do roteiro e somos obrigados a nos reinventar. Quando deixamos de controlar tudo e aceitamos aprender com o que chega sem aviso.

A EXAUSTÃO É O RESULTADO DE UMA SOCIEDADE QUE SUPERVALORIZA A VELOCIDADE E A PERFORMANCE

Na época, eu enxerguei aquela crise como o fim de uma fase. Hoje, consigo vê-la como um convite para desacelerar e ressignificar a minha vida.

Cada pessoa tem o seu caminho, mas precisamos aprender a escutar os sinais antes que eles virem gritos e doenças.

Vivemos numa sociedade que valoriza produtividade, velocidade e performance, mas pouco nos ensinou sobre pausa, autocuidado e presença. Talvez seja por isso que tanta gente esteja exausta e no limite.

Se eu pudesse voltar no tempo e conversar com aquela jovem que acreditava precisar dar conta de tudo, diria algo muito simples: “Você não precisa se perder para alcançar seus sonhos, porque nenhum sucesso vale o preço da sua própria saúde”.

Aquilo que parece uma crise costuma ser apenas a vida abrindo espaço para uma versão mais autêntica de quem você pode se tornar. Não desista e escute os sinais

Hoje, continuo sonhando, talvez mais do que nunca. Mas os meus sonhos mudaram, não falam só de crescimento profissional.

Meus sonhos falam de impacto, de consciência, de ajudar mais pessoas a encontrarem caminhos de autocuidado. E, principalmente, de ajudá-las a reencontrar a espiritualidade dentro de si.

 

Paty Palhares, 36, é fundadora e CEO da HIT Terapias Holísticas.

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