É um pássaro? Um avião? Não, é um drone garantindo lá de cima a segurança do seu empreendimento aqui embaixo

Leandro Vieira - 13 abr 2021
Os sócios da Aeroscan (da esq. à dir.): Marcello Moreira, Marco Forjaz e Marcelo Musselli.
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Em outubro de 2020, a ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) contava um total de 77 mil drones registrados para uso no Brasil — um aumento de mais de 150% em três anos.

A utilização profissional desses veículos aéreos não-tripulados no país foi regulamentada apenas em 2017. Por enquanto, os setores que mais fazem uso são os de infraestrutura, agricultura, logística e entretenimento (especialmente na realização de obras audiovisuais). 

Os drones, porém, vem ganhando espaço no setor de segurança. No Distrito Federal, por exemplo, a Secretaria de Segurança Pública adquiriu neste ano um pacote com os equipamentos, que devem auxiliar suas operações cotidianas.

De olho nessa oportunidade, Marco Forjaz, 47, e Marcelo Musselli, 30, se uniram para empreender. Eles são os sócios da Aeroscan, startup fundada em 2018 em Barueri, na região metropolitana de São Paulo, que combina o uso de drones a uma plataforma de inteligência artificial para aprimorar a segurança em instalações privadas.

O PAPO DE MONTAR UMA EMPRESA DE DRONE SURGIU EM UMA REUNIÃO FAMILIAR

A ideia surgiu em 2017, num encontro de família — a mãe de Marcelo é casada com um tio de Marco. Quem teve a ideia foi Marcelo, que já trabalhara com drones em projetos de audiovisual, construção civil, mapeamento e inspeção. 

Marco, por sua vez, vinha de um background corporativo, com passagem por empresas como Elemidia, os hotéis Sheraton e Gran Meliá, e tendo atuado como diretor de tecnologia no Brasil da Hilton International América Latina.

Como ambos estavam desempregados na ocasião, resolveram juntar forças para empreender no mercado de drones. Depois de cinco meses de pesquisa, optaram por fechar o foco na segurança — setor que consideravam um oceano azul de oportunidades no país. 

COM UM TELEFONEMA, ELES RECRUTARAM MAIS UM SÓCIO PARA A EMPREITADA

No planejamento, tudo parecia ótimo. Só faltava um “detalhe”: alguém que assumisse a parte técnica do projeto.

Após uma busca intensa, os dois chegaram ao nome de Marcello Moreira, que morava em Minas Gerais. O rapaz, hoje com 26, tem formação em engenharia de controle e automação e alguma experiência na atuação com drones e inteligência artificial. 

Bastou uma ligação telefônica para fecharem de vez a parceria: Moreira topou o convite e embarcou num ônibus para São Paulo, onde os outros dois o ajudaram a se instalar. Logo, Marco conta:

“Nosso começo foi muito louco, cheio de ideias e novidades. O Marcelo pensa sempre fora da caixa, o Moreira tem toda essa calma de mineirinho, é um cara muito técnico… E eu venho desse mundo corporativo, entendo como estruturar, lidar com gestão, pessoas etc.”

Marco é graduado em ciências da computação, com especialização em gestão de negócios. Marcelo, por sua vez, é administrador de formação. Com o engenheiro Moreira, o trio estava completo. 

PARA DESENVOLVER A TECNOLOGIA, OS SÓCIOS QUEIMARAM A GRANA QUE TINHAM

Empreender é dureza, dificilmente tudo vai transcorrer “às mil maravilhas”. A Aeroscan, nesse sentido, não foi exceção. 

Sem um aporte externo, os sócios colocaram todo o investimento inicial do próprio bolso — cerca de 700 mil reais, conquistados a duras penas. 

“Eu e o Marcelo não tínhamos nada. Usamos todas as nossas finanças. Queimei reserva, vendi casa, carro… Nos desfizemos de praticamente tudo que tínhamos de patrimônio para começar a empresa”

Outro desafio foi a falta de grandes referências tecnológicas no mercado nacional. Toda a plataforma de gerenciamento de drones com funções de segurança precisou ser desenvolvida do zero — o que gerou mais custo e redobrou as frustrações. 

“Todo dia eu e o Marcello pegávamos o carro e subíamos uma montanha da região, enquanto o Marco ficava no escritório para acompanhar a transmissão do vídeo”, lembra Marcelo. “Lá em cima, colocávamos o drone em funcionamento. Os testes eram para ver se o equipamento executava os comandos de forma automática.” 

Segundo ele, foram “longos oito meses” até conseguir fazer o drone funcionar por várias horas seguidas.

NUMA FEIRA DE SEGURANÇA, ELES (ENFIM) CONQUISTARAM O PRIMEIRO CLIENTE

Com a tecnologia resolvida, restava uma missão ainda mais complexa: conseguir os primeiros clientes. 

Por ser um produto novo, dizem os sócios, as empresas evitavam se arriscar. Essa tendência só mudou a partir da participação da Aeroscan na ISC, Feira Internacional de Segurança.

Com pouco para investir, os sócios conseguiram cerca de 5 mil reais emprestados e se viraram para montar um estande. A aposta era descolar ali os primeiros clientes para fazer o empreendimento começar a rodar. 

Acabaram encontrando por lá um conhecido, representante da Cushman & Wakefield, empresa global de serviços imobiliários comerciais, e que já tinha demonstrado um interesse anterior no negócio para fazer o monitoramento do e-Business Park, complexo empresarial da companhia em São Paulo.

“Ele falou: ‘Se vocês entregarem uma solução rodando em até 30 dias, eu fecho. Mas não vou pagar nada antecipado”, conta Marco. 

Correndo contra o tempo, eles bateram o prazo estipulado e fecharam o primeiro cliente. Outros vieram na sequência e o negócio começou a decolar.

OS DRONES PODEM GRAVAR VÍDEOS OU TOCAR MENSAGENS DE ALERTA

A plataforma desenvolvida pela empresa permite que o cliente opere múltiplos drones ao mesmo tempo, com acesso à transmissão de vídeo em tempo real e informações relacionadas à altitude, velocidade e localização dos equipamentos. 

Também é possível criar rotas pré-definidas e configurar certas ações em pontos estratégicos, explica Marcello Moreira, que hoje também é sócio do negócio. 

Por exemplo, ao passar por um determinado ponto, o drone pode virar a câmera para baixo, começar a gravar um vídeo, bater fotos ou até tocar um áudio de segurança — pode ser uma sirene ou uma mensagem de voz, com um alerta. Depois da ronda, o drone aterrissa no ponto inicial e começa tudo de novo no tempo determinado pelo cliente.

Um diferencial do sistema, dizem os sócios, é sua adaptabilidade, que permite implementar, em poucas semanas, novas funcionalidades — a pedido do cliente ou de forma proativa.

“A BASF é um dos nossos clientes. Se, por exemplo, descobrirmos que podemos adicionar uma funcionalidade ao drone que detecta a temperatura do tanque para evitar uma explosão, é nossa responsabilidade levar isso até eles

Para operar o equipamento, os vigilantes recebem um treinamento com carga horária que varia entre 30 e 40 horas. Nele, aprendem a operar o drone e são instruídos em planejamentos e operações estratégicas, baseados em planos desenvolvidos pela polícia e pelo Exército. 

O SISTEMA É VENDIDO POR MILHARES DE PARCEIROS ESPALHADOS PELO PAÍS

A solução é vendida num pacote, em um contrato de até três anos, com pagamento mensal, que inclui o aluguel do drone e a plataforma de gerenciamento, além dos serviços de implementação, manutenção, visita técnica, análise de risco, seguro e backup. 

Marco conta sobre a estratégia de mercado:

“No início, íamos até o cliente final para mostrar o produto. Quando começamos a criar cases, mudamos nossa estratégia. Hoje atendemos tudo através de parceiros integradores. São entre 16 mil e 26 mil no Brasil, em que a Aeroscan se torna um hub de solução que cria um diferencial para eles”

Segundo o empreendedor, uma das principais parcerias foi com a CT Segurança, um hub de negócios que ajudou a expandir a exposição da marca. Por enquanto, a Aeroscan soma 13 clientes.

Em 2020, os sócios decidiram investir e trocar o escritório de 40 metros quadrados por um espaço bem maior, de 250 m², também em Barueri. 

A nova sede conta com um terraço ideal para testes com drones, evitando a necessidade de viagens até a montanha. Os sócios também decidiram bancar uma reforma no imóvel. que saiu por cerca de 100 mil reais.

Nesse meio tempo, a equipe cresceu, saltando dos três integrantes iniciais para 12 pessoas, que atuam nas áreas de desenvolvimento, operacional, comercial, instalação e marketing.

UM APORTE NO FIM DE 2020 VEM AJUDANDO O NEGÓCIO A DESLANCHAR

Para cobrir esses gastos, era preciso conquistar novos clientes — ou atrair um aporte externo. 

Após passar por algumas rodadas ao longo de 2020 (que avaliaram o negócio abaixo do esperado pelos sócios), a Aeroscan fechou contrato com a plataforma de investimento EqSeed

No dia 31 de dezembro, foi aberta uma rodada de 10% do valor da empresa, que foi avaliada em 8,5 milhões de reais. Segundo Marco: 

“Foi um recorde para a plataforma, em 72 horas não tinha mais cota para vender. Isso capitalizou o negócio, deu fôlego para entrarmos fortes em janeiro e cobrir esse risco do novo escritório e das contratações”

A startup vem crescendo em meio à pandemia. No primeiro trimestre de 2021, já faturou o mesmo do que em todo o ano de 2020 (em que o resultado já tinha sido 270% superior na comparação com 2019). 

A expectativa, agora, é atualizar a plataforma, desenvolver mais funcionalidades (uma delas, o automonitoramento das operações, deve permitir um maior controle do processo), contratar mais alguns colaboradores e fechar 2021 com um faturamento de 2 milhões de reais.

“O mercado de drones é um dos que mais crescem hoje”, diz Marco. “Ele movimenta bilhões mundialmente, e o setor de segurança apresenta algumas das maiores oportunidades. Para estarmos à frente dessa onda no Brasil, oferecemos um serviço que se molda ao mercado — e antecipa as necessidades dos clientes.”

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DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Aeroscan
  • O que faz: Plataforma de segurança baseada no uso de drones e inteligência artificial
  • Sócio(s): Marco Forjaz, Marcelo Musselli e Marcello Moreira
  • Funcionários: 12
  • Sede: Barueri (SP)
  • Início das atividades: 2018
  • Investimento inicial: R$ 700 mil
  • Faturamento: R$ 2 milhões (previsão para 2021)
  • Contato: [email protected]
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